Especialistas atribuem surtos virais improváveis e concomitantes, como os atuais, a uma conjunção de fatores ambientais Um passageiro (à direita) usa traje de proteção e máscara ao embarcar em um ônibus militar enquanto passageiros e tripulantes são evacuados do cruzeiro MV Hondius, de bandeira holandesa e atingido por um surto de hantavírus, no porto industrial de Granadilla de Abona, na ilha de Tenerife, nas Canárias, na Espanha, em 10 de maio de 2026 — Foto: AFP RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você GERADO EM: 19/05/2026 - 14:53 Surtos Simultâneos de Ebola e Hantavírus: Alerta Global da OMS Os atuais surtos de ebola Bundibugyo e hantavírus Andes, raros e simultâneos, levantam preocupações globais sobre a vulnerabilidade a pandemias. A OMS declarou o surto de Bundibugyo uma Emergência Internacional de Saúde devido ao risco de propagação na África. Especialistas alertam que fatores como mudança climática, desmatamento e mobilidade humana aumentam a frequência de doenças infecciosas, exigindo vigilância global reforçada. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO Pela primeira vez, um diretor-geral da Organização Mundial de Saúde (OMS) decidiu decretar uma doença Emergência Internacional de Saúde (Pheic, na sigla em inglês) sem convocar um comitê de especialistas. E Tedros Adhanom Ghebreyesus fez isso com o surto do ebola Bundibugyo na África devido a uma urgência sem precedentes desde a pandemia. O vírus se espalha no caldeirão perfeito para uma grande epidemia. Não existe risco de pandemia, afirmou, mas o alerta de atenção máxima está aceso para vírus no mundo. O Bundibugyo é o mais raro e menos conhecido dos três tipos de vírus ebola (os outros são Zaire e Sudão). Não tem vacina, tratamento específico, causa febre hemorrágica e mata cerca de 35% dos infectados. Ele se espalha com velocidade e agressividade numa zona de conflito, na República Democrática do Congo (RDC) e Uganda, com 100 mil pessoas recentemente deslocadas, mais de 200 grupos rebeldes armados e absoluta precariedade sanitária. Há mais de 500 casos suspeitos e 130 mortes. Confirmar os casos é mais lento porque tampouco há testes acessíveis para ele. O ebola representa uma grave ameaça para os países vizinhos. E há um caso de americano, internado na Alemanha e contaminado no RDC. Mas, fundamentalmente, o Bundibugyo preocupa porque é o recado mais recente de que “o mundo está à beira de danos ainda maiores causados por pandemias”, advertiu um comitê de especialistas da Organização Mundial de Saúde (OMS) e o Banco Mundial (Bird), em relatório, na segunda-feira. O surto de Bundibugyo afeta a República Democrática do Congo (RDC) e Uganda e acontece simultaneamente ao de um causado por um raríssimo tipo de hantavírus, originário da Argentina. O Andes, o único hantavírus transmissível pelo ar de uma pessoa para outra, num desafio à probabilidade, causou, no meio de Oceano Atlântico morte, doença cardiorespiratória e contaminação em pessoas de 12 nacionalidades a bordo do navio de cruzeiro holandês MV Hondius. São dois surtos simultâneos de vírus raros, pouco conhecidos e que se seguiram ao de uma nova linhagem de mpox, que em cerca de dois anos se espalhou pelo mundo, inclusive no Brasil. Segundo o Conselho Global de Prevenção (GPMB, na sigla em inglês), integrado por OMS e Bird, o mundo está menos resiliente a doenças infecciosas, que se tornaram mais frequentes e danosas. O GMPB frisou ainda que o risco de pandemia avança mais depressa do que os investimentos em preparação. A OMS esclareceu que não há neste momento risco de pandemia nem pelo ebola nem pelo hantavírus argentino. Mas no sábado declarou o surto de Bundibugyo uma Emergência Internacional de Saúde, devido ao risco de espalhamento para países vizinhos. Além disso, entre os casos de infectados pelo ebola há sete americanos, um deles internado com sintomas da doença, na Alemanha. O ebola Bundibugyo causa febre hemorrágica do tipo que costuma alimentar filmes de ficção. Casos graves têm órgãos destruídos e sangramentos por nariz, boca e qualquer orifício corporal. A despeito disso, não é caso de pânico global. Mas de ação e apreensão. O ebola se transmite pelo contato de fluidos corporais (sangue, urina, saliva, fezes e catarro) dos infectados, mas justamente por ser tão letal e não ser de contágio por aerossol (aéreo) não é considerado como de potencial de pandemia, isto é, espalhamento global, explica Renato Santana, virologista da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). O hantavírus Andes também não