Segundo entrevistado na série de sabatinas do GLOBO, Extra, Valor e CBN com os postulantes ao governo do Rio, o candidato do PSOL, William Siri, disse que sua candidatura tem dificuldade de engrenar nas pesquisas devido a uma "falta de estrutura" do partido e ao que chamou de "confusão no campo progressista", dado o apoio do PT à candidatura de Eduardo Paes (PSD). Siri também criticou a candidatura de Douglas (PL), sabatinado na terça, e o chamou de "pupilo" do ex-governador Cláudio Castro (PL) e do ex-deputado Rodrigo Bacellar (União), ambos alvos de investigações da Polícia Federal. A entrevista desta quarta-feira teve transmissão ao vivo na rádio CBN, nos sites dos jornais e no YouTube. Assista à integra no link abaixo: Questionado no início da sabatina sobre o fato de aparecer distante do pelotão de frente nas pesquisas de intenções de voto e sobre uma perda de competitividade do PSOL em eleições majoritárias no estado, Siri levantou suspeitas sobre campanhas de outros partidos: — A falta de infraestrutura, porque essas outras campanhas são milionárias. Vemos também uma série de corrupções, dinheiro que vem não sabemos de onde. Disputar com essa estrutura toda exige muita força. Mas tenho certeza que o projeto que o PSOL tem para o estado vai cada vez mais encantar as pessoas. A pesquisa é o momento, uma fotografia — argumentou. O candidato do PSOL, que se declarou apoiador da reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), também reconheceu que o apoio do próprio Lula a Paes faz com que "acabe havendo uma confusão entre PSOL e PT no campo progressista". Ele também criticou o apoio do ex-colega de partido, Marcelo Freixo, hoje candidato a deputado federal pelo PT, à candidatura de Paes, de quem foi adversário na eleição de 2012 à prefeitura do Rio. Siri lembrou que se envolveu, como militante do PSOL, em campanhas de Freixo na capital contra o grupo de Paes. — Freixo tem as contradições que ele vai ter que carregar, por estar apoiando o Eduardo Paes. Ele, como professor, sabe que o Paes jogou bomba em professores. O atraso no início da entrevista ocorreu porque Siri chegou à redação do GLOBO, no centro do Rio, após o horário marcado. O candidato do PSOL brincou que o tempo deveria ser descontado da sabatina de Paes, marcada para sexta-feira, e culpou o ex-prefeito do Rio por problemas no trânsito na Avenida Brasil. Segundo Siri, ele saiu de sua residência em Campo Grande, na Zona Oeste, por volta das 8h, e mesmo assim não chegou a tempo no centro da cidade. Críticas a Ruas e Castro Além das críticas a Paes, Siri também direcionou ataques a Ruas, candidato do PL. Siri procurou associá-lo a Castro, alvo de três operações da Polícia Federal nos últimos meses, e ao ex-presidente da Assembleia Legislativa (Alerj), Rodrigo Bacellar, preso e cassado por indícios de envolvimento com a facção criminosa Comando Vermelho. Ruas, que foi aliado de Bacellar, o sucedeu na presidência da Alerj após sua cassação. — Douglas Ruas foi secretário do Cláudio Castro e tem cara de pau de dizer aqui que não faz parte (de sua campanha) o Claudio Castro. Ele é o pupilo do Castro e também do Rodrigo Bacellar, que era o operador político do Comando Vermelho. Ele (Ruas) é o representante dessa corja política — disse Siri. Questionado sobre a proximidade de deputados do PSOL com Bacellar na Alerj, Siri disse "não ter dúvida que o partido errou" ao apoiar sua reeleição à presidência da Casa em 2025. Ele argumentou, por outro lado, que o partido teve acesso ao comando de comissões relevantes da Assembleia por conta dessa aliança. — Não digo que valeu a pena, mas é a forma como a política hoje é organizada. (...) Todo mundo erra, mas nossa essência permanece — afirmou. Siri também minimizou a relação entre parlamentares do PSOL e Bacellar argumentando que, posteriormente, seu partido votou "de forma unânime" pela manutenção da prisão do ex-deputado. — O que importa para mim é como o PSOL votou, se tinha que ser solto ou manter a prisão do Bacellar. O PSOL votou unânime (pela prisão), mas boa parte do PSD e do PL votaram para o Bacellar, coordenador político do Comando Vermelho, sair da prisão — argumentou. Segurança pública Questionado sobre operações policiais em um eventual governo do PSOL, que costuma ser crítico a esse tipo de procedimento em favelas, Siri afirmou que é preciso "retomar o território" dominado por facções criminosas, mas defendeu que se faça de "forma diferente do que ocorreu nos últimos 30 anos". O candidato do PSOL argumentou que é preciso mirar a classe política para "desarticular o crime". — A operação vai acontecer. Mas o governador precisa fazer as políticas paralelas. A primeira questão é desarticular o crime. Drogas