Entorno do senador teme avanço das investigações sobre o filme e aposta que embate na Corte continuará no centro da disputa eleitoral 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Flávio Bolsonaro, candidato do PL à Presidência da República, faz campanha em Juiz de Fora (MG), nesta quarta-feira — Foto: Fabiano Rocha / Agência O Globo A operação da Polícia Federal sobre o financiamento do filme “Dark Horse”, deflagrada nesta quinta-feira, provocou preocupação na campanha do senador e presidenciável Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que passou a trabalhar para conter o impacto do caso a três semanas do primeiro turno das eleições. A estratégia é ressaltar que a ação autorizada pelo ministro Flávio Dino investiga o uso de emendas parlamentares e não tem o candidato como alvo e, ao mesmo tempo, tentar manter o foco do debate político na crise do Supremo Tribunal Federal (STF). Integrantes da campanha reconhecem que a operação tem potencial de provocar desgaste por recolocar no noticiário um projeto que já havia gerado preocupação no entorno de Flávio durante a pré-campanha. Também há temor com o avanço das investigações sobre o financiamento do filme, do qual o candidato participou diretamente na busca por recursos. A avaliação, porém, é que o embate no Supremo continuará ocupando espaço central no debate nos próximos dias e seguirá como um dos principais assuntos explorados pelo presidenciável. O novo episódio ocorre em um momento considerado favorável pelo entorno de Flávio. Na última rodada da Quaest, divulgada na segunda-feira, o candidato apareceu numericamente empatado com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em um eventual segundo turno, com 41% das intenções de voto para cada um. Aliados vinham atribuindo parte do avanço à crise no STF, que permitiu ao presidenciável reforçar críticas à Corte e deslocar parte das atenções das investigações relacionadas ao Banco Master. A ação da PF é vista como um risco a esse movimento. A aposta da campanha, no entanto, é que a dimensão alcançada pelo confronto entre ministros dificulta uma mudança completa do foco do debate eleitoral. Auxiliares pretendem continuar explorando o episódio, sobretudo com críticas a Alexandre de Moraes e Dino, e avaliam que a crise permanecerá no centro da agenda política ao menos até a próxima semana. A partir daí, com pouco mais de duas semanas para a votação, a avaliação é que haverá pouco tempo para que o assunto perca peso na campanha. A estratégia também passa por diferenciar as duas investigações relacionadas ao financiamento de “Dark Horse”. A operação sob relatoria de Dino apura suspeitas de desvio de emendas parlamentares destinadas a entidades ligadas à produção do filme. A PF cumpre 49 mandados de busca e apreensão, e estão entre os alvos o deputado Mário Frias (PL-SP) e a empresária Karina Gama, da produtora Go Up. O fato de Mário Frias estar entre os alvos da operação provocou, por outro lado, uma avaliação de que o impacto político poderia ter sido maior. Nos bastidores, integrantes da campanha de Flávio afirmam que a situação criaria um problema adicional caso o deputado tivesse sido escolhido candidato do grupo ao Senado por São Paulo, hipótese considerada durante a montagem da chapa no estado. A leitura é que a escolha de outro nome evitou que a operação atingisse diretamente um dos principais palanques estaduais do presidenciável. O PL acabou lançando ao Senado o presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo, André do Prado. Flávio não é alvo dessa investigação. O candidato, porém, aparece diretamente em outra frente, sob responsabilidade de André Mendonça e aberta como desdobramento do caso Master. Mensagens reveladas pela investigação mostraram que o presidenciável pediu ao banqueiro Daniel Vorcaro R$ 130 milhões para financiar o filme, dos quais R$ 61 milhões teriam sido pagos. Diante dessa ligação, a orientação é enfatizar que a ação desta quinta-feira não investiga a atuação de Flávio na busca por recursos privados para o longa. A campanha busca, assim, separar as duas frentes sem negar a participação do candidato nas tratativas com Vorcaro. Nos bastidores, integrantes da campanha também fazem uma leitura política da operação. Auxiliares relacionam o momento da ação à alta de Flávio nas pesquisas e afirmam enxergar uma tentativa de interferência na disputa eleitoral. Não há evidências de que a operação tenha sido motivada pelo desempenho do candidato. Aliados comparam ainda o inquérito sobre as emendas ao inquérito das fake news, aberto no STF em 2019. A avaliação no entorno de Flávio é que uma investigação prolongada e sob a relatoria de um ministro da Corte pode manter adversários políticos sob pressão. Também há questionamentos sobre o fato de o caso estar sob responsabilidade de Dino e sobre a permanência de Andrei Rodrigues no comando da PF. Na quarta-feira, Dino determinou a reintegração do diretor-geral da corporação depois de ele ter sido afastado por Mendonça. Horas depois, o presidente do STF, Edson Fachin, suspendeu as decisões conflitantes e manteve Andrei no cargo enquanto analisa o caso. A preocupação com “Dark Horse” se soma à cautela que já existia na campanha em relação aos desdobramentos do caso Master. Nesta semana, Mendonça homologou a delação do operador financeiro Antonio Carlos Freixo Júnior, o Mineiro, que confirmou à Procuradoria-Geral da República ter feito sete transferências, no total de US$ 12,3 milhões, para o fundo Havengate a pedido de Vorcaro. O fundo foi utilizado no financiamento do filme. Como mostrou o GLOBO, apesar da cautela com novos elementos das investigações, o entorno de Flávio vinha avaliando que a crise no Supremo produzia mais dividendos eleitorais para o candidato do que para Lula.