é eficiente no contágio de pessoa a pessoa, diz o virologista Flavio da Fonseca, da Rede Vírus do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. O navio foi uma exceção porque funciona como uma espécie de caixa de incubação de vírus, com pessoas confinadas. Porém, ebola e hantavírus são sinais concretos que a pandemia do Covid-19 não bastou para mostrar que não se pode abrir a guarda. — Vírus estão sempre mudando. Mas o que os torna realmente perigosos são as condições criadas pelo ser humano. E essas condições propiciadas pela ação humana estão presentes, de uma forma ou de outra, nos casos de hantavírus e de ebola — salienta Rafael Galliez, vice-diretor do Núcleo de Enfrentamento e Estudos de Doenças Infecciosas Emergentes e Reemergentes da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Needier/UFRJ). Especialistas atribuem surtos virais improváveis e concomitantes, como os atuais, a uma conjunção de fatores ambientais (mudança do clima, desmatamento e degradação da natureza) associados a aumento da mobilidade, guerras e deslocamento em massa de refugiados, precarização de situação sanitária, turismo descontrolado em áreas silvestres e enfraquecimento dos mecanismos de vigilância e assistência internacional. — Deveria ser diferente depois da Covid-19, mas enfraquecemos barreiras em vez de fortalece-las. Os países precisam estar sempre alertas e preparados para conter epidemias — afirma Fonseca. O Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC), crucial nas epidemias passadas de febres virais, foi enfraquecido pelo governo de Donald Trump, que também abandonou a OMS. A Argentina, país de origem do hantavírus Andes, também saiu da OMS. — Vírus não respeitam fronteiras nacionais. Tudo isso dificulta a coordenação de operações e o controle de epidemias — acrescenta Galliez. A fragilidade da resposta é evidente, destaca Terezinha Castiñeiras, diretora do Needier. Os casos começaram em abril, mas o surto só foi descoberto na semana passada. Quando foi identificado, o vírus já havia se espalhado ao longo de grandes rotas de transporte e cruzado fronteiras. — Além do desafio imposto pela virulência do Bundibugyo e pela escassez de recursos, é alarmante o lento progresso em estratégias robustas de contenção. O cenário evidencia graves fragilidades no rastreamento de contatos, no monitoramento epidemiológico e na realização de diagnóstico — diz Castiñeiras. Os casos começaram em abril em vilarejos isolados da província de Ituri, na República Democrática do Congo (RDC) e se espalharam para Uganda. Hoje o Bundibugyo já está nas capitais dos dois países, respectivamente Kinshasa e Kampala e na superpovoada e pobre Goma (RDC). Capital de Ituri, Goma é o epicentro de uma das crises humanitárias mais graves do mundo. Metade de seus 2 milhões de habitantes são refugiados que fugiram de conflitos regionais. A maioria não dispõe de acesso à água potável e serviços de saúde. Grupos armados expulsam milhares de pessoas de seus lares e provocam deslocamentos maciços e frequentes. Se não bastasse, é uma região de mineração, com fluxo para outras áreas. A fome causada pela guerra e alterações no clima empurra um número crescente de pessoas para as áreas de floresta e a caça aumenta. E a caça e o contato com animais selvagens é a forma como o ebola chega aos seres humanos. Trish Newport, coordenadora de emergências dos Médicos Sem Fronteira (MSF), classificou a situação na África como extremamente preocupante. O motivo é o número de casos e mortes num período tão curto, combinado com a disseminação rápida. Segundo ela, é fundamental uma ação rápida para evitar que o surto se agrave. Novas iniciativas melhoraram alguns aspectos da preparação. Mas esses esforços estão sendo neutralizados pelos efeitos crescentes da fragmentação geopolítica, da ruptura ecológica e das viagens globais, especialmente porque a assistência global está declínio para níveis não vistos desde 2009, disse o relatório do GPMB. — Continuaremos a ver surtos como esses, talvez até mais, porque o mundo hoje é um caldeirão perfeito para isso, com mudanças climáticas, destruição ambiental, guerras e situação sanitária precária em muitas partes, além do enfraquecimento de instituições internacionais capazes de coordenar ações de vigilância e controle de epidemias — ressalta Santana.
Ebola, hantavírus: qual o risco dos novos surtos virarem uma pandemia? Especialistas explicam
Especialistas atribuem surtos virais improváveis e concomitantes, como os atuais, a uma conjunção de fatores ambientais














