Quatro anos após sucesso com ‘Marte um’, diretor mineiro apresenta um dos seis finalistas na disputa para representar o Brasil no Oscar 2027 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Arte de 'Vicentina pede desculpas', de Gabriel Martins — Foto: Divulgação Há quatro anos, uma pequena joia vinda de Contagem, na região metropolitana de Belo Horizonte, Minas Gerais, atingiu em cheio o audiovisual brasileiro: “Marte um” (2022), de Gabriel Martins. O drama sobre um menino que se divide entre o desejo do pai de que se torne jogador de futebol e o sonho de estudar astrofísica levou mais de 100 mil espectadores aos cinemas e se tornou um fenômeno de crítica. Não por acaso, figurou na lista dos 100 melhores filmes brasileiros de todos os tempos em votação do GLOBO, em junho, reunindo mais de 200 profissionais do audiovisual nacional. O desempenho da obra jogou holofotes sobre o cineasta mineiro de 38 anos, que chega agora com seu mais novo e ambicioso projeto: “Vicentina pede desculpas”. O longa integra a programação do Festival Internacional de Cinema de Toronto e contará com première de gala no sábado no evento canadense, que é um dos principais termômetros para a temporada de premiações. A seleção coloca a produção bem posicionada na disputa para representar o Brasil na corrida pelo Oscar de melhor filme internacional, sendo um dos seis finalistas na disputa pela vaga (a decisão final da comissão de seleção da Academia Brasileira de Cinema será anunciada na próxima quarta-feira), procurando repetir o feito do próprio “Marte um”, que foi o representante do país na corrida pelo Oscar 2023. — Estrear num festival como Toronto é um grande feito, ainda mais em um ano que foi difícil para os filmes brasileiros no cenário internacional, em que ficamos de fora das competições de Berlim, Cannes e Veneza — diz Martins em entrevista ao GLOBO via videoconferência diretamente do Canadá. — Com “Marte um”, fomos selecionados para Sundance, mas o evento foi suspenso pela pandemia, então é a primeira vez que vivo essa experiência num grande festival internacional. Também estamos na seleção de San Sebastián e tem sido uma alegria imensa iniciar essa trajetória internacional do filme. Todo mundo está com o brilho nos olhos. ‘Pé no chão’ O diretor tenta não criar expectativas sobre representar o país no Oscar, mas vê “Vicentina” com uma estrutura bem mais forte da que teve há quatro anos. — Temos ótimos filmes, acho que temos uma disputa em aberto e podemos não ser escolhidos. Se for outro filme, é parte do jogo e vou torcer para o que for, torço pelo cinema brasileiros antes de tudo — diz Martins. — Mas estamos prontos. Se formos escolhidos, sabemos o caminho e temos um time preparado. Com “Marte um”, fizemos uma campanha de guerrilha, mas percebemos que é muito difícil chegar sem uma grande estrutura. Tínhamos vontade, mas não tínhamos como conseguir os anúncios nas revistas e realizar os eventos que precisávamos. Agora, estamos bem mais amparados, com a estreia em um festival como Toronto e a presença da Netflix. Já estamos há muito tempo com uma equipe ao nosso lado pensando essa carreira internacional do filme. Rejane Faria e Gabriel Martins durantes as filmagens de "Vicentina pede desculpas" — Foto: Divulgação / Denize dos Santos / Netflix Protagonista do longa, a atriz Rejane Faria também defende não colocar o carro na frente dos bois. — Toronto e San Sebastián são dois festivais de grande importância nesta largada para a carreira do filme, mas vamos com o pé no chão. O desejo é fazer uma caminhada bonita e sólida. Se resultar numa chegada no Oscar, vai ser maravilhoso — diz a atriz de 65 anos. Reflexão sobre a morte “Vicentina pede desculpas” acompanha a personagem de Faria, uma mulher que perde o filho, Wesley (Renato Novaes), num acidente de ônibus, do qual ele era o motorista. Aos poucos, as evidências sugerem que a ação do filho pode ter sido proposital. Enquanto lida com o próprio luto, Vicentina embarca numa jornada corajosa para encontrar as