Trece, do FGV Ibre: regiões além do Sudeste deveriam ter atividades mais diversificadas — Foto: Marcelo Freire/Divulgação Embora não tenha um desempenho de encher os olhos, a economia brasileira vem sustentando crescimento ao longo dos últimos anos, puxada em grande medida pela atividade agropecuária e por seus efeitos multiplicadores em outras cadeias, como indústria de transformação, transporte e logística. Em 2025, o Produto Interno Bruto (PIB) nacional aumentou 2,3%, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), e a estimativa para este ano, com base nas previsões de mercado do relatório semanal Focus, do Banco Central, é de expansão de 1,98%. Os dados e os prognósticos apontam para um movimento de desaceleração do ritmo de crescimento econômico, decorrente sobretudo da ainda elevada taxa de juros, das incertezas típicas de períodos pré-eleitorais e da instabilidade geopolítica crescente. Além de tornar a expansão da atividade mais desafiadora para as empresas e os governos de maneira geral, esse cenário macro limita um desejável movimento para uma participação mais equilibrada das regiões brasileiras na economia. No Valor 1000, mesmo com estabilidade da participação das receitas das maiores empresas do Sudeste entre as mil maiores do país e ligeira queda de 0,6 ponto percentual no Sul ante 2024, a maior parte da riqueza do país continua sendo gerada por essas regiões — 77% e 12% das receitas líquidas das mil maiores empresas brasileiras, respectivamente. As altas de Centro-Oeste (de 3,3% para 3,7%) e Nordeste (de 5,8% para 6,2%) e a relativa estabilidade no Norte (de 1,3% para 1,1%) nesse recorte ainda são insuficientes para reduzir as desigualdades regionais e tornar a atividade econômica no Brasil um pouco mais homogênea. Isso apesar de o Centro-Oeste ter registrado um novo recorde na série do Valor 1000 de quantidade de empresas na lista e de mais uma vez ter apresentado o maior aumento na participação relativa nesta edição, ao lado do Nordeste. Considerando as receitas líquidas das mil maiores empresas do anuário, em 2025, destacaram-se em expansão ante 2024 aquelas que estão sediadas na região Centro-Oeste — mais uma vez refletindo o embalo do agro no ano passado. Elas tiveram alta de R$ 260,9 bilhões para R$ 307,6 bilhões (variação de 17,8%). Em seguida vieram Nordeste R$ 461,9 bilhões para R$ 514 bilhões (11,2%); Sudeste (R$ 6 trilhões para R$ 6,4 trilhões (5%); e Sul, praticamente estável, passando de R$ 996,9 bilhões para R$ 998,5 bilhões. — Foto: Arte/Valor No Norte, a receita líquida caiu de R$ 106,9 bilhões para R$ 91,1 bilhões (-14,8%). Apenas no Centro-Oeste e no Nordeste as altas superaram a média das mil maiores do país, que fecharam o ano com avanço de 7,8%, em R$ 8,3 trilhões. Pelo recorte dos Estados, as maiores receitas das empresas em cada região vieram de Mato Grosso (fatia de 28,3% do conjunto Norte-Centro-Oeste), Bahia (46% do Nordeste), São Paulo (62,5% do Sudeste) e Paraná (44,7% do Sul). A coordenadora do núcleo de contas nacionais do FGV Ibre, Juliana Trece, ao falar sobre os dados de atividade regionais, lembra que é natural um crescimento maior de regiões que têm PIBs menores. Nesse sentido, fica muito mais difícil para o Sudeste, que possui uma economia bastante diversificada e empresas gigantes de todos os setores, alcançar uma expansão de atividade na casa dos dois dígitos. Os dados de PIBs regionais do IBGE mais recentes são de 2023, mas o FGV Ibre fez projeções para o desempenho do ano passado. A estimativa para o Centro-Oeste, por exemplo, é de crescimento de 4,1%, mais uma vez acima do PIB nacional por conta do bom desempenho do agronegócio. Na mesma linha segue o Sul, que, embora tenha mais indústrias e serviços que o Centro-Oeste, também depende bastante do agro (sobretudo no Paraná e no Rio Grande do Sul). O prognóstico do FGV Ibre para o avanço da atividade na região em 2025 é de 2,3%. Os números deste anuário, que refletem a atividade econômica principalmente sob a ótica do faturamento das empresas, revelam um pouco do tom desse desequilíbrio regional persistente. Apesar de terem apresentado alta na quantidade de empresas locais ranqueadas entre as mil maiores do país em 2024 e 2025, as regiões fora do eixo Sudeste-Sul ainda estão distantes em representatividade. Enquanto o Sudeste tem 656 empresas entre as mil maiores e o Sul, 206, são apenas 64 no Nordeste, 60 no Centro-Oeste e 14 no