Vergueiro, diretor do Mercado Livre: Infraestrutura mais perto do consumidor — Foto: Divulgação A reforma tributária já começou a mudar o planejamento logístico das grandes empresas e deverá mudar o mapa dos centros de distribuição (CDs) no país. Levantamento da consultoria Ilos, realizado com 110 companhias com faturamento médio de R$ 22 bilhões, aponta que 21% delas deverão mudar a localização de seus CDs por conta da mudança de regras tributárias. A pesquisa mostra que o espaço para mudanças é grande. Mais da metade das empresas pesquisadas, 51%, afirma ter hoje custos logísticos maiores para obter benefícios tributários, e 54% disseram ter algum centro de distribuição com benefício fiscal — o que deixará de existir. Na prática, isso significa manter estoques mais distantes dos principais mercados consumidores porque a economia com impostos compensa o gasto adicional com transporte e armazenagem. “Quando se fala em mudança da malha logística, não é só da localização dos centros de distribuição, mas dos fluxos. Mais da metade das grandes empresas têm fluxos que não fazem sentido do ponto de vista logístico. Não quer dizer que os CDs vão desaparecer, mas vão ser redimensionados”, afirma Leonardo Julianelli, sócio-diretor da Ilos. Um levantamento da Galeazzi & Associados ajuda a dimensionar a distorção. Segundo Eduardo Mollo, sócio da consultoria, cerca de 70% dos CDs analisados estavam fora de São Paulo. “Com a reforma tributária, essa lógica perde importância e as empresas vão ter que voltar a olhar para a malha pensando muito mais em eficiência logística, custo de transporte, armazenagem e proximidade do consumidor.” Um dos objetivos da reforma foi acabar com a guerra fiscal entre Estados, justamente a lógica que ajudou a construir essa malha. O ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços), principal instrumento de isenção usado pelos Estados, dará lugar ao IBS (Imposto sobre Bens e Serviços), que também substituirá o ISS (Imposto Sobre Serviços), municipal; no âmbito federal, os tributos atuais serão trocados pela CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços). A CBS começa a valer em 2027, e o ICMS e o ISS passam a ser substituídos gradualmente a partir de 2029, até serem extintos em 2033. Para a logística, outra mudança central é que o recolhimento do tributo, hoje feito no local de produção ou armazenagem, passará a ser feito no Estado de consumo do produto. Isso reduz o incentivo para Estados oferecerem vantagens de ICMS apenas para atrair fábricas e centros de distribuição. Com a aproximação das novas regras, Camila Lima, vice-presidente de Operações da FedEx no Brasil, disse que já observa um movimento ligado à reforma. “Muitos dos clientes que estão em localidades subsidiadas já iniciaram a conversa de revisão da estratégia. Tem cliente que deve decidir ficar nas localidades não pela questão de impostos, mas por apostar no crescimento da região, por considerá-la estratégica comercialmente e que faz sentido do ponto de vista logístico.” No comércio eletrônico, um dos setores cuja malha foi mais moldada pelos incentivos estaduais, as grandes empresas têm expandido suas estruturas logísticas com foco em estar mais perto dos consumidores e têm repensado sua malha. Nesse sentido, a região Nordeste tem ganhado destaque. As plataformas, no entanto, não associam diretamente o redesenho à reforma. A Shopee saiu de 16 para 26 centros de distribuição no país neste ano, alta de mais de 60% sobre o fim de 2025. Quatro dessas unidades estão no Nordeste, onde a empresa abriu em maio, em Itaitinga (CE), um CD para complementar a malha que já tinha na Bahia e em Pernambuco. “Continuamos avaliando onde a rede física faz mais sentido, e podemos afirmar que o Nordeste é uma região que vem ganhando relevância nesse mapa”, afirma Rafael Flores, responsável pela área de expansão da companhia. O executivo, porém, afirma que as decisões são guiadas “sobretudo pela proximidade com a demanda” e classifica a tributação no destino como parte de um cenário mais amplo, que “impõe