Não há espaço para dissenso no Partido Republicano de Donald Trump e não será a crise de impopularidade do Presidente norte-americano a alterar essa realidade. Pelo menos, não antes das eleições intercalares de Novembro. As primárias dos últimos dias confirmaram o poder de Trump no partido. Na noite passada, no Kentucky, caiu Thomas Massie, o congressista republicano mais incómodo para a Casa Branca pelo seu papel na divulgação dos ficheiros do caso Epstein, as críticas à guerra no Irão e ao apoio a Israel e a oposição a diversos diplomas que vieram agravar o estado das finanças federais. Trump, que passou os últimos dias a insultar Massie, apoiou o adversário Ed Gallrein, figura sem currículo político aos 68 anos, mobilizando um valor recorde de donativos para uma campanha primária para o Congresso e enviando membros do seu Governo para o Kentucky. Entre estes, Pete Hegseth, num envolvimento sem precedentes de um secretário da Defesa num processo eleitoral.Elogie-se a frontalidade de Hegseth: foi ao terreno dizer que "Trump não precisa de mais pessoas em Washington a tentar fazer um número" e que apenas "precisa de pessoas dispostas a ajudá-lo a ganhar votações" no Congresso. Era só isso que estava em causa. Gallrein dará garantias de "obediência a 100%", como criticou Massie, que deixou um aviso: o congressista rebelde ainda tem sete meses de mandato pela frente e não fará qualquer frete à Casa Branca.Antes de Massie, caiu Bill Cassidy nas primárias republicanas do Luisiana do último fim-de-semana. Também ali, Trump vingou-se: o senador tinha sido um dos sete republicanos a votar pela sua condenação no impeachment que se seguiu ao ataque ao Capitólio de 6 de Janeiro de 2021. O Presidente apoiou agora a sua adversária, Julia Letlow, que vai disputar uma segunda volta com outra figura alinhada com o trumpismo. Ali, tal como no Kentucky, os republicanos têm eleição para Washington garantida."É óptimo ver a sua carreira política chegar ao fim", celebrou Trump na rede social Truth Social após a derrota de Cassidy. "Em democracia, às vezes, as coisas não correm como queremos. Mas não fazemos beicinho. Não fazemos fita. Não dizemos que nos roubaram a eleição", declarou o senador republicano no discurso de concessão de derrota, sem nomear o destinatário da mensagem. Não seria necessário.Confirma-se a regra: quem fizer frente a Trump acabará por pagar pela ousadia. Massie e Cassidy juntam-se a uma já longa lista de republicanos derrotados em primárias ou forçados a sair de cena, ao longo dos anos, como Marjorie Taylor Greene, Liz Cheney, Adam Kinzinger ou Mitt Romney. Na Casa Branca ou fora dela, Trump foi e continua a ser o king maker do partido, capaz de construir ou demolir carreiras políticas. Explica-se também por aqui a fidelidade quase total a Trump nas bancadas republicanas do Senado e da Câmara dos Representantes. De resto, e agora livre do controlo trumpista, Cassidy já votou nesta terça-feira no Senado ao lado dos democratas e de outros três republicanos de tendência "rebelde" (o libertário Rand Paul do Kentucky e as moderadas Lisa Murkowski do Alasca e Susan Collins do Maine) para abrir um debate legislativo para suspender definitivamente a ofensiva norte-americana contra o Irão.O ascendente trumpista sobre o próprio partido resiste, por agora, à queda do Presidente e dos republicanos nas sondagens. A taxa de aprovação de Trump está nos 38% na média de sondagens compilada pelo New York Times, ou nos 39% na média tendencialmente mais generosa para os republicanos do Real Clear Politics. Capítulo a capítulo, da economia à imigração, Trump está abaixo da linha de água. Os últimos episódios de desvario presidencial, desde o pedido de mil milhões de dólares ao Congresso para o salão de baile da Casa Branca até à declaração de imunidade de Trump e da sua família face a investigações do fisco, deverão agravar o cenário.As mesmas sondagens, como a desta semana da Siena para o NYT, confirmam, contudo, que Trump e as suas políticas se mantêm populares entre o eleitorado republicano: 82% aprovam a performance do Presidente, 69% consideram que o país segue em bom rumo e apenas 19% se queixam da economia. Responsabilize-se a propaganda governamental, o controlo da comunicação social por aliados da Casa Branca, a desinformação nas redes sociais ou a transformação do trumpismo numa espécie de culto religioso em que a fé se impõe aos factos. Ou admita-se que a maioria do eleitorado republicano está genuinamente satisfeita com a situação actual. O que interessa aqui é olhar os números para perceber porque é que o apoio ou oposição de Trump a um candidato republicano ainda tem um peso decisivo.Fora da bolha republicana, a história é outra. A queda muito significativa do apoio a Trump entre o eleitorado independente, com a guerra no Irão e os seus efeitos económicos a agravar o quadro, é suficiente para desequilibrar a balança em benefício dos democratas. A oposição tem neste momento uma vantagem média de 6,8 pontos percentuais sobre o Partido Republicano nas intenções de voto para o Congresso.A dúvida, no entanto, está na tradução dessa vantagem em mandatos na Câmara dos Representantes. E a equação alterou-se consideravelmente nas últimas semanas em benefício dos republicanos. O veredicto do Supremo Tribunal dos EUA, que abriu a porta à extinção de círculos uninominais de maioria negra nos estados do Sudeste, e o chumbo pelo Supremo da Virgínia de um novo mapa eleitoral vantajoso para os democratas terão custado à oposição cerca de dez mandatos anteriormente dados como garantidos, segundo uma análise do site Cook Political Report. Os democratas terão agora 207 assentos assegurados​. A meta da maioria situa-se nos 218. Restam 18 círculos sob acérrima disputa, estando os democratas obrigados a vencer em 11. Com a vitória no Senado difícil para os democratas (vai a votos neste ano apenas um terço dos assentos, a maioria em estados republicanos), tudo se decidirá em cerca de duas dezenas de círculos da Câmara dos Representantes. Resta a questão-chave: será este Partido Republicano, hoje mais trumpista que Trump, eleitoralmente apelativo para independentes, indecisos e desiludidos?