Starmer: "Este governo não acredita em mudanças de regime vinda dos céus"Primeiro-ministro britânico foi ao Parlamento para falar sobre os conflitos no Oriente Médio. Crédito: AFPGerando resumoHá menos de dois anos, Sir Keir Starmer foi eleito com a promessa de salvar o Reino Unido do populismo. Assim como Emmanuel Macron na França e Friedrich Merz na Alemanha, sua missão era demonstrar que os frutos de uma formulação de políticas sensata e competente valem mais do que as promessas vazias dos demagogos.Esta semana ficou claro o quão miseravelmente Sir Keir fracassou. A derrota esmagadora do Partido Trabalhista nas eleições para os conselhos municipais na Inglaterra (o equivalente às Câmaras dos Vereadores) e para os Parlamentos da Escócia e do País de Gales, em 7 de maio, provocou uma revolta no partido. O primeiro-ministro estava prestes a enfrentar pelo menos um adversário sério à sua posição, o secretário de Saúde, Wes Streeting. Seria do interesse do Reino Unido que ele se retirasse.O primeiro-ministro do Reino Unido, Keir Starmer, participa de uma entrevista no sul de Londres Foto: Maja Smiejkowska/APPUBLICIDADEA lição para alguns que observam os péssimos índices de popularidade de Macron, Merz e Starmer — todos homens decentes — é que as social-democracias europeias se tornaram ingovernáveis. Presos entre baixo crescimento, altos impostos e endividamento e a demanda por mais gastos públicos, os centristas exaustos parecem incapazes de promover mudanças ou de afastar o desafio populista da direita e da esquerda. Em nenhum lugar isso é mais evidente do que no Reino Unido pós-Brexit, que, com cinco chefes de governo em seis anos, trocou de primeiros-ministros quase tão rapidamente quanto o Chelsea troca de treinadores. Coube a Larry, o gato que habita a sede do governo britânico, tornar-se um farol peludo de estabilidade.No entanto, o Reino Unido não é ingovernável. Sir Keir culpa todos os outros por seus problemas, mas eles deveriam, na verdade, ser atribuídos àquela qualidade fora de moda na política: a força moral. Quem alega que o Reino Unido deveria se agarrar a um pato manco por medo de algo pior acabará fortalecendo a insurgência populista que os centristas mais querem evitar.PublicidadeÉ verdade que o primeiro-ministro tem tido muito com que se preocupar. Os salários reais no Reino Unido mal cresceram nos últimos 20 anos. A saída da União Europeia e de seu mercado único de US$ 18 trilhões reduziu o PIB per capita do Reino Unido entre 4% e 8%, segundo alguns estudos. Governos aterrorizados com a possibilidade de irritar os NIMBYs (aqueles que dizem “não no meu quintal”) falharam em lidar com uma falta crônica de crescimento da produtividade. O primeiro-ministro do Reino Unido, Keir Starmer, participa de uma audiência na Câmara dos Comuns, em Londres Foto: Stefan Rousseau/APEntre 2008 e 2023, a produção por hora trabalhada aumentou 21% para os trabalhadores americanos. No Reino Unido, cresceu apenas 7%. Abalados pelo Brexit, pelo governo de Liz Truss e pela alta vertiginosa dos preços da energia, os títulos da dívida britânica apresentam os maiores prêmios entre os países do G-7.A política agravou os problemas de Sir Keir. Paradoxalmente, a enorme maioria parlamentar do Partido Trabalhista, com 165 cadeiras, acabou se revelando uma fonte de instabilidade. Como já argumentamos, quando vários partidos têm níveis semelhantes de apoio em um sistema eleitoral majoritário, pequenas mudanças na participação nos votos levam a oscilações bruscas no número de cadeiras que os partidos podem esperar conquistar. À medida que a popularidade do Partido Trabalhista diminuiu, muitos de seus deputados mais hesitantes se sentiram tentados a se rebelar diante da perspectiva de perderem seus empregos.No entanto, como atesta essa maioria parlamentar esmagadora, Sir Keir teve a chance de governar com mais eficácia. As instituições britânicas ainda funcionam. As relações com a Europa, que por tanto tempo foram um entrave à economia, são agora uma oportunidade de crescimento. O mesmo vale, como o Partido Trabalhista corretamente percebeu, para a redução da burocracia no planejamento e o controle de um sistema de bem-estar social insustentável.PublicidadeO presidente da França, Emmanuel Macron, conversa com o primeiro-ministro do Reino Unido, Keir Starmer, em Yerevan, na Armênia Foto: Ludovic Marin/AFPOutros países, como Austrália, Canadá e Noruega, enfrentaram ventos contrários e, ainda assim, os partidos centristas sobreviveram e até prosperaram. Grande parte da razão pela qual o Reino Unido não se juntou a eles é o próprio Sir Keir. Mesmo antes de assumir o poder, ele amarrou seu governo com compromissos de manifesto de não aumentar o imposto de renda nem o IVA. Suas reformas mal elaboradas foram dolorosas o suficiente para alarmar os eleitores, mas pequenas demais para ter um efeito significativo na economia. As grandes medidas nunca se concretizaram: nenhuma grande reformulação tributária, nenhuma reforma corajosa do sistema de assistência social, nenhuma aproximação ambiciosa com a UE. Ele falou em acelerar o planejamento, mas vacilou assim que encontrou resistência.Primeiros-ministros precisam de autoridade e clareza. Sir Keir, ao que parece, não tem nenhuma das duas. Ele não consegue articular uma visão. Nem se baseia em uma. A formulação de políticas no século 21 é tão complicada que os eleitores querem poder confiar que o primeiro-ministro tem o instinto para nomear as pessoas certas, avaliar as evidências e tomar decisões sensatas. No entanto, os eleitores perceberam do que Sir Keir é feito. Uma pesquisa da YouGov realizada após as eleições deste mês revela que apenas 29% deles querem que ele permaneça no cargo. Os deputados trabalhistas em pânico se transformaram em uma turba disposta a um motim.Demitir um primeiro-ministro acarreta riscos. Como os conservadores demonstraram, isso cria um vício. O Partido Trabalhista poderia virar para a esquerda, causando pânico nos mercados de títulos. Se aprender as lições erradas, uma simples mudança de pessoal poderia colocar o Reino Unido em um caminho ainda pior.O primeiro-ministro do Reino Unido, Keir Starmer, caminha pelo Palácio do Eliseu, em Paris Foto: Tom Nicholson/AFPNo entanto, os riscos de Sir Keir permanecer no cargo são maiores — como o país poderá constatar se ele conseguir afastar seus adversários até a próxima crise, ou a seguinte. Como primeiro-ministro que sobrevive contra a vontade de muitos de seus deputados, ele também seria arrastado para a esquerda. De qualquer forma, seja quem for o primeiro-ministro, o espaço para políticas esquerdistas imprudentes será limitado pelos mercados de títulos, que mantêm o endividamento britânico sob rédea curta. Os líderes trabalhistas compreendem que seu partido e o país precisam de crescimento. Um atributo mais importante hoje é a habilidade política de definir isso como direção para o país e defendê-la. A promessa de uma disputa pela liderança é que ela revelará os candidatos que melhor atendem a esse desafio.PublicidadeCONTiNUA APÓS PUBLICIDADE
Fragilidade de Starmer ressalta o fracasso dos partidos tradicionais em lidar com o populismo
O Reino Unido não é ingovernável — apenas precisa de uma governança mais qualificada












