O mercado financeiro dificilmente será levado exclusivamente pela retórica de Donald Trump sobre a guerra entre Estados Unidos e Irã depois de meses de promessas vazias e bravatas. Acontece que, nesta quarta (20), as palavras do presidente americano sobre os países estarem na "reta final" rumo à paz (ou pacificação do conflito) foram o vetor do otimismo nos mercados. O Ibovespa avançou 1,77%, alcançando os 177.356 pontos no fechamento. Na semana, o índice zerou as perdas, mas, no mês, ainda está com baixa de 5,3%. No acumulado ano até aqui, a alta da carteira é de 10%. A declaração de Trump de que as negociações de paz estão na "fase final" e que os EUA aguardam uma "resposta certa" de Teerã em alguns dias foi suficiente para reduzir a percepção de risco geopolítico global, derrubar o petróleo e liberar apetite por ativos de risco depois de cinco semanas das carteiras no modo defensivo. Não foram somente as palavras de Trump, no entanto, mas os sinais de que os sinais de deterioração das economias chegaram a tal ponto que exigiram mobilização e concessões mais sérias da Casa Branca, aumentando as probabilidades de os países chegarem a um acordo. Ao menos para o Estreito de Ormuz, fechado há mais de dois meses. O giro financeiro do Ibovespa ficou em R$ 22 bilhões hoje, 23% acima da média dos últimos 12 meses, de R$ 18,2 bilhões. Mas ainda é preciso ajustar as lentes: a alta de hoje não é fruto de mudança de cenário, e sim um respiro dentro de uma tendência que ainda não encontrou seu piso. Ontem, o Ibovespa foi ao menor nível em quatro meses e as bolsas de Nova York afundaram diante da crescente convicção de que o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) precisará voltar a subir as taxas de juros neste ano. No amontoado de incertezas externas e domésticas, o golpe atingiu o Brasil, estreitando o corredor do mercado para os cortes na Selic. A forte penalização dos ativos encontrou um obstáculo hoje, mas não necessariamente um freio. O dólar à vista cedeu 0,74% contra o real hoje, de volta aos R$ 5. Na semana, ficou 1,26% mais barato, mas, no mês, está com alta de 1% sobre o real. No ano até aqui, cedeu 8,84% no mercado de câmbio local. Basicamente, a recuperação de hoje empata o jogo. No Brasil, o Ibovespa e o dólar apenas voltaram ao patamar de fechamento da semana anterior, três sessões atrás. Não há sinalizações, no entanto, de mudança de tendência - a menos que as promessas de Trump se confirmem desta vez. Das 79 ações que compõem o Ibovespa atualmente, 75 valorizaram hoje. Recuperação que inspira cautela A alta das ações no Brasil hoje se apoiou num evento possivelmente efêmero, espécie de soluço para a tendência de queda. Basta lembrar que, apenas nas últimas semanas, Trump já oscilou entre "a guerra vai acabar muito rapidamente" e "não tenho pressa para encerrar o conflito" - às vezes no mesmo dia. Não há ainda nenhum acordo assinado, nenhum cessar-fogo formalizado, nenhuma reabertura concreta do Estreito de Ormuz. O que existe é expectativa. E expectativas, no mercado financeiro, têm prazo de validade proporcional à volatilidade da fonte que as gera. No mais, os três problemas que derrubaram o Ibovespa em maio seguem intactos. O primeiro problema para a bolsa vem do cenário externo. O petróleo