Em uma semana, agência de Marcello Lopes foi desclassificada em licitação de SP e deve perder campanhas no governo Lula, avaliam interlocutores do PL O presidenciável do PL Flávio Bolsonaro (à esq.) e seu agora ex-marqueteiro Marcello Lopes, o Marcelão — Foto: Brenno Carvalho/O Globo e Reprodução Embora estivesse sendo planejada pela cúpula da campanha de Flávio Bolsonaro (PL), que até já negociava com Eduardo Fischer, a saída de Marcelo Lopes, o Marcelão, da campanha presidencial foi selada a pedido dele mesmo na noite da última quarta-feira (20) em uma conversa presencial entre os dois. De acordo com fontes da campanha, ao assumir o comando da comunicação, Fischer deve trocar toda a equipe de comunicação e refazer o planejamento. Dois motivos levaram Marcelão a se antecipar: o baque nos negócios de sua agência, a Cálix, que tem contratos com o governo federal desde o mandato de Jair Bolsonaro, e a desastrada gestão da crise deflagrada pelos diálogos em que o senador cobra do dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, dinheiro para o filme sobre a vida de seu pai. Depois da divulgação de áudios e mensagens demonstrando a relação entre eles pelo Intercept Brasil e o envio de pelo menos R$ 61 milhões para um fundo do advogado de Eduardo Bolsonaro no exterior, Flávio, que inicialmente negou ter tido sequer contato com Vorcaro, admitiu as conversas, o envio do dinheiro e, mais recentemente, também revelou ter visitado o ex-banqueiro pouco após sua primeira prisão, quando ele era monitorado por tornozeleira eletrônica. A cada novidade apresentada pela imprensa, Flávio era obrigado a refazer sua versão para incluir algo que ele tinha negado ou escondido antes. Além disso, aliados como o próprio Eduardo e o deputado Mario Frias (PL-SP) apresentaram versões contraditórias sobre a origem do financiamento de “Dark Horse” e mudaram de posição mais de uma vez. O fato de Marcelão ter feito tudo dos Estados Unidos, onde estava de férias com a família, só piorou o que já estava ruim. “Ele estava na Disney e lá ficou. Nem um ombro amigo ele ofereceu”, queixou-se à equipe do blog um integrante do núcleo duro da campanha de Flávio, segundo quem o publicitário veio dos EUA para pedir demissão e já voltou para lá. “Qual gestão [de crise]? Faltou tudo”, completou o aliado, resumindo o clima na equipe sobre a condução da comunicação. Negócios perdidos Até ingressar na campanha de Flávio Bolsonaro, a Cálix detinha dois contratos no governo federal que lhe rendiam R$ 70 milhões ao ano e em tese estão garantidos até 2027. Neste mês, venceu a concorrência para fazer a comunicação do Senado Federal por R$ 90 milhões anuais divididos com outra agência, a Companhia. E acabara de ficar em primeiro lugar entre as empresas habilitadas na disputa por um contrato de R$ 300 milhões do governo de São Paulo, comandado pelo bolsonarista Tarcísio de Freitas (Republicanos). Mas, no último dia 15, o governo paulista desclassificou a Cálix, alegando que a empresa descumpriu regras do edital. A versão, porém, não colou entre aliados de Flávio e nem para Marcelão, que enxergou na decisão um reflexo direto do escândalo envolvendo o Master e o pré-candidato do PL. Depois do revés imposto pelo governo Tarcísio, o marqueteiro passou a temer que sua agência também perdesse a renda milionária garantida pelos contratos com o governo federal obtidos por meio de licitações na gestão de Jair Bolsonaro e mantidas sob Lula em dois ministérios: o da Integração e Desenvolvimento Regional e o de Transportes. “Claro que o Lula não vai mandar dinheiro para a agência [sob influência] do Flávio. Eles recebem quando demandados. Basta os ministérios não solicitarem mais campanhas que o fluxo de dinheiro é interrompido”, disse um integrante da campanha do PL sob reserva. Como mostramos no blog na última terça, a primeira concorrência do governo federal vencida pela Cálix foi aberta por Bolsonaro, em dezembro de 2021, pela então pasta do Desenvolvimento Regional. Três meses depois, a agência venceu outra licitação, dessa vez no extinto Ministério da Infraestrutura. Somados, os contratos preveem o pagamento de até R$ 70 milhões por ano. Desde então, a vigência inicial de 12 meses tem sido prorrogada em sequência, inclusive no governo Lula. O primeiro contrato, de R$ 55 milhões anuais, por ora está ativo até dezembro deste ano. O segundo, de R$ 14,96 milhões, foi esticado até abril de 2027. Publicitários com experiência em contas do governo federal afirmam que, mesmo que o governo Lula decida suspender o fluxo de dinheiro para a Cálix, a agência de Marcelão continua obrigada contratualmente a manter a estrutura para atender os serviços, o que só ampliaria as perdas financeiras do aliado de Flávio. ‘Guerrilha’ Os questionamentos ao marqueteiro começaram antes da revelação dos diálogos entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro pelo Intercept Brasil. Como mostrou a Folha de S. Paulo, Marcelão é citado como estrategista no plano de “marketing de guerrilha” elaborado pela Agência Mithi, do publicitário Thiago Miranda, exibido a Vorcaro na residência do banqueiro em dezembro de 2025, após a primeira prisão dele pela Polícia Federal (PF). Ainda segundo o jornal, o publicitário chegou a receber R$ 650 mil da Mithi, mas alegou que o pagamento se referia a outros serviços. Miranda, por outro lado, afirmou à Folha que Marcelão desistiu ao saber que se tratava do dono do Master.