Norte. Outros dados evidenciam a disparidade, como a inexistência de empresas no ranking das mil maiores no Acre, Amapá, Rondônia, Roraima e Tocantins, todos Estados da região Norte. Em termos qualitativos, com base na análise das melhores empresas em cada um dos 27 setores, as diferenças também aparecem. Se no Sudeste foram 19 as empresas ranqueadas entre as melhores dos seus respectivos setores, o Nordeste teve apenas uma: a Suzano, do setor de papel e celulose, sediada na Bahia. Em conjunto, Norte e Centro-Oeste tiveram duas empresas na lista das melhores por setor — Inpasa Agroindustrial, de Mato Grosso (bioenergia), e Valgroup, do Amazonas (plásticos e borracha). O Sul, por sua vez, teve quatro empresas nessa classificação: a paranaense Copacol (a melhor do agronegócio), a gaúcha Lojas Renner (indústria da moda) e as catarinenses Intelbras (eletroeletrônica) e WEG (mecânica). Não se pode desconsiderar que a concentração da atividade no Sudeste e no Sul é resultado de fatores históricos e geográficos, relativos à própria formação do Brasil, cuja colonização se deu do litoral para o interior, inicialmente seguindo as fronteiras agrícola e extrativista e depois as necessidades de industrialização e de escoamento de produção, basicamente no Sudeste. — Foto: Arte/Valor Na avaliação de Trece, do FGV Ibre, seria saudável uma menor concentração da economia brasileira, com as atividades das regiões além do Sudeste mais diversificadas. “Esse movimento até tem acontecido, principalmente por causa do agro, mas ainda tem um ritmo muito lento e muitas vezes dependente da desaceleração do Sudeste”, comenta. O ideal seria as demais regiões crescerem e se diversificarem, para reduzirem sua dependência de poucos setores, o que as deixa mais vulneráveis em momentos agudos de crise em determinadas atividades. Em 2026, por exemplo, a economia do Centro-Oeste, fortemente impulsionada pelo agro nos últimos anos, tende a ter desempenho pior, influenciada pelo fato de esse setor estar perdendo força nos últimos meses. Considerando primeiros trimestres em relação aos quartos trimestres do ano anterior, segundo os dados das contas nacionais do IBGE, o agro teve altas de 21,6% em 2023, de 11,3% em 2024, de 12,2% em 2025 e de apenas 2% em 2026. “Temos visto problemas com safras e dificuldades de financiamento nos últimos meses, então é razoável pensar que o PIB do agro neste ano não será tão forte”, afirma Helena Veronese, economista-chefe da B.Side Investimentos. “E o agro mais fraco também impacta outras cadeias, como transporte, serviços e logística, bastante presentes em outras regiões. Então o efeito é mais amplo”, completa. Um entrave que pode começar a aparecer à melhor distribuição dos setores na economia brasileira vem da reforma tributária, destaca o professor Saulo Abouchedid, da FIA Business School. Nos últimos anos, muitos polos industriais no Nordeste, por exemplo, foram formados com base em incentivos fiscais oferecidos pelos Estados (dinâmica que em alguns casos provocou guerra fiscal). “Ocorre que, com a reforma tributária, as indústrias passarão a recolher impostos no destino do produto, não mais na origem. Com isso, os Estados não vão mais poder contar com essa estratégia para atrair investimentos.” O professor sublinha que esses efeitos não são de curto prazo, pois a reforma tem um período longo de implementação faseada. Porém muitas empresas já têm essa questão no radar. Mas a diversificação da atividade econômica das regiões brasileiras também tem seu outro lado. Com empresas dos mais variados setores, a economia do Sudeste, por exemplo, tende a ficar mais exposta aos efeitos negativos da conjuntura macro. Afinal, um ambiente de taxa de juros resistindo na casa de dois dígitos tem influência negativa praticamente em todas as empresas — à exceção dos bancos. Quando a economia regional é mais concentrada, em contrapartida, uma alta pontual de preços internacionais de commodities pode compensar pelo menos parte do efeito deletério dos juros internos. Trece, do FGV Ibre, ressalta que o Sudeste tem o maior parque industrial do país e que esta é uma atividade que depende muito de altos investimentos em modernização e inovação. “A dificuldade vem de conseguir recursos para esses investimentos em um ambiente de taxa de juros muito alta”, acrescenta. Nesse cenário, a indústria, na média, tende a ficar estagnada, limitando um crescimento mais intenso do Sudeste.