Gerando resumoRicardo LacerdaCEO da BR PartnersDo alto do prédio da Baleia, na Avenida Faria Lima, em São Paulo, Ricardo Lacerda tem seu próprio termômetro da situação de empresas brasileiras. O BR Partners, banco de investimentos independente que fundou em 2009, faz fusões e aquisições e estrutura operações como emissão de dívidas, derivativos, investimentos e reestruturações financeiras, além de cuidar da fortuna de endinheirados. Em 17 anos, foram quase R$ 500 bilhões movimentados nessas atividades. Quando a economia começa a piorar, os pedidos de renegociação de dívida ou venda de negócios de seus clientes aumentam. Na maré alta, há mais emissões e negociações acontecendo. No momento, ele não vê uma grande crise surgindo no horizonte, como aconteceu no governo Dilma Rousseff. “Deve ter alguma medida de ajuste fiscal no próximo governo, qualquer que seja ele”, diz Lacerda. “Ou vamos caminhar para um cenário muito ruim, com calote na dívida pública, inflação e coisas que achamos que eram fantasmas de um passado muito longínquo.” PublicidadeCaiado: com apoio de Lacerda, visitas ao mercado financeiro Foto: Rodrigo SilvianoAlém das perspectivas econômicas, pela primeira vez, Lacerda está apoiando um candidato. Antigo filiado do PSDB e do Novo, desde 2022 ele tem a carteirinha do PSD (Partido Social Democrático). Nesta eleição, ele está ao lado de Ronaldo Caiado nas visitas a seus pares na Faria Lima e na discussão de ideias.Motivo: discorda da política econômica do governo Lula e da postura de Flávio Bolsonaro, líderes nas pesquisas. Para ele, o eleitor de centro está cansado da disputa entre ambos e quer apenas melhorar sua vida, sem se preocupar com segurança, inflação ou outras ameaças. Também afirma que o calcanhar de Aquiles de Lula são exatamente os juros altos que sua gestão ajudou a provocar e com os quais teve de governar por quatro anos. Sobre Flávio, a opinião é clara: “Discutir urna eletrônica, vacina, se Estados Unidos vão invadir o Brasil ou não, esse tipo de coisa, francamente, é uma palhaçada”, afirma. “É coisa de gente que não tem proposta e que não quer o bem do País.” A seguir, os principais trechos da entrevista:PublicidadeComo o sr. está vendo a campanha eleitoral?A gente vai ter uma disputa, mais uma vez, muito acirrada. A eleição deve ser decidida por alguns poucos pontos porcentuais, mas, no momento, está tudo muito incerto.Como será o cenário econômico do próximo presidente?A principal questão na economia é a do nível de juros. É insustentável o Brasil ter um patamar de juros de 13%, 14%, 15% por um período indeterminado, como os mercados apontam. Se isso acontecer, vai haver uma quebradeira geral e a economia vai mergulhar num cenário muito difícil. Ambos os lados deveriam apresentar o que pretendem fazer para trazer esse juro a um patamar razoável, de um dígito. Obviamente que o País tem um problema fiscal estrutural que tem se agravado governo após governo. Tem também a questão conjuntural da série de benefícios colocados pelo governo do presidente Lula e pelo Congresso, que levou hoje ao patamar de dívida pública de mais de 80% do Produto Interno Bruto. É uma situação insustentável. Se a gente não tiver uma forma de reduzir os juros no Brasil, a gente vai caminhar para o abismo, vamos começar a ter discussões sobre calote na dívida pública, inflação e coisas que achamos que eram fantasmas de um passado muito longínquo. Saiba mais:Brasil vive combinação de crise institucional com uma crise moral, dizem Landau e Mendonça de BarrosÉ preciso restabelecer as atribuições legítimas de cada Poder no País, defendem Giannetti e PessôaPerdemos uma oportunidade com Bolsonaro de um governo de direita de boa qualidade, diz Samuel PêssoaO sr. acredita que, independentemente de quem ganhar, será necessário fazer um ajuste fiscal?Sem dúvida alguma, e será preciso ter credibilidade para reverter a trajetória de crescimento da dívida pública, ou a gente vai caminhar para um cenário muito ruim. É o caminho que tem de ser percorrido para que a gente evite o caos econômico.PublicidadeO sr. trabalha com o cenário de dominância fiscal (quando os juros não conseguem mais controlar a inflação)?Não, achamos que deve ter alguma medida de ajuste fiscal no próximo governo, qualquer que seja ele. O presidente Lula tem sido muito criticado pela condução da política fiscal e eu faço aqui a ressalva de que, obviamente, nem tudo é culpa dele. Mas a taxa de juros de 15% é o grande calcanhar de Aquiles deste governo: Lula teve de governar por quatro anos com taxas de juros muito altas, isso está colocando a economia em risco e tem de ser revertido. O próprio Flávio Bolsonaro tem mudado seu discurso em relação ao ajuste fiscal e reiterado promessas de não cortar isso, de não cortar aquilo. A disputa eleitoral leva a isso, mas de certa maneira, precisaremos ter bom senso para evitar o pior, que seria o descontrole fiscal com