O primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, recebe dezenas de investidores globais em Toronto nesta segunda-feira, na tentativa de atrair investimentos para mais de 160 projetos que, segundo ele, são fundamentais para conduzir a economia canadense em meio à guerra comercial com os Estados Unidos. Entre os participantes confirmados, muitos integrantes da rede pessoal de contatos do ex-executivo do Goldman Sachs e ex-presidente de banco central, estão Larry Fink, CEO da BlackRock, e Jon Gray, presidente da Blackstone, ambos dos EUA, além de Dilhan Pillay, CEO do fundo Temasek, de Singapura, e Annette Mosman, CEO do fundo de pensão holandês APG Groep, segundo uma fonte a par do evento. A cúpula, que ocorrerá principalmente na terça-feira, promoverá discussões sobre futuros investimentos, embora grandes acordos possam levar de 12 a 18 meses para se concretizar, segundo uma fonte do governo. Carney prometeu atrair 1 trilhão de dólares canadenses (US$ 721 bilhões) em investimentos nos próximos cinco anos, reduzindo entraves burocráticos e desenvolvendo projetos de mineração, energia, tecnologia e infraestrutura. “Os maiores investidores do mundo, que administram mais de 120 trilhões de dólares canadenses em ativos, virão ‘dar uma olhada em nossa vitrine’ porque o mundo está olhando para o Canadá de uma maneira diferente”, disse Carney em uma recepção de boas-vindas no domingo. Atrair investimentos é crucial para que a economia canadense consiga enfrentar as crescentes tarifas impostas pelos EUA, principal parceiro comercial do Canadá. Carney tem buscado fazer negócios com novos parceiros no Oriente Médio e na Ásia e fortalecer a aliança canadense com a Europa. Carney tem tentado responder a antigas preocupações com um regime regulatório burocrático e demorado e com a falta de projetos de grande escala no país que sejam suficientemente sólidos para atrair investimentos. Nesta segunda-feira, o ministro das Finanças, François-Philippe Champagne, afirmou que a agência tributária federal dará prioridade a pedidos de decisões fiscais antecipadas para investimentos de 1 bilhão de dólares canadenses ou mais, a fim de permitir que investidores obtenham rapidamente uma decisão vinculante sobre como a legislação tributária será aplicada a uma operação proposta antes de comprometerem capital. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, conversa com o primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, durante um almoço de trabalho com líderes do G7 e do Oriente Médio, em Evian-les-Bains, na França, em 16 de junho de 2026 — Foto: REUTERS/Evelyn Hockstein/Pool/Foto de arquivo Aproximando investidores e empresas A cúpula busca aproximar cerca de 100 investidores globais de CEOs, empresas e autoridades locais canadenses para facilitar investimentos ou parcerias. Os projetos estão em diferentes estágios, desde a fase conceitual até aqueles prontos para sair do papel, segundo uma cópia de um prospecto obtida pela Reuters. O documento apresenta o Canadá como um mercado estável e previsível, preparado para o crescimento econômico de longo prazo. O portfólio de projetos também destaca as ambições tecnológicas do Canadá, com 96 centros de dados em desenvolvimento. Entre as oportunidades estão um investimento em participação acionária no computador quântico fotônico da Xanadu, cuja comercialização está prevista para 2029-2030; um investimento acionário em um complexo de centros de dados em Alberta; e o financiamento de um complexo de hiperescala voltado à inteligência artificial em New Brunswick. O projeto Crawford Nickel, que produzirá níquel de baixo carbono para baterias e aço verde, também está na lista. O prospecto também inclui projetos de infraestrutura, geralmente procurados por fundos de pensão e outros investidores de longo prazo, entre eles uma proposta que busca de 900 milhões de dólares canadenses em financiamento para um sistema de transporte de alta velocidade por cápsulas entre Calgary e Edmonton. Os fluxos de investimento estrangeiro direto para o Canadá vêm aumentando de forma constante desde 2022, mostram dados do governo, com média trimestral de cerca de 23 bilhões de dólares canadenses em 2024 e 2025 e de 20 bilhões até agora neste ano. Isso se compara a 16,3 bilhões de dólares canadenses em 2023 e de 15 bilhões em 2022. Uma parcela significativa dos investimentos recebidos pelo Canadá esteve relacionada a fusões e aquisições, como a compra da CI Financial pela Mubadala Capital por 12 bilhões de dólares canadenses e a aquisição da Arcadium Lithium pela mineradora anglo-australiana Rio Tinto, ou à reinversão de lucros de empresas estrangeiras. O primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, fala com jornalistas ao chegar ao gabinete do primeiro-ministro e do Conselho Privado, em Ottawa, na terça-feira, 1º de setembro de 2026 — Foto: Justin Tang/The Canadian Press via AP Impulsionar o investimento estrangeiro direto Os investimentos “greenfield”, porém — aqueles destinados a novos empreendimentos, como fábricas e armazéns —, não registraram um aumento significativo desde que Carney assumiu o cargo. Doug Porter, economista-chefe do BMO Capital Markets, alertou que é difícil atrair esse tipo de investimento para uma economia madura como a do Canadá. “Será fascinante ver se esta cúpula de investimentos realmente conseguirá dar um forte impulso ao investimento estrangeiro direto”, acrescentou. As prioridades do governo Carney representam uma mudança em relação às de seu antecessor, Justin Trudeau, também do Partido Liberal, que deu maior ênfase a direitos humanos, mudanças climáticas e questões indígenas. Carney afirmou estar ansioso para receber investidores sauditas na cúpula e restabeleceu relações com Índia e China. O setor financeiro canadense, por sua vez, comprometeu-se a destinar bilhões de dólares a empresas do país. Nesta segunda-feira, o TD, segundo maior banco do Canadá, anunciou um compromisso de 150 bilhões de dólares canadenses ao longo de cinco anos para empréstimos e financiamento de projetos nos setores de energia, minerais críticos e recursos naturais, defesa e aeroespacial, digital e inteligência artificial e infraestrutura. O Scotiabank afirmou ter comprometido 100 bilhões de dólares canadenses em financiamento para apoiar a agenda de crescimento do Canadá. A cúpula também atraiu protestos de uma coalizão de sindicatos, grupos indígenas, defensores do direito à moradia e organizações climáticas e contrárias à guerra. Os manifestantes acusam alguns dos participantes de lucrar com a especulação imobiliária, a expansão dos combustíveis fósseis e investimentos ligados à defesa às custas dos canadenses comuns. O grupo planejou uma marcha para a noite desta segunda-feira em Toronto. Nick Barry-Shaw, do grupo de defesa de interesses Council of Canadians, afirmou que a reunião de investidores globais representa um esforço de privatização, e não um projeto de construção nacional. “Esta não é uma cúpula de investimentos. É uma cúpula de privatização”, disse Barry-Shaw. “Isto não é construção nacional. É a venda do país.”