A expressão ghosting nasceu para descrever uma dinâmica cada vez mais comum nas relações amorosas: alguém some sem explicação, corta mensagens, ligações e qualquer sinal de vida. Como um fantasma, desaparece da rotina de quem, até outro dia, dividia cama, confidências e expectativas.

Na versão financeira do fenômeno, o sumiço pode ter menos a ver com falta de desejo e mais com falta de dinheiro. Você acha que foi deixado no vácuo porque a pessoa perdeu o interesse, mas há uma chance real de que ela simplesmente não tinha como bancar outro encontro. E isso muda bastante a forma como interpretamos os afetos no capitalismo.

Sair de casa deixou de ser uma decisão simples, guiada apenas pela vontade, e virou uma operação financeira cuidadosamente calculada. Um encontro básico, com transporte, consumo em bar ou restaurante e algum lazer, facilmente passa dos 200 reais. Não estamos falando de luxo, mas de um padrão urbano comum.

Como encaixar esse custo do lazer em salários que parecem correr de ré na pista da valorização? Segundo dados do IBGE, o rendimento médio real do trabalhador chegou a 3.722 reais. Nesse cenário, um único date pode consumir cerca de 6% da renda mensal. Socializar começa a disputar espaço com a parcela da geladeira nova ou com a mensalidade da academia que muita gente paga e não frequenta.