consequências muito negativas. Se a gente quiser retomar o investimento e manter o crescimento sustentável, precisamos de ajuste fiscal. Uma sinalização nessa direção basta?O que basta é um plano crível. Ninguém precisa zerar o déficit fiscal no período de um ano. Há países que convivem com taxas de endividamento maiores do que as do Brasil, com déficit público maior e não estão numa situação de descontrole, nem têm juros tão altos. Aqui há uma combinação do tamanho do déficit com a falta de credibilidade da política fiscal e uma insegurança jurídica muito grande, com jurisprudências servindo a interesses específicos. Temos de deixar claro que, independentemente dessa politização do Supremo Tribunal Federal, houve, nos últimos anos, uma deterioração brutal do judiciário brasileiro e isso está se refletindo também no custo da dívida pública e no custo do dinheiro para a sociedade. Existem viradas de mesa o tempo todo e isso é muito ruim. No Brasil, a Justiça muitas vezes demorava anos para decidir, mas as decisões eram corretas e de acordo com a lei. De repente, virou uma bagunça. A gente precisa ter um plano que seja crível e restabelecer a ordem e a segurança jurídica, que tradicionalmente sempre tivemos. Isso pode reverter muito positivamente o quadro e gerar muito interesse pelo Brasil, com muitas oportunidades.A gente tem de deixar claro que, independentemente dessa politização do Supremo Tribunal Federal, houve, nos últimos anos, uma deterioração brutal do judiciário brasileiro e isso está se refletindo também no custo da dívida pública e no custo do dinheiro para a sociedadeO sr. vê alguma chance de terceira via?Espero que sim, estou bastante engajado e empenhado na campanha do Ronaldo Caiado, sou filiado ao PSD, tenho participado de eventos e sentido muito entusiasmo pela candidatura. O Caiado tem uma tremenda experiência, é um dos governadores mais bem avaliados do Brasil, tem tarimba política para enfrentar os problemas do Brasil e lidar com o Congresso. A subida do Augusto Cury mostrou que tem espaço pra uma terceira via. A partir de agora o Caiado pode subir sim, ele tem muito a mostrar. As crises do Banco Master e do STF (Supremo Tribunal Federal) também tendem a impactar mais Lula e Flávio. É óbvio que é difícil, porque estamos num ambiente com dois candidatos consolidados e com de altíssima polarização, mas o Caiado tem serenidade, está trazendo propostas e montando sua equipe. A gente já viu candidaturas que começaram com 1%, 2% e saíram vencedoras. Podemos ter uma surpresa positiva e sair dessa situação maldita que a gente caiu, da polarização entre direita e esquerda e que, basicamente, não traz nada de bom para o País. Já votei no Bolsonaro, já votei no Lula e quero o melhor para o meu País. Não quero que essa briga continue, essa disputa que destrói valores muito importantes para o País, como a questão da democracia, da urna eletrônica, da vacina, de liberdades individuais. A gente deveria ter superado essas discussões há muito tempo. A gente não pode dar margem a esse tipo de discussão e manter esses temas dominando todo o discurso, todas as propostas. Precisamos saber o que cada candidato vai fazer: como vamos enfrentar o problema da economia, da taxa de juros alta, evitar uma recessão? Como vamos resolver a segurança pública? Como vamos resolver a questão da miséria que ainda existe no Brasil, com várias pessoas abaixo de uma condição de vida razoável? É isso que a gente deveria ouvir.PublicidadeMas quando o Caiado diz que vai conceder anistia a Bolsonaro, ele não alimenta o risco institucional, com o Supremo ou a polarização?O Caiado colocou essa questão no sentido de virar a página, para o País focar no futuro e resolver esse problema. Ele tem o direito, uma vez eleito presidente, de conceder anistia, com os trâmites passando pelas instâncias necessárias. Se o Supremo decidir que a anistia não é válida, em função dos crimes que foram cometidos, o Caiado não vai querer fechar o Supremo no Tribunal Federal ou comprar uma briga. Mas é direito dele, como presidente, conceder essa anistia. Flávio representa uma ameaça maior nesse sentido?Obviamente, tem uma série de coisas na candidatura do Flávio Bolsonaro que assustam. Quando ele fala, por exemplo, na questão das urnas eletrônicas, foge da questão do mero discurso de candidato. É algo que tende a sabotar nossa democracia. O Brasil tem muitos problemas mas, vamos combinar, que a urna eletrônica é uma das coisas que funcionam. Como as vacinas, que são muito sedimentadas na cultura brasileira. São coisas que a gente deveria se orgulhar. Parte disso é discurso, como também a extrema esquerda tem discursos ruins em várias frentes. Mas o risco institucional do Flávio Bolsonaro, sem dúvida alguma, é maior, porque tem a questão pós-eleições, o 8 de janeiro, o (ex-deputado) Eduardo Bolsonaro volta e meia falando do Supremo e da própria campanha que ele fez nos