O esquema, alvo da operação do Ministério Público de São Paulo (MP-SP) e da Polícia Civil, usava uma transportadora de cargas fantasma para lavar dinheiro. Os recursos eram repassados para outras contas com o objetivo de dificultar o rastreio. Duas dessas contas estão em nome de Deolane. Segundo a investigação, o material apreendido em 2019 levou à abertura de três inquéritos sucessivos que revelaram a estrutura financeira do PCC e permitiram a identificação de operadores. Os manuscritos estavam com dois presos e continham ordens internas da facção, contatos com integrantes do alto escalão do PCC e referências a ações violentas contra servidores públicos. Os dois investigados foram condenados e transferidos para o sistema penitenciário federal. Bilhetes de integrantes do PCC interceptados pela polícia penal no presídio de Presidente Venceslau, no interior de SP, deram origem à prisão de Deolane Bezerra. — Foto: Reprodução/TV Globo e Redes Sociais Os bilhetes traziam planos para matar funcionários do sistema prisional e também informações sobre o esquema do tráfico de drogas do PCC comandado por Gilmar Pinheiro Feitoza, apontado como liderança do PCC dentro da Penitenciária II de Presidente Venceslau. Agentes penitenciários localizaram os manuscritos e documentos escondidos na cela de Gilmar e Sharlon Praxedes da Silva, conhecido como “Maradona”, e na caixa de esgoto durante revista realizada em julho de 2019, o que deu origem à investigação. Durante a análise do material, os investigadores encontraram menções a uma “mulher da transportadora”, apontada nos bilhetes como responsável por levantar endereços de agentes públicos para viabilizar ataques planejados pela organização criminosa. A referência levou à abertura de um segundo inquérito, voltado a identificar a mulher citada e entender a ligação entre uma transportadora de cargas sediada em Presidente Venceslau e a facção. As investigações concluíram que a empresa funcionava como companhia de fachada usada para lavagem de dinheiro do PCC. Bilhetes de integrantes do PCC interceptados pela polícia penal no presídio de Presidente Venceslau, no interior de SP, deram origem à prisão de Deolane Bezerra. — Foto: Reprodução/GloboNews Celular apreendido revelou ligação com Deolane Em 2021, a Operação Lado a Lado aprofundou as investigações e apontou movimentações financeiras incompatíveis, crescimento patrimonial sem lastro econômico e uso da transportadora como braço financeiro da facção criminosa. Durante a operação, a polícia apreendeu o celular de Ciro Cesar Lemos, apontado como operador central do esquema. Segundo a investigação, o aparelho revelou detalhes sobre a lavagem de dinheiro realizada pela empresa Lado a Lado Transportes, também chamada Lopes Lemos Transportes. Os investigadores afirmam que Ciro comprava caminhões, realizava pagamentos, movimentava recursos da cúpula do PCC, executava ordens de Marcola e do irmão dele, Alejandro Camacho, além de administrar patrimônio em nome dos dois. A partir da análise do celular, surgiu uma nova frente investigativa relacionada a conexões financeiras com Deolane Bezerra. Bilhetes de integrantes do PCC interceptados pela polícia penal no presídio de Presidente Venceslau, no interior de SP, deram origem à Operação Vérnix, do MP de SP. — Foto: Reprodução/GloboNews Segundo a polícia, imagens encontradas no aparelho mostram depósitos para contas de Deolane e de Everton de Souza, conhecido como “Player”, apontado como operador financeiro da organização criminosa. A investigação sustenta que valores da transportadora eram destinados a Marcola, Alejandro e familiares por meio de contas ligadas a Everton e à influenciadora. Entre os familiares investigados estão Alejandro Camacho; Paloma Sanches Herbas Camacho; e Leonardo Alexsander Ribeiro Herbas Camacho. Segundo a investigação, Paloma estava na Espanha, onde foi presa, atuando como intermediária dos negócios da família, enquanto Leonardo estaria na Bolívia e seria destinatário do dinheiro lavado. Marcola e Alejandro, que já estão presos na Penitenciária Federal de Brasília, também foram alvo de novas ordens de prisão preventiva na operação. Depósitos fracionados e ocultação de recursos Os investigadores afirmam que Deolane mantinha vínculos pessoais e de negócios com um dos gestores fantasmas da transportadora investigada. O cruzamento de provas apreendidas com relatórios financeiros levou a polícia a apontar a influenciadora como recebedora de dinheiro proveniente do PCC. Entenda a ligação entre Deolane Bezerra e Marcola, que levou à prisão da influenciadora Parte das movimentações ocorria por meio de depósitos em espécie feitos a partir do caixa da facção, segundo a investigação. Entre 2018 e 2021, Deolane recebeu R$ 1.067.505 em depósitos fracionados inferiores a R$ 10 mil, prática conhecida como “smurfing”, usada para dificultar rastreamento financeiro. A polícia afirma ainda que Everton “Player” indicava as contas da influenciadora para “fechamentos” mensais do esquema financeiro. As investigações também identificaram quase 50 depósitos feitos em duas empresas ligadas a Deolane, totalizando R$ 716 mil. Os valores partiram de uma empresa apresentada como banco de crédito cujo responsável, segundo a investigação, recebe cerca de um salário mínimo por mês. A análise financeira não encontrou pagamentos compatíveis com os supostos créditos relacionados às transferências. Para os investigadores, isso indica ocultação e dissimulação de recursos da facção criminosa. A polícia também afirma não ter identificado prestação de serviço jurídico que justificasse os valores recebidos pela influenciadora. Segundo a investigação, a projeção pública de Deolane, a atividade empresarial formal e a movimentação patrimonial eram usadas como “camadas de aparente legalidade” para dificultar a identificação da origem ilícita do dinheiro. Ao autorizar as prisões, a Justiça de São Paulo apontou risco de destruição de provas, ocultação de patrimônio, interferência na investigação e fuga dos investigados. Ao todo, foram expedidos seis mandados de prisão preventiva, além de ordens de busca e apreensão. A Justiça também determinou bloqueios financeiros de R$ 357,5 milhões e de 39 veículos avaliados em mais de R$ 8 milhões. No caso específico de Deolane Bezerra, a Justiça bloqueou R$ 27 milhões em bens e valores atribuídos à influenciadora.