ainda está cerca de 50% acima dos níveis pré-guerra no Golfo Pérsico - teimosamente acima dos US$ 100. A inflação continua pressionada pelo choque de energia, e a ata da última reunião do Fed, publicada hoje, mostrou que a maioria dos dirigentes está alerta para o risco de um progresso mais lento rumo à meta de 2%, com "muitos participantes" indicando que preferem remover da comunicação oficial qualquer viés de afrouxamento nos juros. O mercado investidor já trabalha com probabilidades superiores a 40% de alta de juros pelo Fed em setembro - até dezembro, essas perspectivas ganham ainda mais convicção e se tornaram o cenário majoritário no mercado americano. E esse não é um ambiente em que o apetite por emergentes se recupera espontaneamente, tampouco um em que se sustenta. O segundo problema para a bolsa do Brasil é de fluxo. O saldo de investidores internacionais no mercado à vista de ações segue positivo em 2026, em R$ 46 bilhões, mas em maio o movimento se inverteu, com saída líquida de R$ 10,5 bilhões neste mês até o dia 18. Então a força impulsora que levou o Ibovespa para perto dos 199 mil pontos em abril está operando no sentido contrário, como uma âncora. E ela não vai virar de direção sem sinais estruturais. O terceiro fator de desconfiança sobre a recuperação da bolsa é doméstico. O caso envolvendo o senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato à presidência pelo PL, e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro deteriorou a percepção eleitoral de forma que o mercado lê como fiscalmente desfavorável: a erosão das chances da oposição ao Planalto reduz, na leitura dos operadores, a probabilidade de uma agenda mais ortodoxa a partir de 2027. A expectativa para o encerramento da Selic em 2026 saltou de 12% para 13,5% ao ano desde o início da guerra. Há menos espaço de manobra para o Banco Central (BC), e o mercado sabe disso. A taxa de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 saiu de 14,15% para 14,06% ao ano. Prêmios em contratos de curto prazo estão mais ligados às expectativas dos investidores para a Selic.No médio prazo, os retornos da taxa para janeiro de 2031 oscilaram de 14,28% para 14,08% ao ano.Já para janeiro de 2036, a taxa oscilou de 14,34% para 14,16% ao ano. Vencimentos com prazos mais longos refletem uma maior preocupação com calote do governo. Esse cenário corrobora a análise técnica. Para analistas do Itaú BBA, o Ibovespa entrou em tendência de baixa de curto prazo e precisaria superar a região dos 179.500 pontos para voltar a um cenário neutro. O fechamento desta quarta nos 177 mil pontos significa que o índice ainda está mais de 2 mil pontos abaixo dessa linha. Ou seja, a alta de hoje foi expressiva, mas insuficiente para mudar a tendência na leitura gráfica. "Em caso de uma recuperação, o Ibovespa terá que superar a região de 179.500 pontos para sair dessa tendência de baixa e retornar a um cenário neutro. Vale destacar ainda que o índice precisará superar a resistência em 188.700 pontos antes de voltar a apontar para a máxima histórica em 199.300 pontos", traz o relatório assinado por Lucas Piza, analista do Itaú BBA. O que precisaria mudar "No curto prazo, a tendência de baixa ainda está sendo testada, mas não completamente invalidada. O Ibovespa