Gerando resumoBRASÍLIA – A derrubada do sigilo de documentos do inquérito do Banco Master pelo Supremo Tribunal Federal (STF) revela indícios de que os dois servidores do Banco Central supostamente envolvidos no esquema receberam R$ 12 milhões em propina de empresas ligadas ao banqueiro Daniel Vorcaro.PUBLICIDADESegundo a documentação, o ex‑diretor de fiscalização Paulo Sérgio Neves de Souza teria recebido R$ 8 milhões, enquanto Belline Santana, chefe do Departamento de Supervisão Bancária (Desup), teria sido beneficiado com R$ 4 milhões. A informação havia sido divulgada pelo Estadão em abril deste ano. Os dois estão afastados de suas atribuições desde 9 de janeiro.Procuradas, as defesas de ambos os servidores negam que eles tenham recebido valores ligados ao Master e que tenham atuado para ajudar o banco de dentro do Banco Central (leiam as notas mais abaixo).PublicidadeEx-diretor de Fiscalização Paulo Sérgio Neves de Souza e ex-chefe de departamento de Supervisão Bancária do Banco Central Belline Santana Foto: Reprodução/Instagram@bellinesantana/Beto Nociti/BCBOs documentos mostram que Paulo Sérgio relatou ao próprio Banco Central, em janeiro deste ano, que fechou um negócio de R$ 4,8 milhões para a venda do sítio Mirante, no município de Juruaia, em Minas Gerais, a Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro. Paulo Sérgio alegou que só descobriu que Zettel era cunhado do banqueiro um ano depois, na lavratura da escritura, e que não tinha conhecimento de relacionamento entre ele e o Banco Master.Sindicância patrimonial (Sinpa) interna do Banco Central apontou que o negócio foi fechado pelo valor de R$ 5,2 milhões e que não há indicativos de que o comprador tenha assumido a posse da propriedade. Além disso, a investigação afirma que Paulo Sérgio, junto com seu irmão Luís Roberto, teria recebido mais R$ 1 milhão (R$ 500 mil cada, em duas parcelas) pela compra da safra de café plantado no sítio.Paulo Sérgio vendeu ainda uma casa no município de Guaxupé, por R$ 1,52 milhão, à Noah Empreendimentos – empresa controlada por Zettel e administrada por Luís Roberto, visto pelos investigadores como laranja do irmão no negócio. Ou seja, o contrato foi assinado pelo próprio irmão, em nome da compradora.PublicidadePaulo Sérgio também foi ressarcido em R$ 276 mil pela compra de aparelhos de ginástica instalados na casa, adquiridos por ele três meses antes da assinatura do contrato. Pelo aditivo firmado em julho de 2024, a escritura só seria lavrada após o pagamento integral, em 2028, e até lá os vendedores “poderão fazer uso livremente do imóvel”.“À vista dos fatos e fundamentos jurídicos acima expostos, conclui‑se que pesam contra o servidor Paulo Sérgio Neves de Souza indícios de: a) enriquecimento ilícito (...); b) atuação em conflito de interesses (...); c) improbidade administrativa (...); d) violação dos deveres de lealdade às instituições e de manutenção de conduta compatível com a moralidade administrativa (...); e) violação da proibição de receber propina, comissão, presente ou vantagem de qualquer espécie, em razão de suas atribuições (...); f) prática de corrupção”, diz o relatório final da comissão de sindicância patrimonial, assinado em 5 de março.Já em relação a Belline Santana, os documentos mostram que ele firmou dois contratos de R$ 2 milhões cada com a Varajo Consultoria Empresarial, da qual o advogado Leonardo Palhares é único sócio e administrador. O primeiro foi assinado em 17 de outubro de 2023; o segundo, em 28 de agosto de 2024.Publicidade“Com efeito, além de sócio e administrador da Varajo Consultoria, Leonardo Palhares é também diretor da Super Empreendimentos e Participações, empresa que, segundo noticiado pela imprensa, possui vínculos com Daniel Vorcaro, administrador do Banco Master. Ademais, Fabiano Zettel, cunhado do mesmo Daniel Vorcaro, é sócio (e foi também diretor) da Super Empreendimentos. Além de cunhado, Zettel é apontado em inúmeras reportagens jornalísticas como operador financeiro de Daniel Vorcaro”, diz a sindicância do BC sobre Belline.Relatório da Polícia Federal anexado ao processo mostra que Belline tratou diretamente com Vorcaro do acerto do contrato, embora o documento fosse assinado por Palhares. Em 18 de outubro de 2023, o servidor cobrou do banqueiro o e‑mail com a carta‑convite que ainda não havia chegado. Dias depois, comunicou a ele que havia aceitado o negócio e que levaria a carta ao corregedor do Banco Central. Em 20 de outubro, avisou