O Supremo Tribunal Federal (STF) mergulhou em uma crise profunda desde que o ministro André Mendonça tornou público um relatório da Polícia Federal (PF) com mensagens que, segundo as investigações, foram enviadas pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do extinto Banco Master, ao ministro Alexandre de Moraes. Houve contra-ataque de Moraes, que acusou o colega de interferir e direcionar as investigações. A crise escalou nesta semana, com uma ordem de Mendonça para afastar Andrei Rodrigues do cargo de diretor-geral da Polícia Federal (PF) e Leandro Almada da diretoria de Inteligência da corporação. A reação, nesta quarta-feira (9), partiu de um terceiro ministro: Flávio Dino. Ele determinou a imediata reintegração dos dois diretores às sua funções. O decano da Corte, Gilmar Mendes, e os ministros Luiz Fux e Kassio Nunes Marques também se envolveram diretamente na crise. Em outra frente, o presidente da Corte, Edson Fachin, age para tentar uma solução. Ele abriu procedimento para apurar as condutas de Moraes e Mendonça e pode levar o caso ao plenário da Corte. Veja abaixo a sequência de decisões que elevou a tensão entre os ministros: Mensagens de Vorcaro e Moraes A crise ganhou força na terça-feira da semana passada (1º), quando Mendonça tornou público um relatório da PF com mensagens que, segundo as investigações, foram enviadas por Daniel Vorcaro, dono do extinto banco Master, a Moraes. Os diálogos indicam que o ex-banqueiro buscava informações sobre investigações que poderiam atingi-lo e chegou a pedir ao ministro que intercedesse junto ao diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e ao procurador-geral da República, Paulo Gonet. O relatório também aponta encontros entre Moraes e Vorcaro e registra que o ministro teria feito a última edição de uma minuta de contrato de R$ 131 milhões entre o banco e o escritório da advogada Viviane Barci de Moraes, esposa do magistrado. O documento menciona ainda uma segunda proposta, de R$ 50 milhões, que previa o pagamento pelos serviços com a cessão de duas aeronaves. O escritório negou que o contrato tenha sido firmado. Gonet também é citado no relatório. Segundo o documento, Vorcaro mantinha contato com o procurador-geral por meio do advogado Ciro Soares, com mensagens sobre encontros e uma viagem a Londres da qual também teria participado o diretor-geral da PF. A PGR pediu que o relatório fosse considerado nulo. Gonet argumentou que não cabe ao relator conduzir investigações pré-processuais nem determinar à PF a busca de elementos para apurar eventual envolvimento de autoridades em ilícitos. Mendonça enviou o relatório para análise do plenário do STF em sessão pública, que depende do aval de Fachin. Antes da retirada do sigilo, Moraes e Mendonça se reuniram em uma conversa descrita por interlocutores como tensa. Moraes questionou se havia autorização para ser investigado pela PF, enquanto Mendonça perguntou como o colega havia tomado conhecimento do aprofundamento das apurações. Mendonça também se encontrou com Vorcaro Já na quarta-feira (2), veio à tona que Mendonça havia se encontrado com Vorcaro. A reunião ocorreu em 14 de março de 2025, na sede do Instituto Iter, fundado pelo ministro em São Paulo, e não no gabiente no STF. Segundo as informações disponíveis, o encontro tratou de um processo sobre precatórios do setor sucroalcooleiro, que estava parado no STF por um pedido de vista de Moraes. A aproximação teria sido articulada pelo deputado Cezinha de Madureira (PL-SP) e pelo advogado Ciro Soares. O gabinete de Mendonça confirmou o encontro e afirmou que o ministro recebeu Vorcaro “uma única vez”, por iniciativa do empresário, e “se limitou a ouvi-lo”. No dia seguinte, Mendonça anunciou que deixaria a sociedade do Instituto Iter, que vinha sendo questionado por contratos públicos firmados sem licitação, segundo reportagem da Revista Fórum. Ele informou que cederia suas cotas e as de sua mulher, sem contrapartida financeira, e permaneceria ligado à instituição