um período de adaptação para todos os elos da cadeia”. Avaliamos onde a rede física faz mais sentido e o Nordeste ganha relevância” O Mercado Livre segue a mesma direção. “A nossa estratégia de expansão tem descentralizado os estoques e levado a infraestrutura para cada vez mais perto dos consumidores, com forte atenção a regiões como o Norte e o Nordeste”, afirmou Luiz Vergueiro, diretor sênior de operações logísticas. A empresa tem 3,3 milhões de m2 construídos no Brasil. Ao ser questionado a respeito do impacto da reforma tributária nesse movimento, o executivo não comentou. A Amazon, que tem mais de 300 centros logísticos no país, inaugurou em maio um deles em Salvador. Em nota, a empresa disse que a escolha do local de cada unidade parte de um estudo que aponta os pontos capazes de alcançar o maior número de clientes com maior velocidade de entrega. No caso da Bahia, pesaram ainda a densidade do mercado regional e a base de vendedores parceiros já cadastrados no Estado. Sobre a reforma tributária, o grupo afirmou que “acompanha as atualizações regulatórias”. Para Mauricio Salvador, membro do conselho da Abiacom, entidade que representa o comércio eletrônico, o rearranjo de centros logísticos, com aumento de unidades no Nordeste, tende a derrubar para um ou dois dias prazos que hoje ficam entre três e cinco fora do eixo Rio-São Paulo, com rotas mais curtas que podem reduzir o custo do frete entre 30% e 50%, dependendo da operação e da região. A entidade, porém, diz ainda não ter feito uma análise específica sobre o novo modelo tributário. Essa falta de conhecimento foi constatada na pesquisa do Ilos, que apontou que boa parte das companhias ainda nem sequer analisou totalmente os efeitos da reforma tributária sobre a sua cadeia de suprimentos: apenas 13% diz ter mapeado tudo até 2033; 41% fez um mapeamento parcial; 21% analisou só os efeitos imediatos; e 25% ainda não iniciou essa avaliação. “Nos surpreendeu esse baixo nível de mobilização”, disse Julianelli. O desenho atual produziu polos logísticos que não estão necessariamente próximos dos maiores mercados consumidores. Em pesquisa anterior, a Ilos constatou que 78% das empresas consideravam a questão tributária altamente relevante na definição de suas malhas, e que cerca de 40% do faturamento das companhias estava associado a CDs beneficiados por incentivos — no setor de bens de consumo, a parcela chegava a 58%. Minas Gerais liderava em número de centros incentivados. Extrema, no sul de Minas, tornou-se um símbolo dessa configuração, ao combinar a proximidade com São Paulo e benefícios de ICMS. Em 2017, a cidade tinha menos de 100 mil m2 de imóveis logísticos; em 2022, já se aproximava de 850 mil m2, segundo a CBRE. Para Lima, da FedEx, ainda é cedo para apontar uma tendência de esvaziamento de centros em regiões incentivadas. Segundo ela, a atratividade desses locais dependerá não apenas da política tributária, mas também de fatores como infraestrutura e qualificação da mão de obra. “A questão do imposto é importante, mas não é o único na cadeia de solução logística”, disse. Richard Edward Dotoli, sócio da área tributária do SiqueiraCastro, também destaca que apesar da redução do peso de arbitragem entre os Estados, isso não significa que polos como Extrema percam automaticamente seus CDs. A infraestrutura já instalada e a cadeia de prestadores de serviços construída ao redor fazem parte da nova conta. A extinção do ICMS apenas em 2033 dá às empresas algum tempo para adaptar suas operações, mas torna a decisão mais complexa. Benefícios fiscais ainda terão valor econômico durante parte do período, enquanto investimentos feitos agora em galpões, sistemas e estoques precisam fazer sentido para uma estrutura tributária que será diferente ao fim da década. “Durante a transição, será preciso colocar na conta tanto o efeito tributário quanto o custo de mudar a operação”, diz Dotoli.
Reforma tributária começa a redesenhar logística
Pesquisa aponta que 21% dos grandes grupos já diz que vai mudar local de CDs por mudanças