Estados Unidos pelas sanções impostas contra o Brasil. Francamente, nada disso ajuda a população brasileira. Pode ajudar a alavancar a candidatura dos Bolsonaro junto ao grupo radical de eleitores, mas não ajuda a população brasileira. Discutir urna eletrônica, vacina, se Estados Unidos vão invadir o Brasil ou não, esse tipo de coisa, francamente, é uma palhaçada. É coisa de gente que não tem proposta e que não quer o bem do País. Temos candidaturas legítimas de ambos os lados. Vamos debater propostas e respeitar quem ganha a eleição. Em quatro anos, haverá outra eleição. Será que o Jair Bolsonaro, se não tivesse ficado quieto quando perdeu a eleição em 2022, não estaria sendo eleito agora novamente? O Caiado colocou essa questão (da anistia a Jair Bolsonaro) no sentido de virar a página, para o País focar no futuro e resolver esse problemaQual o desafio de Caiado?Primeiro, a candidatura está apenas começando. Ele e suas propostas têm de se tornar mais conhecidos. Por hora, todo mundo está achando que teremos um segundo turno entre Lula e Bolsonaro. O desafio é sair dos 4%, 5% que o Caiado tem hoje, para o patamar de 15%, 20%. Dado o nível de rejeição de Lula e Flávio, se isso acontecer, é possível que a candidatura dele cresça muito rapidamente. A gente já viu isso em outras eleições, com (os ex-candidatos) Marina Silva e o Aécio Neves. Não é fácil nem é um cenário de alta probabilidade, mas não é impossível. Quando converso com o Caiado, com as pessoas que estão envolvidas na campanha e com quem está recebendo e falando com ele, sinto um entusiasmo muito grande.PublicidadeO sr. está dando seu apoio porque o candidato é o Caiado ou porque o Brasil precisa de uma terceira via?As duas coisas. Fui filiado ao PSDB durante quase 30 anos, depois fui filiado ao Partido Novo e, em 2022, quando o partido se tornou uma derivada do bolsonarismo, fui para o PSD por afinidade com as pessoas que estão lá, com o que o partido está querendo construir. O Caiado representa o que o Brasil precisa hoje: um político com experiência, um ótimo governador, candidato a presidente da República, com uma visão moderna do País. Pode fazer um governo muito bom. Se a gente enxergar que o Caiado tem chance de ganhar, as coisas podem melhorar antes mesmo da eleição. Existe hoje no mundo um volume de recursos que não está vindo para o Brasil. A partir do momento que uma candidatura de terceira via puder se firmar, a gente pode ter um cenário muito positivo.Como o sr. enxerga o cenário geopolítico?É um erro do Flávio tentar trazer temas internacionais para a eleição para presidente, como (o presidente dos EUA, Donald) Trump e (o da Argentina, Javier) Milei. Não me parece que o voto do brasileiro seja guiado por esse tipo de dinâmica ou de polêmica internacional, que atrapalha porque é mais ruído. O Trump tem essa tradição de uma política muito ruidosa. Mas nós temos dinâmicas eleitorais muito diferentes dos Estados Unidos. Como o voto nos EUA não é obrigatório, é preciso energizar a base para que o eleitor vá votar. No Brasil, todo mundo vota. A estratégia de lá, aqui, cria dificuldade porque assusta o eleitor de centro, que não quer confusão. Ele só quer pagar as contas, ter um mínimo de segurança, inflação sob controle, aumentar sua renda e viver sua vida. O eleitor não quer saber se é Bolsonaro ou se é Lula. Ele cansou disso. Encerrado o ciclo eleitoral, qual sua expectativa para o médio prazo?Muito positiva. Temos uma safra de governadores muito boa, que vão disputar as eleições de 2030. O Lula surgiu como uma figura capaz de combater o Bolsonaro, que em algum momento se tornou um mal maior pelas questões antidemocráticas, de antivacinas e uma série de comportamentos que a população achou não serem adequados a um presidente da República. Quem trouxe o Lula de volta foi o Bolsonaro. Agora, vamos ver o fim de um ciclo porque não existe mais PT, existe o Lula. Vamos ver o que vai acontecer depois. A gente pode ter uma renovação desse quadro, que vai ser muito importante para o Brasil. Mesmo que a gente tenha apenas a disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro, temos instituições maiores do que a figura de presidente.Caso Flávio vença, ele e a família tendem a se perpetuar no poder?Tudo é possível. porque o incumbente tem vantagem. O importante é a gente acreditar que o Brasil, com todos os defeitos, tem uma democracia que está funcionando. Tem de saber ganhar e saber perder. É preciso ter paciência e deixar as coisas tomarem seu rumo.Qual é seu papel como apoiador do Caiado?Tenho ajudado o partido com ideias e contatos. Nunca havia feito isso antes, mas temos encontrado muita receptividade. PublicidadeVale ler tambémMuito além das commodities: o agro nacional rumo às prateleiras do mundoSteve Jobs construiu a Apple; Tim Cook a transformou na maior empresa do mundoFalta de terrenos em SP ajuda a ampliar projetos de galpões ao interior