O que está em jogo no encontro entre Trump e Xi Jinping nesta semanaReunião em Pequim nesta quarta-feira, 13, deve tratar de terras raras, tarifas, o conflito no Irã e os limites da inteligência artificial. Crédito: EstadãoGerando resumoQuando Xi Jinping se encontrou com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, no ano passado, o líder chinês usou o controle de seu país sobre minerais críticos, uma postura forte que ajudou a pressionar Trump a concordar com uma trégua comercial de um ano. Esta semana, Xi tem outra carta poderosa na manga: a guerra no Irã.PUBLICIDADEEnquanto os Estados Unidos estão em guerra, Xi tem defendido a paz e recebido líderes estrangeiros do Golfo e da Europa em busca de sua ajuda para pôr fim à crise. Pouco antes da visita do presidente americano, o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, viajou a Pequim, em uma demonstração nada sutil da influência da China sobre seu parceiro no Oriente Médio.“A questão do Irã, na verdade, beneficia a China”, disse Li Daokui, um renomado economista da Universidade Tsinghua, em Pequim.O presidente da China, Xi Jinping, discursa em um jantar de Estado por conta da visita do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, a Pequim Foto: Mark Schiefelbein/APSegundo ele, a China possui uma importante influência econômica sobre Teerã, que poderia estar disposta a usar para alcançar objetivos que lhe são mais caros — principalmente, afastar os Estados Unidos de Taiwan, a ilha autogovernada que Pequim reivindica como sua.PublicidadeA influência útil A China tem seus próprios motivos para ajudar a pôr fim ao conflito. Sua economia é afetada pelo aumento dos preços da energia. Uma recessão global prejudicaria as exportações chinesas, que são um importante motor de crescimento. Suas reservas estratégicas de petróleo, embora úteis, não são ilimitadas.Pequim tem pressionado autoridades iranianas a negociar com os Estados Unidos, mas teme se envolver em uma guerra que considera ser, em grande parte, de responsabilidade de Washington. Mesmo que não se envolva militarmente, a China pode estar disposta a colaborar com os Estados Unidos na reabertura do Estreito de Ormuz, uma importante rota marítima por onde passam até 40% das importações de petróleo da China.“O lado chinês pode chegar a um acordo com os EUA dizendo: ‘Vamos trabalhar juntos para persuadir o Irã a manter o estreito aberto’”, disse Li, acrescentando que Pequim provavelmente também desejaria garantias de que os Estados Unidos não bloqueariam a passagem estratégica.O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, caminha ao lado do presidente da China, Xi Jinping, em Pequim Foto: Kenny Holston/NYTA China ainda poderia oferecer vários incentivos a Teerã para trabalhar com Washington, como empréstimos, investimentos e ofertas de ajuda na reconstrução pós-guerra, dizem analistas. (No entanto, é improvável que Pequim pressione Teerã a abandonar seu programa nuclear.)PublicidadeDiscutir a venda de armas para Taiwan não é mais um tabu?O que Xi mais deseja de Trump está em outro lugar — em Taiwan. O presidente da China busca uma flexibilização do apoio americano à ilha, seja por meio de uma redução na venda de armas ou uma declaração de que Washington se opõe à sua independência. O governo Trump já adiou o anúncio de um pacote de US$ 13 bilhões em vendas de armas para Taiwan para evitar irritar Xi.Trump afirmou novamente esta semana que planeja discutir com a China a questão da venda de armas para Taiwan. Se o fizer, o republicano poderá estar violando um compromisso de longa data conhecido como as Seis Garantias, um pilar das políticas EUA-Taiwan e EUA-China. As garantias da era Reagan foram enviadas ao presidente de Taiwan em 1982, e geralmente se entende que uma delas afirma que o governo americano não consultará Pequim antes de uma venda de armas para Taiwan.Para Trump, colocar isso em