Médicos que combatem uma cepa rara de ebola na África Central provavelmente terão de esperar muitos meses até que uma vacina esteja pronta para testes em humanos, informou a Coalizão para Inovações em Preparação para Epidemias (Cepi na sigla em inglês), destacando os desafios que as autoridades de saúde enfrentam para conter o surto. Já existem pelo menos três possíveis candidatas a vacina. A Cepi e seus parceiros iniciarão imediatamente o processo de desenvolvimento de vacinas para vários candidatos, disse o diretor-executivo da coalizão, Richard Hatchett, em entrevista na terça-feira. No entanto, serão necessários testes laboratoriais e evidências provenientes de estudos com animais antes que pesquisas em humanos possam começar, afirmou. “Estas são vacinas ainda em estágio muito, muito inicial”, disse Hatchett. “Não são vacinas que já tenham sido desenvolvidas, testadas em animais e submetidas a qualquer trabalho em humanos.” Um grupo consultivo técnico da Organização Mundial da Saúde (OMS) se reuniu nesta terça-feira para discutir e recomendar quais vacinas potenciais devem ser priorizadas, informou a OMS. A rara cepa bundibugyo envolvida neste surto não possui tratamento aprovado nem vacina. Acredita-se que ela tenha circulado por semanas antes de ser oficialmente confirmada em 15 de maio, complicando os esforços para impedir sua disseminação. Mais de 500 casos suspeitos e 131 mortes ligadas ao ebola foram registrados na República Democrática do Congo, informou o ministro da Saúde do país, Roger Kamba, nesta terça-feira. Uganda confirmou dois casos e uma morte em Kampala, sua capital. Três vacinas potenciais e vários tratamentos estão sendo priorizados para avaliação, disse Jean Kaseya, diretor-geral dos Centros Africanos de Controle e Prevenção de Doenças (Africa CDC), nas redes sociais. As autoridades estão pressionando para acelerar a produção em padrão farmacêutico necessária para os testes em humanos, afirmou. Profissionais de saúde usando equipamentos de proteção iniciam seu turno em um centro de tratamento de Ebola em Beni, no Congo, em 16 de julho de 2019 — Foto: AP Photo/Jerome Delay, Arquivo Tratamento em Berlim Um médico missionário americano infectado durante o surto está sendo transportado para o Hospital Charité, em Berlim, para tratamento, informou o ministério da Saúde da Alemanha. Embora não existam medicamentos aprovados especificamente para o ebola do tipo bundibugyo, o manejo precoce dos sintomas salva vidas, afirmou a OMS. “Precisamos evitar a associação entre ‘sem vacina, sem tratamento’”, disse Kamba no fim da segunda-feira. “Já tivemos 17 epidemias e, nas primeiras 15, não havia vacinas nem tratamentos, e mesmo assim conseguimos contê-las.” As duas vacinas atualmente aprovadas contra o ebola foram desenvolvidas para outras cepas mais comuns da doença mortal. A vacina Ervebo, da Merck & Co., desenvolvida para a cepa zaire — mais letal —, era uma das opções em análise pelo Africa CDC, disse Shanelle Hall, principal assessora de gestão e operações da agência, em uma entrevista a jornalistas realizada em 16 de maio. Outros candidatos em estágios iniciais de pesquisa vêm da Universidade de Oxford, da empresa de biotecnologia americana Moderna Inc., da Public Health Vaccines LLC e da IAVI, afirmou ela. A Moderna recusou-se a comentar. A Merck declarou que, embora pesquisadores independentes tenham realizado alguns estudos para avaliar se sua vacina poderia ser usada contra outras cepas do ebola, incluindo a bundibugyo, os dados ainda são limitados. Testar uma vacina que não foi especificamente desenvolvida para esta cepa de ebola sem uma base científica suficiente pode comprometer a confiança pública, disse Hatchett, da Cepi, especialmente porque a situação de segurança nas áreas afetadas é delicada e as comunidades envolvidas podem ter visões hostis em relação ao governo. “O nível de confiança pública provavelmente já é muito frágil”, afirmou. “Precisamos pensar nisso.” O Departamento de Estado dos EUA alertou nesta terça-feira os americanos a evitarem viagens ao Congo, Ruanda, Sudão do Sul e Uganda.