reagiu, voltou a recuperar algumas regiões relevantes e trouxe alívio técnico. Mas alívio não é reversão automática. O mercado ainda precisa romper resistências importantes com volume consistente e continuidade de fluxo comprador. Sem isso, o risco continua sendo de um repique técnico dentro de uma estrutura mais defensiva", avalia Olívia Flôres de Brás, CEO da Magno Investimentos. Para uma recuperação mais confiável da bolsa, seriam necessários três desbloqueios - e, por ora, nenhum deles é iminente. No front externo, uma resolução concreta do conflito no Oriente Médio, com reabertura efetiva do Estreito de Ormuz e queda sustentada do petróleo. Essa mudança reabriria espaço para ao menos um alívio nas expectativas para os juros (eliminando a necessidade de aumento das taxas pelo Fed nos EUA), melhoraria o ambiente global para emergentes e aliviaria a pressão inflacionária que mantém a Selic represada. No front doméstico, alguma âncora fiscal que recoloque a trajetória da dívida pública sob controle. No front político, seria sinal de estabilização do cenário eleitoral. Não necessariamente no sentido de uma mudança de favorito, mas previsibilidade suficiente para o mercado conseguir precificar a agenda econômica de 2027 com alguma confiança. O diferencial de juros entre Brasil e EUA - com a Selic a 14,5% frente a taxas do Fed entre 3,5% e 3,75% - segue sendo um argumento estrutural a favor do fluxo externo para o país, como lembra Nicolas Gass, estrategista da GT Capital. Só que o diferencial de juros atrai capital para renda fixa, não necessariamente para a bolsa. E o que o pregão de hoje mostrou é que, mesmo com um degrau gigantesco entre os dois cenários, o capital ainda está mais inclinado a sair do que a entrar no mercado acionário. "O mercado não perdeu dinheiro. Perdeu convicção. E quando a inocência sai da sala, quem fica negociando é o risco", resume a CEO da Magno Investimentos. Comportamento das ações do Ibovespa em 20/5/2026 Código Nome Abertura Mínima Média Máxima Fechamento Var. % CMIN3 CSN MINERACAO ON 4,16 4,13 4,36 4,51 4,50 10,29 CURY3 CURY S/A ON 28,98 28,93 30,79 31,40 31,30 8,53 LREN3 LOJAS RENNER ON 13,78 13,78 14,44 14,79 14,70 7,77 MBRF3 MARFRIG ON 16,55 16,51 17,34 17,83 17,67 7,09 DIRR3 DIRECIONAL ON 12,57 12,54 13,23 13,47 13,34 6,89 CEAB3 CEA MODAS ON 10,66 10,66 11,03 11,30 11,15 5,79 B3SA3 B3 ON 16,07 15,97 16,74 17,08 16,79 5,66 RENT3 LOCALIZA ON 42,31 41,95 44,01 44,68 44,47 5,65 ASAI3 ASSAI ON 8,21 8,21 8,58 8,72 8,61 5,51 MRVE3 MRV ON 6,16 6,16 6,44 6,57 6,44 5,40 BRAV3 BRAVA ON 18,65 18,65 19,50 19,90 19,75 5,28 USIM5 USIMINAS PNA 9,19 9,19 9,49 9,68 9,61 5,26 VAMO3 VAMOS ON 3,28 3,22 3,37 3,42 3,41 5,25 SMFT3 SMART FIT ON 18,61 18,61 19,42 19,72 19,54 5,22 YDUQ3 YDUQS PART ON 9,44 9,42 9,75 9,95 9,78 4,94 TOTS3 TOTVS ON 30,75 30,62 31,50 32,10 32,10 4,77 CSAN3 COSAN ON 4,17 4,15 4,28 4,34 4,32 4,60 HAPV3 HAPVIDA ON 12,85 12,81 13,26 13,44 13,27 4,41 AZZA3 AZZAS 2154 ON 19,02 18,98 19,51 19,94 19,60 4,37 ENEV3 ENEVA ON 24,57 24,33 25,22 25,64 25,21 4,13 CSNA3 SID NACIONAL ON 5,97 5,95 6,09 6,17 6,13 3,90 MOTV3 MOTIVA SA ON NM 14,81 14,79 15,24 15,41 15,23 3,75 MGLU3 MAGAZINE LUIZA ON 6,53 6,49 6,64 6,80 6,73 3,70 HYPE3 HYPERA ON 22,02 22,00 22,56 22,78 22,67 3,47 CYRE3 CYRELA