Inteligência artificial, uso de dados e qualificação profissional pautam debate sobre os próximos passos da transformação no campo 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Evento também buscou reforçar o posicionamento da Solinftec como aliada estratégica de seus clientes — Foto: Divulgação Em sua primeira edição, o Arena Impacto trouxe um modelo de evento diferente do que o agronegócio está acostumado. A lista de palestrantes e debatedores reuniu líderes de empresas como Amazon, Siemens, Oracle, Ânima Educação, Ambev e GMW, além de Silvio Meira, cientista-chefe da TDS Company e Paulo Vicente Alves, professor da Fundação Dom Cabral. “Não existe essa coisa de ‘tecnologia do agro’”, disse o anfitrião Denis Arroyo, vice-presidente global da Solinftec, no discurso de abertura. “Todas as tecnologias são aplicáveis ao nosso negócio. A gente veio preparar o terreno sobre a aplicação da IA.” A ideia do evento nasceu em uma visita de Arroyo ao Brazil at Silicon Valley, na Califórnia. O formato era parecido – palestras rápidas com grandes empresas de tecnologia –, mas o conteúdo o surpreendeu. “Esperava ver muita coisa futurista, mas o que eu vi foi muita coisa futurista aplicada”, afirmou. “O que a gente imagina como futuro já está acontecendo. O agro brasileiro está chegando tarde à conversa. O Arena Impacto, organizado pela Solinftec em parceria com Valor Econômico e Globo Rural, surgiu como resposta.” Além de acelerar a discussão, o evento também buscou reforçar o posicionamento da Solinftec como aliada estratégica de seus clientes. “Em vez de apenas vender produto, queremos apoiar a transformação tecnológica de nossos clientes.” Para isso, avalia, não basta dominar a tecnologia internamente. É preciso compartilhar conhecimento com o ecossistema ao redor. O agro coleta dados, mais do que usa Em sua palestra, Silvio Meira apresentou o impacto da inteligência artificial sob uma perspectiva histórica. A adoção da eletricidade pela indústria levou décadas para se traduzir em ganhos de produtividade porque, no início, as fábricas simplesmente trocaram caldeiras a vapor por motores elétricos – sem mudar a lógica da operação. “Eles usaram o novo do jeito velho”, disse. “Faltou desaprender o antigo método para então aprender algo diferente.” Silvio Meira, cientista-chefe da TDS Company — Foto: Divulgação Meira apontou um paradoxo do agronegócio: o setor que mais coleta dados é um dos que menos decide com base neles. O campo conta com satélite, drone, estação meteorológica, sensor de solo, monitor de colheita, telemetria de máquina – dados não faltam. O problema está em outro lugar. “A informação existe fragmentada. Ninguém tem a série completa do mesmo talhão ao longo de dez anos – nem o próprio produtor”, afirmou. O resultado, segundo Meira, é que a decisão continua sendo tomada pela experiência, pela relação e pela intuição. “Coletar não é medir, medir não é decidir e decidir não é aprender”, disse. “É nesses três degraus que o valor se perde.” Na era da IA, afirmou, maturidade não está simplesmente em operar como uma empresa com muita tecnologia, mas em funcionar como um sistema cognitivo. A urgência da IA Autor de sete livros sobre tecnologia e negócios, Ricardo Cavallini, defendeu em sua palestra a urgência da adoção da inteligência artificial. “Com o lançamento da IA, tudo o que a gente fazia acabou de ficar medíocre. Se não ficou, vai ficar amanhã ou depois de amanhã”, disse. E alertou para uma armadilha comum: esperar que outras empresas ou setores façam primeiro, em busca de referências. “A receita para o atraso é deixar outros setores fazerem antes”, afirmou. “A tecnologia não vai chegar pronta. Ela precisa ser adaptada por quem conhece as operações por dentro”. Os exemplos concretos apareceram ao longo do evento. Cavallini mencionou fazendas que já calculam o peso de porcos por imagem captadas por câmeras. Ricardo Bastos, diretor de Relações Institucionais da GWM Brasil, contou que a empresa produziu seu primeiro comercial com uso de inteligência artificial, um trabalho que, segundo ele, levaria 15 dias de filmagem, foi concluído em dois. Daniela Cachich, CEO da Beyond CO na Ambev, disse que o tempo de desenvolvimento de novos produtos caiu de dois anos para três meses. A velocidade dessa transformação traz outro desafio: preparar as pessoas para acompanhar tecnologias