Aprovado nesta quarta-feira (19) para a presidência da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) pelo plenário do Senado, por 31 votos a favor e 13 contra, após sabatina na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE), o advogado Otto Lobo, 58 anos, chega ao comando da autarquia em um momento de crise interna do órgão e sob críticas do mercado de capitais. Ex-diretor da CVM, Lobo exerceu a presidência interina do órgão regulador entre julho e dezembro de 2025, depois da renúncia de João Pedro Nascimento. Indicado em janeiro de 2026 pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Lobo teve seu nome encaminhado ao Senado pelo presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União), em um processo que levou quatro meses até ser apreciado na CAE. A indicação dividiu opiniões, uma vez que parte do mercado vê o nome de Lobo como uma escolha política em um cargo tradicionalmente ocupado por quadros de perfil técnico. Lobo ingressou na diretoria da CVM em 2022, após ser nomeado no último ano do governo Jair Bolsonaro. À época, assumiu um mandato considerado tampão, após a saída do ex-diretor Henrique Machado. Na CVM, a atuação do advogado foi marcada por participação em casos complexos e com repercussão no mercado. Decisões polêmicas No julgamento envolvendo executivos da Americanas, por exemplo, o voto de Lobo foi decisivo para a absolvição de um dos acusados e para a condenação de outro, evidenciando a divisão de entendimentos no colegiado sobre responsabilidade de administradores. No período em que foi presidente interino, colecionou decisões polêmicas, incluindo o chamado “voto de minerva” que reverteu a oferta pública de ações (OPA) da Ambipar. A discussão sobre a realização da oferta ocorreu após aumento de participação do controlador na empresa. Em decisões administrativas, o presidente da CVM pode exercer o voto de desempate, o que amplia o peso institucional de sua posição. Mas, neste caso, a polêmica surgiu uma vez que o presidente anterior já havia votado a favor da OPA. Fontes que acompanham a atuação de Lobo afirmam que outro traço dele é não gostar de “perder” em votações, o que faz com que ele costume esperar a decisão do colegiado e acompanhar os entendimentos da maioria para não ser “voto vencido”. A solicitação de vista de processos, especialmente em casos de maior complexidade jurídica ou técnica, também é um comportamento recorrente. Embora previsto no rito da autarquia, a postura foi alvo de críticas internas e interpretada por agentes do mercado como fator de alongamento de julgamentos relevantes. Mesmo enquanto aguardava o avanço da sabatina no Senado, Lobo continuou exercendo influência nos bastidores da CVM, segundo relatos de fontes da autarquia. De acordo com interlocutores ouvidos pelo Valor, o advogado acompanhava diariamente assuntos internos por meio de assessores e de conversas frequentes com o então presidente interino, João Accioly. Entre os episódios atribuídos à atuação indireta de Lobo esteve a resistência à proposta de transmissão das reuniões do colegiado pelo YouTube, iniciativa defendida por Accioly e que teria enfrentado rejeição de Lobo. Também houve divergências em torno de mudanças em cargos estratégicos da autarquia. Em alguns casos, como a saída de superintendentes e chefias técnicas, assessores afirmam que decisões eram discutidas previamente com Lobo; em outros, como a substituição do chefe de gabinete, o então indicado à presidência teria demonstrado insatisfação com alterações promovidas sem seu aval. Controversa desde o início, a indicação de Lobo também foi acompanhada de questionamentos. O Ministério Público junto ao Tribunal de Contas da União (TCU) chegou a solicitar a suspensão da sabatina, citando decisões anteriores do indicado em casos sensíveis, mas o pedido foi posteriormente arquivado. Uma fonte que prefere não se identificar afirma que o nome de Lobo resultou em ruídos pelo teor político, diante da peregrinação que teria feito enquanto aspirante ao comando da CVM antes mesmo de sua indicação e também em meio às incertezas sobre a viabilidade do próprio nome. “Apesar de qualidades técnicas, ter promessas junto à classe política ou do mercado descredibiliza qualquer nome”, disse a fonte. Outro interlocutor afirma, por outro lado, que o novo presidente tem credenciais para assumir a posição. “Ele foi um bom membro do Conselhinho e, na CVM, também fez parte de um grupo de diretores que se caracterizou, nos últimos anos, por um debate técnico e sofisticado de temas também complexos, com opiniões muitas vezes divergentes, mas sempre fundamentadas.” Trajetória Lobo atuou como conselheiro titular do Conselho de Recursos do Sistema Financeiro Nacional (CRSFN), entre 2015 e 2018. No setor privado, iniciou carreira no escritório Cantidiano Advogados, ligado ao jurista Luiz Leonardo Cantidiano (1949-2017), que presidiu a CVM entre 2002 e 2004. Também é fundador do escritório Lobo & Martin Advogados. Filho e marido de desembargadoras, Lobo é conhecido pelo bom trânsito que tem no Judiciário. Graduado em direito pela PUC-Rio, Lobo tem mestrado pela University of Miami, nos Estados Unidos, e doutorado em Direito Empresarial pela Universidade de São Paulo (USP). Para um representante da CVM, Lobo volta ao regulador para presidir a autarquia no momento mais delicado e com melhor perspectiva de fortalecimento. Vai cumprir o restante do mandato que era do ex-presidente da autarquia, com término previsto em julho de 2027. Entre os desafios dele à frente da CVM, estão as respostas para casos envolvendo o Banco Master e fundos de investimento. Ao mesmo tempo, a recente decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Flavio Dino de destinar 70% da taxa de fiscalização da CVM de volta à autarquia coloca o órgão em posição de destaque. “Vamos ver a capacidade de entrega que [Lobo] terá em agenda regulatória e atividade sancionadora”, disse essa fonte. Procurado, Lobo respondeu que entende ser mais apropriado não se pronunciar no momento. O novo presidente da CVM, o advogado Otto Lobo — Foto: Leo Pinheiro/Valor
Aprovado no Senado, Otto Lobo chega à presidência da CVM cercado de controvérsias
Parte do mercado de capitais vê o nome do advogado Otto Lobo como uma escolha política em um cargo tradicionalmente ocupado por quadros de perfil técnico