REALT ON 21,59 21,44 22,22 22,55 22,14 3,46 MULT3 MULTIPLAN ON 29,49 29,26 30,12 30,43 30,11 3,40 PSSA3 PORTO SEGURO ON 47,87 47,64 49,20 49,63 49,22 3,32 COGN3 COGNA ON 2,50 2,47 2,53 2,59 2,54 3,25 ALOS3 ALLOS ON 28,01 27,61 28,60 28,98 28,66 3,24 RADL3 RAIA DROGASIL ON 18,65 18,55 19,05 19,33 19,13 3,24 IGTI11 IGUATEMI S.A UNT 25,95 25,90 26,61 26,90 26,64 3,22 FLRY3 FLEURY ON 15,42 15,39 15,78 15,92 15,80 3,13 RECV3 PETRORECSA ON 11,79 11,74 12,07 12,24 12,19 3,04 CPLE3 COPEL ON 14,80 14,79 15,13 15,23 15,12 2,86 BRAP4 BRADESPAR PN 22,52 22,48 22,88 23,11 23,03 2,81 RAIL3 RUMO S.A. ON 14,74 14,65 15,02 15,26 15,02 2,81 SUZB3 SUZANO S.A. ON 41,40 41,20 42,09 42,62 42,20 2,80 BBDC4 BRADESCO PN 17,51 17,51 17,87 18,02 17,86 2,70 ITSA4 ITAUSA PN 12,79 12,70 12,99 13,07 13,00 2,69 NATU3 NATURA ON 9,79 9,77 10,00 10,13 10,00 2,67 SANB11 SANTANDER BR UNIT 26,90 26,83 27,42 27,66 27,45 2,62 AURE3 AUREN ON 12,32 12,32 12,69 12,85 12,60 2,61 KLBN11 KLABIN S/A UNT 16,13 16,13 16,49 16,65 16,52 2,61 RDOR3 REDE D OR ON 34,46 34,17 35,17 35,67 34,99 2,61 ABEV3 AMBEV S/A ON 15,91 15,87 16,19 16,31 16,22 2,59 POMO4 MARCOPOLO PN 5,88 5,82 5,95 6,02 5,98 2,57 EMBJ3 EMBRAER ON 69,51 69,09 70,30 71,07 70,38 2,53 ISAE4 ISA ENERGIA PN 28,01 27,97 28,65 28,94 28,64 2,51 BBDC3 BRADESCO ON 15,32 15,24 15,52 15,64 15,49 2,38 BBSE3 BB SEGURIDADE ON 34,30 33,95 34,40 34,91 34,71 2,36 CXSE3 CAIXA SEGURI ON 17,57 17,56 17,93 18,06 17,94 2,34 VIVT3 TELEF BRASIL ON 34,89 34,79 35,38 35,64 35,40 2,34 BBAS3 BRASIL ON 20,40 20,31 20,65 20,78 20,70 2,32 GOAU4 GERDAU MET PN 10,05 10,05 10,21 10,30 10,25 2,30 ITUB4 ITAU UNIBANCO PN 39,22 39,10 39,76 39,98 39,67 2,29 UGPA3 ULTRAPAR ON 28,45 28,34 28,92 29,11 29,02 2,29 ENGI11 ENERGISA UNT 47,70 47,70 49,10 49,57 48,70 2,27 AXIA3 AXIA ENERGIA ON 54,17 54,10 55,21 55,53 55,00 2,19 AXIA6 AXIA ENERGIA PNB 59,49 59,13 60,61 60,93 60,47 2,15 SBSP3 SABESP ON 28,72 28,37 29,14 29,44 29,15 2,14 BPAC11 BTGP BANCO UNT 53,52 52,95 54,43 55,12 54,20 2,13 VBBR3 VIBRA ON 32,86 32,75 33,38 33,63 33,34 2,05 CMIG4 CEMIG PN 11,39 11,35 11,56 11,68 11,53 1,95 GGBR4 GERDAU PN 23,13 23,07 23,40 23,67 23,47 1,95 EQTL3 EQUATORIAL ON 38,27 37,95 38,66 38,99 38,55 1,93 EGIE3 ENGIE BRASIL ON 31,85 31,84 32,66 32,92 32,36 1,86 WEGE3 WEG ON 42,25 41,81 42,57 42,90 42,58 1,82 VIVA3 VIVARA ON 22,35 22,35 22,89 23,31 22,66 1,66 CPFE3 CPFL ENERGIA ON 44,01 43,76 44,38 44,75 44,37 1,49 TAEE11 TAESA UNIT 38,20 38,11 38,65 38,88 38,56 1,34 TIMS3 TIM ON 22,24 22,24 22,52 22,67 22,50 1,31 VALE3 VALE ON 81,45 80,85 81,70 82,21 82,00 1,21 BEEF3 MINERVA ON 4,23 4,20 4,28 4,36 4,26 0,95 BRKM5 BRASKEM PNA 12,11 12,00 12,18 12,33 12,18 0,50 CSMG3 COPASA ON 52,79 52,29 52,93 53,65 52,80 0,06 PRIO3 PETRORIO ON 68,56 67,20 68,43 69,44 68,63 -1,00 SLCE3 SLC AGRICOLA ON 16,87 16,35 16,52 16,87 16,52 -1,61 PETR4 PETROBRAS PN 45,77 44,54 45,16 46,41 44,60 -3,23 PETR3 PETROBRAS ON 51,31 49,68 50,37 52,16 49,68 -3,85
Ibovespa ensaia recuperação em alta de 2%, mas aposta na bolsa ainda inspira cautela
Saldo do Dia: Déjà vu. Trump promete fim para a guerra entre EUA e Irã 'em breve'. Foi desculpa suficiente para o alívio nos ativos hoje após dias de queda. Mas, sem sinais concretos, nada sugere uma mudança de tendência no mercado de ações










