Apesar da queda de popularidade a nível nacional, Donald Trump ainda é rei e senhor no Partido Republicano. O ascendente do Presidente dos Estados Unidos sobre a direita norte-americana ficou novamente claro, pela segunda vez em poucos dias, com a derrota do congressista Thomas Massie, um dos seus mais destacados críticos em Washington, nas eleições primárias de terça-feira no Kentucky.Será agora Ed Gallrein, agricultor e veterano de guerra de 68 anos, sem experiência política, o candidato do Partido Republicano ao Congresso pelo quarto distrito do Kentucky. Gallrein, apoiado por Trump, obteve 55% dos votos, dez pontos percentuais acima de Massie.Foi o desfecho da primária mais cara da história das eleições para o Congresso, com o grosso dos donativos de campanha a fluírem para o candidato apoiado por Trump. “Decidiram comprar o lugar”, lamentou Massie.No discurso de derrota, Massie, um dos republicanos mais empenhados na divulgação dos ficheiros do caso Epstein, deixou um aviso: “Derrubamos duas dezenas de CEOs, um embaixador, um príncipe, um primeiro-ministro, um ministro da Cultura, e isto foi só em seis meses. Ainda tenho sete meses pela frente no Congresso.”A persistência do republicano no caso Epstein, a sua oposição à guerra no Irão e a crítica ao apoio financeiro e militar norte-americano a Israel, para além dos votos contra diversos diplomas fiscais da Casa Branca, valeram-lhe a ira de Trump, que nos últimos dias descreveu Massie como “o pior congressista da história dos EUA”.O congressista cessante junta-se a outro republicano crítico de Trump derrotado nas urnas nos últimos dias: Bill Cassidy, senador do Luisiana que perdeu as primárias de sábado e também estará assim de saída de Washington.Noutras votações desta “superterça-feira”, destaque para a vitória de Andy Barr, outro candidato apoiado por Trump, nas primárias para a sucessão do senador Mitch McConnell, também no Kentucky. Barr tem a eleição em Novembro praticamente garantida num estado fortemente conservador.Na Georgia, as primárias republicanas para encontrar um adversário do senador democrata Jon Ossoff em Novembro, um assento que o partido de Trump espera poder reconquistar, vão ter uma segunda volta em Junho. O congressista Mike Collins ficou abaixo dos 50% na noite de terça-feira e disputará o segundo turno com Derek Dooley, antigo treinador de futebol americano universitário.No mesmo estado, a antiga mayor de Atlanta Keisha Lance Bottoms foi escolhida como a candidata dos democratas ao governo estadual. Enfrentará um de dois republicanos: Burt Jones, apoiado por Trump, ou Rick Jackson, que disputam uma segunda volta das primárias republicanas em Junho. Brad Raffensperger, responsável estadual que em 2020 recusou aceder a um pedido de Trump para alterar os resultados das presidenciais, ficou num distante terceiro lugar, confirmando também aqui não haver espaço no actual Partido Republicano para um crítico do Presidente.Na Pensilvânia, onde também se escolheram candidatos para o Congresso em Novembro, destaque para a vitória de Bob Brooks nas primárias democratas do sétimo distrito, um importante círculo eleitoral actualmente nas mãos dos republicanos que a oposição ambiciona recuperar dentro de seis meses. Brooks, antigo bombeiro e sindicalista, é apoiado por pesos-pesados do campo democrata, tanto ao centro, como o presidenciável Pete Buttigieg ou o governador Josh Shapiro, como à esquerda, na figura de Bernie Sanders.As sondagens nacionais continuam a apontar como provável a perda da actual maioria republicana na Câmara dos Representantes em Novembro, apesar da vantagem democrata nas intenções de voto ter tradução difícil em número de mandatos devido às recentes alterações de mapas eleitorais. Uma análise do Cook Political Report dá agora como praticamente garantidos 207 mandatos para os democratas (dez menos do que há poucas semanas) e coloca outros 18 assentos sob disputa acérrima entre democratas e republicanos. A maioria na câmara baixa do Congresso é alcançável com 218 mandatos.Quanto ao Senado, onde estarão em disputa apenas um terço dos assentos em Novembro, o Partido Republicano parte neste momento em relativa vantagem.Em pano de fundo, contudo, está a crescente impopularidade de Trump, agora apoiado por apenas 38% dos inquiridos na média de sondagens compilada pelo New York Times. A guerra no Irão, com apoio popular minoritário, e as suas consequências económicas nos EUA, com pouco mais de 70% dos inquiridos a reprovar a estratégia do Governo para travar a escalada do custo de vida, são o principal factor a penalizar Trump. O Presidente mantém, no entanto, o apoio maioritário do eleitorado republicano. Será determinante em Novembro o voto dos independentes, por agora em rota de afastamento face a Trump.