apenas como professor. O Iter negou irregularidades e afirmou que as contratações seguiram a legislação e regras de governança. Moraes e Fachin se posicionam Na quinta-feira (3), Moraes pediu que Mendonça fosse investigado por suposto abuso de autoridade, improbidade administrativa e crime de responsabilidade. Também acusou o colega de quebra de imparcialidade e de direcionar investigações por razões pessoais e políticas. O pedido foi baseado no inquérito das “fake news”, relatado por Moraes. Segundo ele, “relatórios de inteligência” da PF, apócrifos e sem data, apontavam possíveis irregularidades na condução das operações Compliance Zero, relacionada ao Master, e Sem Desconto, sobre fraudes em descontos associativos do INSS. No mesmo dia, Fachin pediu esclarecimentos a Moraes, Mendonça, Gonet e Andrei sobre a produção do relatório que expôs as mensagens entre Moraes e Vorcaro. Na sexta-feira (4), o presidente do STF também determinou que o pedido de investigação de Mendonça fosse retirado do inquérito das “fake news” e passasse a tramitar em processo sob sua responsabilidade. Fachin ressaltou que a medida era apenas processual e não representava análise sobre o mérito do pedido. Mendonça afasta diretor-geral da PF, e Dino reage Na terça-feira desta semana, Mendonça determinou o afastamento preventivo de Andrei e de Leandro Almada. O ministro afirmou ter sido monitorado ilegalmente pela PF por mais de 30 dias e apontou “irregularidades e potenciais ilicitudes” na produção dos relatórios usados por Moraes para pedir sua investigação. Segundo Mendonça, os documentos teriam prejudicado investigações em andamento ao revelar antecipadamente a potenciais alvos a realização de medidas cautelares e diligências. Ele também determinou a abertura de procedimentos criminais e administrativo-disciplinares contra Andrei e suspendeu relatórios destinados a analisar a atuação funcional de ministros, da advocacia pública e da própria PF. A decisão foi tomada a partir de um pedido do partido Novo e submetida à Segunda Turma. Gilmar Mendes pediu vista e defendeu que as questões relacionadas aos ministros fossem analisadas pelo plenário, enquanto Luiz Fux e Kassio Nunes Marques acompanharam Mendonça, formando maioria para manter o afastamento. Dias Toffoli, que também integra o colegiado, ainda não se manifestou. Com o pedido de vista de Gilmar, o julgamento foi suspenso. Ainda na terça-feira, a Advocacia-Geral da União (AGU) pediu a Fachin a suspensão da decisão. A instituição argumentou que cabe privativamente ao presidente da República nomear e exonerar os ocupantes dos cargos de direção da PF e que a retirada dos dirigentes poderia comprometer a continuidade das atividades da corporação e provocar “desorganização institucional”. A AGU apresentou diretamente ao presidente do STF um pedido de “suspensão de liminar”, em vez de recorrer ao próprio Mendonça. Na mesma data, Fachin determinou 72 horas para o Mendonça se manifestar. Nesta quarta-feira, Dino determinou a reintegração de Andrei e Almada. A decisão foi tomada em processo sob sua relatoria que investiga a suposta destinação de emendas parlamentares ao filme “Dark Horse”, depois que Andrei informou que não poderia cumprir medidas determinadas pelo ministro porque havia sido afastado. Dino afirmou que a medida era necessária para garantir a continuidade das providências urgentes sob sua relatoria e evitar interferências externas nas investigações. Também criticou a suspensão das atividades de inteligência da PF e afirmou que a interrupção da direção das investigações interessa “sobretudo aos investigados”. O ministro ainda afirmou que partidos políticos não podem atuar como partes em processos criminais e que a decisão de Mendonça, tomada a partir de um pedido do Novo, prejudicou procedimentos da PF sob sua relatoria. Para Dino, seria necessário aguardar a manifestação do plenário sobre as questões envolvendo Moraes e Mendonça antes de adotar medidas que afetassem a estrutura da Polícia Federal.