que estava tudo certo. Ao receber o e‑mail de aceite, Vorcaro e o cunhado Fabiano Zettel reagiram, em conversa entre eles, com as mensagens “Que circo” e “Kkkkkkkk” – trecho que a PF usa para sustentar que a contratação era fictícia. No dia 26 de outubro, Vorcaro determinou a Zettel que fosse paga “a primeira parcela do Belline”, pedindo que o pagamento saísse pela empresa de Palhares, com reembolso posterior.PublicidadeA primeira proposta envolvia a elaboração de um projeto de inclusão financeira de jovens carentes. Em sua versão inicial dos fatos, apresentada em 7 de janeiro ao diretor de Fiscalização e ao procurador‑geral do BC, antes mesmo da abertura da sindicância, Belline relatou que ponderou não ter disponibilidade para elaborar o projeto, “ao que Leonardo teria respondido que tinha interesse, unicamente, em utilizar ‘seu nome e imagem’, sem necessidade de efetiva participação na elaboração do projeto”.Nessa mesma versão, ele afirmou ter recebido “ao longo de 2023, duas parcelas semestrais de R$ 500.000,00 (quinhentos mil reais), tendo, em contrapartida, efetivamente trabalhado na elaboração de projeto de inclusão de jovens na indústria financeira, além de participar de um ‘podcast’”. No depoimento formal, duas semanas depois, e na apuração da comissão, o número mudou: foram quatro parcelas mensais de R$ 500 mil, entre outubro de 2023 e janeiro de 2024.O segundo contrato teve como objeto a elaboração de estudos e um ciclo de palestras. Segundo a sindicância do BC, foram pagos R$ 500 mil em setembro de 2024 e R$ 500 mil em outubro, mais dez parcelas de R$ 100 mil, de março a dezembro de 2025. PublicidadeO ciclo de palestras nunca teria ocorrido: houve um webinário com cerca de 20 participantes. Perguntado sobre o que entregou de serviços pelos R$ 2 milhões recebidos, Belline listou a criação de uma logomarca, perfis no LinkedIn e no Instagram, divulgação nas redes sociais e o webinário.Em 29 de janeiro deste ano, seis dias após prestar depoimento, Belline enviou e‑mail a Palhares desistindo do projeto. O advogado respondeu agradecendo: “Suas contribuições foram importantes.” Para a comissão, “salta aos olhos como um vínculo contratual de 2 milhões de reais possa ser encerrado de forma tão singela”.Com base na conclusão das sindicâncias, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, encaminhou as apurações à Controladoria‑Geral da União (CGU). A decisão foi comunicada ao ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, em ofício de 11 de março assinado por Galípolo e pelo procurador‑geral do BC, Cristiano Cozer.Defesa de Paulo Sérgio Neves de Souza“De antemão, Paulo Sérgio Neves de Souza nega veementemente ter recebido direta ou indiretamente qualquer espécie de vantagem econômica do Banco Master ou do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, até porque não realizou qualquer ato que pudesse beneficiar o Sr Vorcaro no exercício das suas funções. As conclusões alcançadas em relatório da Sindicância Patrimonial do Banco Central do Brasil estão equivocadas, tendo sido rebatidas tanto nos autos daquele procedimento como em depoimento policial prestado por Paulo Sérgio no dia 10 de julho deste ano.“No caso do sítio, que já estava exposto à venda, foram travadas negociações com o comprador interessado a respeito de valores e de área a ser vendida e, ao fim, a compra e venda do sítio foi celebrada de forma absolutamente legítima com o Sr. Fabiano Zettel, o qual, no momento da assinatura do contrato em 17 de janeiro de 2020, se apresentou como empresário do ramo imobiliário, demonstrando particular interesse na realização de projeto de loteamento no terreno. Em pesquisas naquele contexto, não foi localizada qualquer vinculação com o Banco Master, mas somente sua atuação como pastor.“Somente quase um ano depois, na ocasião de lavratura da escritura do imóvel, o comprador Fabiano Zettel revelou, em conversa, ser cunhado de Daniel Vorcaro, mas assegurou não possuir qualquer relação com o Banco Master ou com o sistema financeiro. Nesse sentido, todos os pagamentos foram realizados da conta pessoa física do comprador Fabiano Zettel para sua conta pessoa física e a transação foi informada em declaração de imposto de renda, não tendo havido qualquer tentativa de mascarar ou ocultar a transação imobiliária.Publicidade“Em especial, cabe esclarecer que a região do sítio é alvo de significativa valorização imobiliária e de surgimento de lotes, enquanto o sítio por si só poderia ser utilizado tanto para fins de exploração de lavoura cafeeira como para loteamento. Ou seja, considerando a área total do sítio, a sua favorável topografia e o consequente enorme potencial para projetos de loteamento, o valor pago por Fabiano Zettel está de acordo com o valor de mercado e, igualmente em contratos dessa natureza, está absolutamente dentro da normalidade a incidência de correção monetária sobre o saldo devedor.