em constante mudança. Paulo Vicente Alves, professor da Fundação Dom Cabral, abordou a questão pela perspectiva da gestão. Para ele, ninguém investe em tecnologia por vontade própria – investe porque o modelo anterior não funciona mais. Ele levantou uma questão sem resposta fácil: como preparar pessoas para trabalhar com tecnologias que ainda não existem? A resposta, segundo ele, não está no treinamento específico, mas no desenvolvimento do conhecimento. Como se preparar para a IA O painel "Quem vai liderar a nova era da inovação" reuniu Paula Harraca, CEO da Ânima Educação, Daniela Cachich, CEO da Beyond CO na Ambev, Ricardo Bastos, diretor de Relações Institucionais da GWM Brasil, e Clarice Couto, eidtora-assistente de Agronegócios do Valor Econômico e da Globo Rural — Foto: Divulgação Mais desafiador do que entender o papel da IA é redefinir o papel dos humanos nesse novo formato. Quando os modelos de inteligência artificial conseguem articular o conhecimento de todos os livros ao mesmo tempo, decorar respostas já não faz sentido. “Depois da Grécia Antiga, a educação evoluiu na direção da padronização. Em transformar pessoas em algoritmos, capazes de gabaritar provas”, disse Paula Harraca, CEO da Ânima Educação. “Precisamos trabalhar as competências, mais do que o conhecimento. Precisamos desenvolver a capacidade de aprender”, afirmou. Diante de uma IA que organiza todas as informações de maneira lógica, segundo Daniela Cachich, a inteligência humana será valorizada pela capacidade de fazer o contraponto. “Não podemos acreditar que tudo que vem de um chatbot é verdade”, disse. “Devemos fazer perguntas melhores, e saber quando desconfiar das respostas”. Se a tecnologia já está disponível, o desafio passa a ser como incorporá-la às operações. Para Marco Righetti, diretor sênior de Engenharia Avançada da Oracle América Latina, a adoção acelerada de ferramentas como a IA se deve, em parte, à oferta de tecnologia não como produto, mas como serviço – com os grandes investimentos em infraestrutura a cargo das empresas de tecnologia. Para ele, a principal barreira à adoção não é técnica nem financeira. “O mais difícil é o lado humano. Sem compreender o papel da inovação, implantar agentes de forma indiscriminada gera só custo”, disse. Esse desafio, porém, não fica restrito a quem trabalha diretamente com tecnologia. Luis Caro, head de Inovação em Nuvem e IA da Amazon Web Services, torna o aprendizado parte da transformação. Ele comparou o momento atual ao avanço do computador pessoal nas décadas de 1980 e 1990. “Todo mundo teve que aprender a usar PC, e o mesmo vai acontecer agora”, lembrou. Para ele, entender a tecnologia não é tarefa só de quem está na área técnica, vale para todos os níveis da empresa, do júnior à diretoria. Do debate à prática Denis Arroyo, vice-presidente global da Solinftec — Foto: Divulgação Palestras e debates foram o ponto de partida do encontro – mas só o ponto de partida. “Existe um motivo para o evento se chamar Arena Impacto. Arena, por ser um espaço aberto à discussão. Impacto, porque o objetivo era deixar o público impactado, curioso”, explicou Arroyo. “Fico feliz de ver que as pessoas encontraram respostas para algumas perguntas e, principalmente encontraram novas questões.” Entre o público, essa proposta se traduziu na possibilidade de levar discussões de ponta a diferentes elos da cadeia de produção. Gustavo Montezano, CEO da YvY Capital, investidora da Solinftec, destacou esse aspecto. “A inteligência artificial é provavelmente a maior revolução da nossa geração, capaz de mudar toda a cadeia produtiva. Mas, para isso acontecer, não basta o engenheiro entender a tecnologia”, disse. “O vendedor, o agrônomo, o regulador, o banco, o advogado, todo o ecossistema precisa ter conhecimento suficiente para dialogar e incorporar as mudanças.” Na prática, porém, entender as possibilidades abertas pela IA é apenas parte do caminho. Marco Alexandre Bronson, presidente da Talismã Sementes, reconheceu que o desafio está também em saber como aplicá-las. “A inteligência artificial está em todos os setores e acho que a agricultura pode se beneficiar com ela, mas não sei como aplicar”, admitiu. “Há cerca de seis anos, a Solinftec ajuda a Talismã no monitoramento das máquinas e na operação de robôs. É natural contar com ela para conhecer as próximas tecnologias.”