famílias das vítimas e pedir desculpas. Rejane Faria em cena de "Vicentina pede desculpas", de Gabriel Martins — Foto: Divulgação / Denize dos Santos / Netflix — É a história lindíssima de uma mulher de 75 anos que sofre um luto e diante dessa dor toma uma decisão inesperada — explica Rejane Faria. — Me deu muito orgulho ser escolhida para fazer este projeto. Senti muita responsabilidade e o desejo de responder à altura. Me entreguei de corpo e alma. Para dar nome a sua protagonista, Martins optou por homenagear a própria avó, Vicentina. — Minha vó foi minha primeira experiência com morte na vida. Eu tinha 12 anos quando ela morreu, foi meu primeiro velório, meu primeiro contato com essa ideia de que as pessoas morrem de fato. Foi algo que ficou muito forte para mim. Este filme nasceu muito atrelado à ideia de ser uma reflexão minha sobre a morte, sobre o que significa perder alguém — aponta o diretor. — Não é sobre a minha avó, ela não emprestou necessariamente a personalidade dela, mas ela emprestou essa lição de vida. Além da experiência pessoal com a perda da avó, Gabriel Martins revela inspiração em dois casos reais para escrever o roteiro de “Vicentina pede desculpas”: a queda do voo Germanwings 9525, em março de 2015, quando um copiloto se trancou na cabine e lançou a aeronave em uma cadeia de montanhas nos Alpes Franceses, resultando na morte de 150 pessoas; e o sequestro do ônibus 174 no Rio, em junho do ano 2000, quando um homem manteve vários passageiros reféns por horas antes que a tentativa de resolução acabasse em duas mortes, de uma refém e do sequestrador. — Quando assisti ao documentário “Ônibus 174” (2002), do José Padilha, me chamou muita atenção aquela imagem da mãe do Sandro (o sequestrador) sozinha no velório, uma cena muito forte. Este caso e o do voo me deixaram muito pensando nessa ideia da responsabilidade materna, do luto individual e do luto coletivo em meio a um incidente grandioso — explica o diretor, que vem desenvolvendo o projeto há anos. Após sair da história de um sonho na infância para outra sobre o luto na terceira idade, Martins explica que não vê as tramas de “Marte um” e “Vicentina pede desculpas” como antagonistas. — Acho que as diferenças entre os temas mostra como eu não tenho muito controle de como as ideias surgem. Às vezes, você se inspira por coisas completamente diferentes. Mas embora os filmes tenham tons distintos, acho que os dois nascem do interesse de falar sobre a existência humana. “Marte um” também é um filme sobre estar vivo, sobre a rotina de acordar todo dia e seguir. “Vicentina”, de alguma forma, dá sequência a esse pensamento olhando a vida não do lugar do sonho, mas do arrependimento e do desgosto, de alguma forma — reflete Martins. — Acho que há uma beleza nisso. Em tentar entender como olhar para o futuro se a pior coisa da sua vida acabou de acontecer. 'Marte um', de Gabriel Martins — Foto: Divulgação Para o longa, o cineasta mineiro precisou realizar a cena mais ambiciosa de sua carreira, que foi derrubar um ônibus real de um viaduto de Belo Horizonte. Para a cena, a produção precisou consultar engenheiros e especialistas em efeitos visuais, além dos órgãos municipais competentes. — Principalmente por essa parceria com a Netflix, esse filme teve uma estrutura bem mais robusta da que estamos acostumados na Filmes de Plástico (produtora fundada por Martins, André Novais Oliveira, Maurilio Martins e Thiago Macêdo Correia). Tivemos um orçamento, uma equipe e um tempo de produção (oito semanas) maior. Gravamos em vários espaços da cidade, tivemos que derrubar um ônibus de um viaduto. Mas apesar de tudo isso, gosto de frisar que o filme é antes de tudo um drama com tudo aquilo que as pessoas costumam ver nos nossos filmes — afirma. “Vicentina pede desculpas” chega aos cinemas brasileiros no dia 5 de novembro. A estreia na Netflix está prevista para o dia 20 do mesmo mês. Antes disso, o longa integra a programação do Festival do Rio 2026, que acontece entre os dias 1º e 11 de outubro.