Aníbal Cavaco Silva foi, nesta terça-feira, distinguido com a Ordem de Mérito europeia pelos seus contributos enquanto primeiro-ministro “durante a primeira década de Portugal na União Europeia” e pelo seu “contributo para uma Europa mais unida e mais forte”, resumiu José Durão Barroso, que o apresentou durante a cerimónia que decorreu no Parlamento Europeu, em Estrasburgo, França.Do “entusiasmo” desses primeiros dias aos “passos de gigante” de tudo o que veio a seguir, o antigo Presidente da República e primeiro-ministro orgulha-se de ter arrancado um elogio a Jacques Delors, um dos “mais brilhantes europeístas” que conheceu: “Afirmou que Portugal participava na integração europeia como se tivesse sido um dos seus fundadores”, disse, no púlpito do Parlamento Europeu, onde recebeu a medalha das mãos da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen.Tal como nos primeiros dias, Cavaco Silva ainda vê a União Europeia (UE) como “um activo da maior importância” para os Estados-membros, especialmente “num tempo de forte instabilidade e incerteza mundial, de conflitos armados e ameaças”, vincou, num curto discurso que durou cerca de dois minutos.É um dos primeiros 20 laureados desta distinção criada no ano passado, para assinalar os 75 anos da Declaração Schuman e que pretende distinguir “as pessoas que construíram a Europa”, como se lê nos vários cartazes sobre a Ordem de Mérito que se encontram na zona de imprensa do Parlamento Europeu, que se vestiu a rigor para receber os laureados.O antigo primeiro-ministro e Presidente português, actualmente com 86 anos, foi recebido numa passadeira vermelha pelo vice-presidente do Parlamento Europeu, Nicolae Stefanuta, acompanhado pela mulher, Maria Cavaco Silva. Um desfile para a imprensa que incluiu a maioria dos 20 laureados, que tem três níveis de distinção crescente: a mais importante é a de membro insigne (apenas três laureados: a antiga chanceler alemã Angela Merkel, o antigo Presidente polaco Lech Walesa e o Presidente ucraniano Volodymyr Zelensky), segue-se a de membro honorável (em que se inclui a nomeação de Cavaco Silva) e por fim os membros da Ordem Europeia do Mérito (que inclui todos os membros da banda U2, que não estiveram presentes na cerimónia, entre outros nomes).“A Europa não nos foi entregue, foi construída”, afirmou Roberta Metsola, presidente do Parlamento Europeu, no discurso de abertura da cerimónia que quis distinguir quem “deu tanto de si para construir esta união”, com o “cuidado e rigor” de “quem se entrega a algo maior do que eles mesmos”. Uma espécie de presente para as próximas gerações, resume, a razão de ser desta distinção."Singularidade do percurso"Para a maioria dos eurodeputados portugueses, o facto de haver um português entre os laureados é uma boa notícia. Para Paulo Cunha, do PSD (Partido Popular Europeu ou PPE no Parlamento Europeu) é a “confirmação da singularidade do percurso” de Cavaco Silva tanto fora como dentro do partido. Ana Miguel Pedro, do CDS-PP (também do PPE), sublinha a “estabilidade governativa que [Cavaco Silva] ofereceu ao país durante muitos anos”. João Cotrim de Figueiredo, da Iniciativa Liberal (do grupo Renew Europe), considera que a distinção de quem foi primeiro-ministro “na década em que Portugal mais cresceu” é “muito merecida”. E, em tom de recado para Lisboa, diz que é um “um exemplo de que se queremos crescer temos de reformar” com coragem. O “Governo em funções há dois anos não consegue mostrar nenhuma reforma” e “a pouca que quis fazer, a reforma laboral, vai morrer na praia”.Também Francisco Assis, do PS (Socialistas e Democratas), se junta ao coro de elogios a um homem que “foi primeiro-ministro numa fase crucial da integração” europeia e que “sempre proclamou valores europeístas”. “Temos as nossas divergências [com o PSD], mas também pontos de consenso” – que “existe e não está em causa”, reforça, ainda que se tenha recusado a falar sobre a autorização de utilização da base das Lajes pelas forças norte-americanas.Já a esquerda não reserva elogios a quem liderou “governos que atribuíram cheques para desmantelar a agricultura, pescas e indústria”, resume Catarina Martins, do Bloco de Esquerda (The Left). “Não deve ter havido outro Governo que tivesse distribuído tanto dinheiro para acabar com a capacidade produtiva do país”, afirma, antes de notar que, no geral, não vê “muito sentido” na distinção “olhando para o conjunto das pessoas distinguidas”. “Onde a União europeia vê motivos para condecoração, nós encontramos uma boa parte dos problemas do país na marca de Cavaco Silva”, ecoa João Oliveira, da CDU (que também pertence ao grupo The Left).
Cavaco Silva recebe Ordem de Mérito Europeia pela “primeira década” de Portugal na UE
O antigo primeiro-ministro português lembra o “entusiasmo dos primeiros dias” e os “passos de gigante” de tudo o que veio a seguir, numa cerimónia em que foram distinguidas 20 personalidades europeias