discussão pode representar um afastamento de décadas de política externa americana, dependendo de como o assunto for abordado, e uma vitória para Xi.O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, cumprimenta o presidente da China, Xi Jinping, em Pequim Foto: Kenny Holston/NYTEntre os especialistas chineses mais linha-dura, a guerra no Irã também expôs a fragilidade militar dos EUA, dando a Pequim ainda mais confiança para pressionar na questão de Taiwan. Durante o conflito, os Estados Unidos foram forçados a desviar recursos militares da Ásia e a esgotar seus estoques de munição.Publicidade“O conflito com o Irã indica que os EUA simplesmente não podem sustentar uma grande guerra com a China por causa de Taiwan. Isso é muito claro”, avalia Wu Xinbo, um importante especialista em estudos americanos da Universidade Fudan, em Xangai.Redefinindo a RelaçãoPara Pequim, a cúpula talvez seja menos sobre obter concessões específicas e mais sobre redefinir os termos de como as duas superpotências devem se relacionar.Xi buscará a confirmação de que seu país, a segunda maior economia do mundo, tem o mesmo poder geopolítico dos Estados Unidos. E que ele, como seu líder, é um igual para Donald Trump. Essa simbologia foi buscada por Xi desde que ele assumiu o cargo de presidente, em 2012. Publicidade“Se o presidente dos EUA é o líder do mundo livre e Xi Jinping é seu par, o que isso diz sobre a liderança de Xi Jinping? Isso significa que ele também deve ser um líder mundial”, disse Yun Sun, diretora do programa China do Stimson Center em Washington.O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, discursa durante um jantar de Estado em Pequim Foto: Mark Schiefelbein/APA China argumentou, mais recentemente em um editorial da agência de notícias oficial Xinhua na quarta-feira, intitulado “Encontrando o Caminho Certo para a China e os EUA Conviverem como Grandes Potências”, que os Estados Unidos não devem esperar ter tudo em troca da China. O texto criticou Washington por pedir ajuda a Pequim em questões de seu interesse — como o combate ao fluxo de fentanil para os Estados Unidos — enquanto, simultaneamente, prejudica os interesses chineses, por exemplo, impondo sanções a empresas chinesas.Mas essa dinâmica tem definido a relação nos últimos oito anos, levando-os a divergir sobre tudo, desde as origens da pandemia de Covid-19 até o aparecimento de um balão espião chinês sobrevoando os Estados Unidos. Hoje, os dois lados permanecem em desacordo sobre o apoio da China ao Irã e à Rússia, bem como sobre os controles de exportação dos EUA que impedem as empresas chinesas de adquirirem chips de computador avançados e outras tecnologias.PublicidadeSaiba mais Trump e Xi se reúnem por mais de 2h e discutem comércio e risco de guerra por TaiwanGuerra com o Irã ofusca agenda de Donald Trump na ChinaTrump e Xi: Por trás da pompa e das gentilezas, uma rivalidade geopolíticaChina quer ganhar tempo para se fortalecerEm última análise, a China quer mais estabilidade e manutenção da trégua comercial. Isso significa o fim das tarifas, dos controles de exportação e das sanções impostas às suas empresas.“Eles só querem tempo e espaço para se fortalecerem para a competição futura”, disse Amanda Hsiao, diretora da área de China do Eurasia Group, que esteve recentemente em Pequim reunindo-se com acadêmicos e autoridades.Pequim já vem fazendo isso, construindo o que Xi Jinping chama de “autossuficiência nacional” em tecnologia, mas também em comércio e ciência. Desde o último encontro entre os dois líderes, há seis meses, a China aprimorou suas ferramentas para infligir prejuízos econômicos aos rivais. Após anos de controles de exportação dos EUA, empresas chinesas estão produzindo seus próprios chips, enquanto empresas como a DeepSeek estão desenvolvendo sistemas de IA que contornam as restrições.O presidente da China, Xi Jinping, discursa em Pequim