e armamentos não são fabricados dentro das comunidades. (...) Quem está vendendo essa arma é quem está no poder hoje — argumentou. Instado a se posicionar sobre o uso do veículo blindado conhecido como "caveirão" em eventuais ações policiais, Siri afirmou que "em alguns momentos não tem como não usar", mas criticou adversários por recorrerem a operações desse tipo para "enxugar gelo" e "ganhar voto". Reestatização da Cedae e de trens Siri defendeu que a Cedae, cujos serviços de saneamento foram concedidos à iniciativa privada em 2021, seja "reestatizada", e minimizou o impacto fiscal e uma eventual insegurança jurídica desta medida. Ele afirmou que o atual contrato de concessão é "oneroso" e "danoso", por ter elevado os custos da tarifa à população. Ao argumentar a favor da medida, Siri disse que os recursos da concessão da Cedae foram desviados para um esquema de contratação de cabos eleitorais a favor do ex-governador Cláudio Castro, no que ficou conhecido como "caso Ceperj" -- e que levou à condenação de Castro pelo Tribunal Superior Eleitoral. O candidato do PSOL criticou ainda o que chamou de "medidas de austeridade", como o regime de recuperação fiscal -- que também previa inicialmente a privatização da Cedae. De acordo com Siri, a solução para o equilíbrio fiscal do estado passa por medidas como reduzir cargos comissionados e renúncias fiscais para empresas, além de fechar o que chamou de "ralo da corrupção". — Venderam a Cedae e cadê esse dinheiro? Foi todo para o Ceperj. (...) Austeridade não tem nada a ver com arrumar a casa. O regime de recuperação fiscal de 2017 foi de extrema austeridade, e o que mudou desde então? Arrumar a casa é continuar com o pente fino em cargos comissionados, cortar renúncias fiscais. O candidato do PSOL afirmou também que, "no primeiro mês" de um eventual governo, pretende reestatizar o serviço de trens, e projetou a implementação de uma tarifa zero ferroviária "em parceria com o governo Lula". Siri, porém, não detalhou o custo dessa medida e de onde viriam os recursos. Mudança de perfil do PSOL Durante a sabatina, Siri também foi questionado sobre a redução de candidaturas do PSOL a governos estaduais pelo país neste ano, em paralelo a uma queda recente de desempenho de candidatos do partido em eleições majoritárias. Siri rechaçou o rótulo de que o partido tem mais aptidão ao Legislativo do que ao Executivo, mas reconheceu que o foco atual é eleger deputados federais para cumprir a cláusula de barreira. — A gente tem que ser inteligente. O PSOL está se consolidando para cumprir a cláusula de barreira. Ter uma candidatura (ao governo) reforça o nosso programa. Vereador de primeiro mandato, Siri mencionou em mais de um momento da sabatina o fato de ser morador da Zona Oeste do Rio e também citou ser evangélico, duas características que ele mesmo reconheceu serem menos comuns em seu partido na década passada. Siri argumentou que o PSOL vem se tornando um partido "mais popular", embora o desempenho do partido em disputas eleitorais ao Executivo venha caindo no Rio nos últimos anos. Siri argumentou que parte das dificuldades do PSOL e da esquerda em atrair o apoio do eleitorado evangélico se deve a lideranças que "usam a fé para o poder e para ganhar dinheiro", em alusão a pastores que apoiam o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Ele também disse, por outro lado, haver "preconceito" em seu campo político contra evangélicos. — A esquerda, por certo preconceito, achava que não tinha que dialogar com o povo evangélico. Sinto que é minha responsabilidade também conectar. As pessoas precisam ter sua fé, sua liberdade religiosa. Mas também preciso combater quando vejo lideranças usando a fé das pessoas —argumentou. Série de sabatinas A série foi aberta nesta terça-feira com o deputado estadual Douglas Ruas (PL). Anthony Garotinho (Republicanos) será sabatinado na quinta-feira. Eduardo Paes (PSD) fecha a programação, na sexta. Cada entrevista terá uma hora e meia de duração. As entrevistas, realizadas no estúdio da redação do GLOBO, são conduzidas pelos apresentadores da CBN Rio Bianca Santos e Leandro Resende; pelo editor de Política do GLOBO, Thiago Prado; pelo colunista do GLOBO Bernardo Mello Franco; e por Francisco Góes, chefe da sucursal do Valor no Rio. O eleitor também poderá acompanhar as entrevistas por meio de reportagens nos veículos e cortes de vídeos nas redes sociais. Em agosto, GLOBO, Valor e CBN fizeram sabatinas com os candidatos ao governo de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos) e Fernando Haddad (PT). Estão programadas ainda sabatinas com os candidatos ao governo de Minas Gerais e debates entre os postulantes ao Senado no Rio e em São Paulo.