A Estrela, uma das marcas mais tradicionais e icônicas da indústria nacional, ingressou com um pedido de recuperação judicial na Justiça de Minas Gerais por conta de dívidas de R$ 109,1 milhões. O pedido de reorganização, que engloba oito empresas da fabricante de brinquedos, busca garantir a continuidade de suas operações e a preservação de aproximadamente 500 empregos diretos em suas unidades industriais. A empresa alegou que a decisão decorre da necessidade de reestruturação do passivo do Grupo Estrela, “em um contexto de pressões econômicas e setoriais relevantes”. Entre os fatores de pressão, cita o aumento do custo de capital e a restrição de crédito, além de mudanças no comportamento de consumo, com maior competição de alternativas digitais. A crise enfrentada pela companhia, fundada em 1937 em São Paulo por Siegfried Adler, não é fruto de um evento isolado, mas da sobreposição de fatores econômicos e drásticas mudanças estruturais de mercado ao longo das últimas décadas. O documento protocolado à Justiça e obtido pelo Valor aponta que o estrangulamento começou no início da década de 1990, com a abertura abrupta do mercado nacional, o que expôs a empresa à forte e desigual concorrência de produtos importados asiáticos de baixo custo. A situação se deteriorou nos anos seguintes com as transformações nos hábitos de consumo infantil, impulsionadas pelo avanço do entretenimento em plataformas digitais e jogos eletrônicos. Segundo a Estrela, o crescimento de práticas irregulares, como o contrabando, e a agressiva expansão de plataformas internacionais de comércio eletrônico que afetam as margens da indústria formal brasileira também explicam a sua crise. Além disso, a alta dos juros agravou o cenário, com a companhia destacando que possui uma dinâmica de antecipar desembolsos relevantes com produção e insumos ao longo do ano para faturar majoritariamente em datas específicas. Nesse cenário de descasamento entre caixa e produção, a manutenção da taxa básica de juros em patamares estruturalmente altos, atualmente em 14,5%, comprometeu o capital de giro e encareceu severamente a dívida da empresa. A companhia é atualmente controlada pelo empresário Carlos Tilkian, que comprou a participação da família Adler em 1996 e, segundo os dados públicos mais recentes, detém 94,7% das ações ordinárias, ou 31,5% do capital social total. A empresa dominou o mercado de brinquedos no Brasil durante o século passado, com marcas como Banco Imobiliário, Suzi, Autorama, Genius, entre outros, que vivem até hoje no imaginário popular. Para tentar se reerguer, a Estrela vinha apostando na nostalgia e na reinvenção do negócio, buscando atrair o público adulto, relançando brinquedos clássicos que marcaram gerações e investindo nas vendas via marketplaces, como a Shopee. A companhia também diversificou suas fontes de receita ao criar frentes de beleza e de literatura, além de apostar em parcerias comerciais com marcas como Giraffas, Reserva, Azeite Andorinha e Kopenhagen. Nos resultados financeiros mais recentes, referente aos nove primeiros meses de 2025, a Estrela acumulou um lucro de R$ 170,2 milhões entre janeiro e setembro, revertendo prejuízo de R$ 46,3 milhões do mesmo período de 2024. Já as receitas da companhia somaram R$ 108,7 milhões nos nove primeiros meses de 2025, alta de 1,8% na comparação anual. A Estrela dizia, à época, que o ano que começou promissor viu desaceleração ao longo do período entre julho e setembro. A administração da empresa convocou para o próximo dia 9 de junho uma assembleia para votar as contas do ano inteiro de 2025 e também para ratificar o seu pedido de recuperação judicial. Segundo a companhia, a escolha do foro em Minas Gerais ocorreu em razão da prevenção gerada por um pedido de falência ajuizado anteriormente por um credor na mesma comarca da cidade de Três Pontas (MG). No pedido, a Estrela requer que a Justiça proíba as concessionárias de cortar serviços essenciais, como água, luz e internet, por débitos gerados antes do pedido, e impeça que bancos e instituições financeiras declarem o vencimento antecipado de dívidas. A companhia argumenta que essas proteções são indispensáveis para garantir que a crise transitória seja superada por meio de um plano de reestruturação organizado, “mantendo vivo o legado de uma das indústrias mais presentes na memória afetiva do país”. Nesta quarta, as ações preferenciais da Estrela, de maior liquidez no mercado, caíam 33,2%, cotadas em R$ 3,01, entre as maiores desvalorizações do mercado nesta manhã. O volume de R$ 9.459 é 20 vezes maior do que o giro completo de ontem. O Valor tentou contato com a Estrela e seu controlador, Carlos Tilkian, mas não obteve resposta até o momento da publicação. (Colaborou Adriana Peraita) — Foto: Divulgação/Site Estrela