“Nesse cenário, importante complementar que, no período pandêmico, houve forte valorização das terras como produtoras de café na região. Cientificado desse cenário, Zettel demonstrou interesse em revitalizar a lavoura e garantir safras futuras do cafezal, mas, como havia sido acordado contratualmente que os vendedores ainda teriam direito à produção da safra de 2022/2023, a solução seria a renúncia da parte da produção pelos vendedores e o aumento dos gastos com a recuperação da lavoura. Por essa razão, foi estipulado contratualmente que o novo titular procederia com o pagamento de compra da safra, pois nada mais justo que fosse pago o valor que os vendedores iriam adquirir com a safra renunciada e custearam para revitalizar. “Familiarizado com o potencial do mercado imobiliário da região, Fabiano Zettel ajustou compromisso de compra e venda de casa na planta, em processo de construção por Paulo Sérgio, em Guaxupé, de modo que, enquanto comprador, negociou os detalhes do imóvel e de sua reforma. Contudo, nem todas as parcelas foram pagas, de modo que os valores até então recebidos só serviram para financiamento da construção. Portanto, a inteireza do relacionamento comercial, única e exclusivamente travada com o Sr. Fabiano Zettel, foi absolutamente legítima e equitativa, não tendo sido concedida unilateralmente vantagem a Paulo Sérgio, muito menos conservada qualquer relação com Daniel Vorcaro.Publicidade“Do mesmo modo, a defesa esclarece que Paulo Sérgio Neves de Souza possui documentação comprobatória de que custeou integralmente a viagem realizada por ele e sua família à Disney, incluindo hospedagem, passagens aéreas, ingressos para os parques da Disney e Universal, aquisição de moeda estrangeira e despesas realizadas por meio de cartões de crédito, todos com recursos de origem devidamente comprovada.“O conhecimento de Daniel Vorcaro acerca da viagem ocorreu previamente, no contexto do agendamento de reunião entre o Banco Central do Brasil e a instituição supervisionada, ocasião em que Paulo informou sua indisponibilidade em razão de viagem familiar já programada para as férias escolares de janeiro e fevereiro de 2024. No entanto, somente no dia do embarque para Orlando, Paulo Sérgio recebeu contato do Sr. Daniel Vorcaro, que informou a desistência de integrantes de um grupo que havia adquirido pacote de acesso prioritário aos parques e ofereceu a possibilidade de assumir uma das vagas. Paulo Sérgio aceitou as condições apresentadas, inclusive mediante o pagamento de US$ 8 mil, valor pago em espécie, nos Estados Unidos, por intermédio de pessoa indicada pelo Sr. Daniel Vorcaro.“A defesa afirma que Paulo Sérgio Neves de Souza desconhece qualquer informação no sentido de que a empresa do Sr. Leonardo Giunchetti tenha recebido, do Sr. Daniel Vorcaro ou de qualquer outra pessoa, qualquer valor além dos US$ 8 mil pagos em espécie por Paulo Sérgio, nas circunstâncias acima descritas. Paulo Sérgio Neves de Souza jamais teve conhecimento de qualquer pagamento de US$ 38 mil ou de qualquer outro valor que teria sido supostamente repassado por Daniel Vorcaro ao agente de viagens, não tendo participado, autorizado ou presenciado qualquer transação dessa natureza.Publicidade“Por fim, importante frisar que em nenhum momento Paulo Sérgio favoreceu os interesses de Daniel Vorcaro, tanto que as fases 1 e 2 da Operação Compliance Zero decorreram de prontas ações de Paulo Sérgio e de sua equipe, tendo o próprio Paulo Sérgio, ao final da fase de comprovação de indícios de fraude e quando da anuência dos seus superiores hierárquicos, preparado a representação encaminhada ao Ministério Público Federal, bem como que era ele quem defendia internamente a liquidação do Banco Master desde março de 2025, muito antes da diretoria do BACEN (seus superiores hierárquicos) ter seguido este caminho. “Portanto, Paulo Sérgio não recebeu qualquer contrapartida financeira e jamais protegeu interesses do Sr. Daniel Vorcaro, com quem manteve contatos estritamente no âmbito da relação