O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, conquistou mais uma vitória em sua campanha para punir republicanos considerados desleais nesta terça-feira, quando o deputado Thomas Massie, do Kentucky, perdeu sua eleição primária, destacando os riscos para parlamentares que desafiam Trump. Massie, que irritou Trump ao liderar um movimento pela divulgação de arquivos do Departamento de Justiça ligados ao falecido criminoso sexual Jeffrey Epstein e que se tornou um crítico contundente da guerra com o Irã, foi derrotado por Ed Gallrein, ex-integrante da força especial Navy SEAL apoiado pelo presidente e impulsionado por grandes gastos de grupos pró-Israel. Com 99% dos votos apurados, Gallrein obteve 54,9% contra 45,1% de Massie, segundo a CNN. A disputa — a primária mais cara da história da Câmara dos Representantes, com US$ 32 milhões gastos em publicidade — ofereceu mais uma demonstração do controle de Trump sobre o Partido Republicano. A derrota veio após a eliminação em uma primária, no sábado, de outro crítico de Trump, o senador Bill Cassidy, da Louisiana, além das derrotas de parlamentares estaduais dissidentes nas primárias de Indiana em 5 de maio. “Massie foi ‘trumpado’. Donald Trump é o sol, a lua e as estrelas do Partido Republicano no Kentucky”, disse T.J. Litafik, estrategista republicano baseado no Kentucky. Mas, em vez de indicar um apelo mais amplo para o presidente, a derrota de Massie destacou o domínio de Trump entre os ativistas partidários que moldam os resultados das primárias, mesmo enquanto sua aprovação em queda e os altos preços da gasolina levantam dúvidas sobre as chances republicanas nas eleições legislativas de novembro. Os confrontos entre Massie e Trump começaram a se intensificar em 2025, quando ele foi um dos apenas dois republicanos da Câmara a votar contra o “Big Beautiful Bill”, principal pacote tributário e de gastos do presidente, e quando liderou com sucesso um esforço bipartidário para forçar a divulgação pública dos chamados “arquivos Epstein”. Financiamento pró-Israel Sua oposição à guerra com o Irã e à ajuda a Israel aumentou ainda mais a irritação de Trump e provocou uma enxurrada de dinheiro de grupos pró-Israel. A Coalizão Judaica Republicana, o Comitê de Assuntos Públicos Americano-Israelenses (AIPAC) e um super PAC alinhado a Trump financiado por doadores pró-Israel gastaram mais de US$ 15 milhões para derrotá-lo. Em um evento na Casa Branca, Trump chamou Massie de “cara ruim” que merecia perder. Em seu discurso de concessão, Massie brincou que precisou ligar para Tel Aviv para encontrar Gallrein, provocando risos de seus apoiadores, que interromperam sua fala com gritos de “Sem mais guerras!”, “America First” e “2028!”, incentivando-o a disputar a presidência. “Não estávamos realmente concorrendo contra Ed Gallrein. Não estávamos concorrendo contra Donald Trump. Estávamos concorrendo pelo que acreditamos”, disse Massie. “O que aconteceu hoje foi vontade de Deus.” Outras primárias ocorreram nesta terça-feira em Alabama, Geórgia, Idaho, Kentucky, Oregon e Pensilvânia, ajudando a definir o cenário para as eleições de novembro, nas quais os democratas buscam retomar o controle da Câmara e possivelmente do Senado, apesar dos avanços republicanos em uma disputa nacional sobre os mapas eleitorais. Em uma das disputas mais importantes da noite, o deputado Andy Barr venceu a indicação republicana para a vaga no Senado pelo Kentucky ocupada por Mitch McConnell durante quatro décadas. Com o apoio de Trump, Barr derrotou o ex-procurador-geral do Kentucky Daniel Cameron. Na primária republicana para governador da Geórgia, o vice-governador Burt Jones e o bilionário do setor de saúde Rick Jackson avançaram para um segundo turno em 16 de junho. Trump apoiou Jones no ano passado. O vencedor enfrentará a ex-prefeita de Atlanta Keisha Lance Bottoms, declarada vencedora da primária democrata por vários veículos de imprensa americanos. Também na Geórgia, o deputado Mike Collins e o ex-treinador universitário de futebol americano Derek Dooley avançaram para o segundo turno da primária republicana para o Senado dos EUA. O vencedor enfrentará o senador democrata Jon Ossoff. Grupos externos Os gastos combinados na disputa entre Massie e Gallrein ultrapassaram US$ 32 milhões, superando os US$ 25 milhões gastos em uma corrida de 2024 que derrotou o deputado democrata Jamaal Bowman em Nova York, segundo a AdImpact. Os anúncios contra Massie, cuja arrecadação dependia mais de doações populares, tentaram retratá-lo como desleal a Trump e ao partido. Um anúncio pró-Gallrein utilizou imagens geradas por inteligência artificial mostrando Massie entrando em um hotel com as deputadas democratas progressistas Ilhan Omar e Alexandria Ocasio-Cortez, enquanto um narrador afirmava que ele havia sido “pego em um relacionamento a três”. Gallrein se apresentou como um “jogador de equipe” que apoiaria Trump de forma confiável, estratégia que se mostrou bem-sucedida em um estado onde o presidente venceu em 2024 com 64,5% dos votos. Em discurso de vitória, Gallrein afirmou que levaria para Washington a mesma ousadia que o levou a se tornar oficial da Navy SEAL em 1983. “Agora meu foco é avançar a agenda do presidente e do partido para colocar a América em primeiro lugar e o Kentucky sempre” na frente, disse Gallrein a seus apoiadores. Tim Hafer, eleitor do distrito que abrange os subúrbios de Louisville, a parte de Kentucky da região metropolitana de Cincinnati e condados rurais ao leste, afirmou que já apoiou Massie, mas decidiu seguir a orientação de Trump e votar em Gallrein. “Acho que ele entende muito mais do que eu sobre o que acontece no cenário político. Então segui estritamente a sugestão de Trump”, disse Hafer à Reuters. “Sempre gostei de Massie no passado, mas a maneira como ele vinha votando recentemente não me representa mais.”