Bondade para taxistas e motoristas de aplicativo é danosa à vida nas cidades, ao meio ambiente e às contas públicas Engarrafamento na Avenida 23 de Maio, em São Paulo — Foto: Edilson Dantas /Agência O Globo Na mais recente medida eleitoreira, com o objetivo indisfarçável de melhorar os índices de popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o governo anunciou um programa para beneficiar taxistas e motoristas de aplicativo. Criado por meio de Medida Provisória, ele permitirá financiar em até seis anos a compra de qualquer veículo de até R$ 150 mil com juros camaradas. Os empréstimos serão fornecidos pelo BNDES por meio da rede bancária. A conta para o Tesouro é estimada em R$ 30 bilhões — e será paga integralmente pelo contribuinte. Os governistas calculam que serão vendidos de 200 mil a 300 mil automóveis. O valor, diz o governo, permitirá a compra de carros mais confortáveis, para proporcionar corridas mais rentáveis. Os juros estão previstos em 12,6% ao ano para homens e 11,5% para mulheres. O governo justifica a diferença pela intenção de reforçar a presença feminina no setor. É evidente que a medida agradará a taxistas e motoristas de aplicativos. Menos evidente, mas bem mais grave, será seu custo. Haverá prejuízo para a vida nas cidades, o meio ambiente e as contas públicas. Do ponto de vista urbanístico, não tem nexo o BNDES, banco que deveria se dedicar ao fomento de setores estratégicos ou inovadores, investir na renovação de frota de carros. Isso vai na contramão da necessidade da população, pois estimula o transporte individual em detrimento do coletivo — que caiu de 49,8% das viagens urbanas em 2017 para 31,7% em 2024, segundo a Confederação Nacional do Transporte (CNT). A decadência do transporte público se traduz em ruas abarrotadas de automóveis e em tempos maiores de deslocamento. Outro efeito indesejado é aumento da emissão de gases. Embora o programa também se destine a veículos elétricos ou híbridos, não há restrição aos movidos por combustíveis fósseis, em mais um estímulo à poluição ambiental nas cidades. Os R$ 30 bilhões teriam destino bem mais sensato se financiassem ônibus elétricos, metrôs ou VLTs para ajudar a desafogar as cidades e reduzir as emissões. Em vez disso, o que parece preocupar mais o governo é se o passageiro ficará parado no trânsito num carro mais confortável. Por fim, o impacto fiscal é incontornável. A fatura do agrado se somará à lista crescente de bondades eleitoreiras, como o programa para renegociação de dívidas de famílias, micro e pequenas empresas; a expansão do Minha Casa, Minha Vida para a classe média; a revogação da “taxa das blusinhas”; a isenção ou redução de Imposto de Renda; e as inúmeras manobras para tentar conter o preço dos combustíveis. Por alguns cálculos, toda essa conta ultrapassará R$ 150 bilhões. Nenhum desses programas deriva de estudos sérios de políticas públicas. São feitos sob medida para conquistar públicos que se mantêm arredios a Lula. Não é coincidência que vários se voltem à classe média, setor em que ele perde popularidade. O próprio programa para taxistas e motoristas de aplicativos tenta fisgar um eleitor não muito amigável ao petista. Pelo menos o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, foi honesto ao descrevê-lo como “pacote de pai para filho”. Evidentemente, Lula não é o primeiro nem o único presidente a usar a máquina pública para distribuir afagos em busca de apoio. Mas isso não o redime. As eleições passam, e os efeitos de políticas irresponsáveis ficam.
Não é papel do governo financiar carros e táxis novos
Bondade para taxistas e motoristas de aplicativo é danosa à vida nas cidades, ao meio ambiente e às contas públicas