institucional entre supervisor e supervisionado, desempenhando suas funções com independência, rigor técnico e absoluta observância dos deveres funcionais no Banco Central do Brasil”.Defesa de Belline Santana“A defesa do Sr. Belline Santana, por seu advogado Leonardo Palazzi, destaca que a exposição midiática (seletiva e parcial) somente prejudica o real esclarecimento sobre os fatos, o que está sendo feito no Inquérito Policial competente (Petição 15504), sobre o qual, inclusive, foi levantado o sigilo nos últimos dias. Publicidade“A Informação de Polícia Judiciária – IPJ – que tanto tem sido repercutida referente a Petição 15556, com as conversas de Whatsapp atribuídas ao Sr. Belline Santana, trata-se da interpretação acusatória que sequer caberia à Polícia Federal, sendo que os trechos estão sendo destacados de forma indevidamente direcionada – o que já é objeto de questionamento no STF pelo próprio Ministro Relator André Mendonça e demais Ministros da Suprema Corte. ”De todo modo, o Sr. Belline Santana também já explicou no seu depoimento prestado na Petição 15504 que desenvolveu um projeto social de inclusão de jovens no mercado financeiro, denominado JOVENS POTENTES, sendo que a contratação foi com a empresa Varajo Consultoria Empresarial Sociedade Unipessoal Ltda., de titularidade do Sr. Leonardo Palhares, presidente da Câmara E-Net. “Ao tempo da contratação para desenvolvimento do projeto (2023), ao que era de conhecimento do Sr. Belline Santana, a Varajo Consultoria, o Sr. Leonardo Palhares e a Câmara E-Net não possuíam qualquer relação com o Sr. Daniel Vorcaro e, sobretudo, com o Banco Master. Publicidade“O Sr. Belline Santana foi indicado por diversas pessoas ao Sr. Leonardo Palhares, como presidente da Câmara E-Net, para referido projeto social, inclusive pelo Sr. Daniel Vorcaro, mas não havendo qualquer relação de financiamento que fosse de sua ciência. “Não há sequer relação temporal com os fatos posteriores relacionados às atividades de supervisão do próprio Banco Master que são objeto de investigação (2024 e 2025) que, também conforme já esclarecido, se deu de forma totalmente integra pelo Sr. Belline Santana. “Igualmente, já restou esclarecido, sem sombra de dúvidas, que o Sr. Belline Santana não aceitou qualquer viagem ou serviços de concierge relacionados ao Sr. Daniel Vorcaro, o que foi confirmado no depoimento do responsável por tais serviços, o Sr. Leonardo Serrano Giunchetti. Portanto, qualquer indicação em sentido contrário é totalmente falsa. “Por fim, do próprio teor das mensagens de WhatsApp veiculadas de forma descontextualizada na Informação de Polícia Judiciária – IPJ – restou esclarecido na investigação que é obrigação legal e regulatória discutir com as Instituições Financeiras supervisionadas as questões relacionadas ao seu modelo de negócio (vide Lei 9447/97, Manual de Supervisão do Banco Central do Brasil, Regimento Interno, dentre outras). “Por isso, as conversas mantidas pelo Sr. Belline Santana com o Sr. Daniel Vorcaro, como controlador do Banco Master, inserem-se no regular exercício de sua atividade funcional e não podem ser interpretadas, isoladamente ou a partir de trechos selecionados, como indicativas de favorecimento ou de qualquer atuação irregular, sobretudo porque o conteúdo integral das mensagens não revela qualquer interferência indevida na atividade de supervisão, mas justamente o acompanhamento técnico e institucional que competia ao Banco Central realizar. “O desconhecimento de tais questões afetas à supervisão bancária e sua regulamentação bastante específica, por parte da Polícia Federal, está levando também a Imprensa a conclusões açodadas, construídas a partir de recortes de conversas que, quando examinadas em sua integralidade e à luz das atribuições funcionais do Sr. Belline Santana, não sustentam a narrativa que vem sendo divulgada. “Atribuir caráter criminoso a comunicações inerentes à própria atividade de supervisão do Banco Central, desconsiderando o contexto, a cronologia dos fatos e os demais elementos já esclarecidos na investigação, não contribui para o esclarecimento da verdade e apenas reforça uma narrativa que não encontra respaldo nos elementos concretos da própria investigação.”Vale ler tambémPlantae colhe resultados e mira R$ 500 mi em créditoA outra guerra: início do período de chuvas dá a largada na louca corrida do agro pela próxima safraProdutividade baixa e juro alto montam uma armadilha; entenda como ela funciona