Delegado trabalhou com Rodrigues na segurança da Copa e da Olimpíada, fez carreira nas áreas de inteligência e tecnologia e era o número 2 da corporação 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 O diretor-executivo da Polícia Federal, William Murad, reforçou a autonomia da Polícia Federal nas investigações sobre o caso Maste — Foto: Reprodução Levou menos de uma hora e 30 minutos entre o afastamento de Andrei Rodrigues do comando da Polícia Federal (PF), determinado pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), e uma manifestação pública de lealdade do número 2 da corporação. Diretor-executivo da PF desde janeiro de 2025 e substituto imediato do diretor-geral, o delegado William Marcel Murad assumiu interinamente o comando da instituição nesta terça-feira. Homem de confiança de Andrei, Murad é descrito por integrantes da cúpula da PF como um quadro técnico, discreto e avesso à política. Tem prestígio entre colegas pela experiência acumulada em áreas como inteligência, tecnologia e planejamento operacional e mantém pouca exposição pública. Nesta terça, porém, coube a ele defender a gestão da qual faz parte e manifestar apoio explícito ao chefe afastado. — Aqui, reafirmamos a nossa total confiança na direção-geral, no diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues — afirmou Murad durante a abertura do 63º Curso de Formação Profissional para agentes da PF, em Brasília. No discurso, o delegado também afirmou que a atuação “autônoma, imparcial, técnica e apartidária” permite à PF se defender de “disparates, ataques, tentativas de usurpação de funções e de desqualificar o trabalho” da instituição. — Saber que trabalhamos estritamente dentro da lei, comprometidos exclusivamente com o interesse público, nos mantém confiantes em que a verdade dos fatos, que buscamos incansavelmente em nossas investigações, prevalecerá — disse. Andrei chegou a ir ao local da cerimônia, mas deixou o evento depois de ser informado da decisão de Mendonça e não discursou. O ministro determinou o afastamento preventivo do diretor-geral e do diretor de Inteligência da PF, Leandro Almada. Como diretor-executivo, Murad é o substituto imediato de Andrei e assumiu a direção-geral em exercício depois que o chefe foi formalmente intimado. A cena que antecedeu o discurso de Murad deu a dimensão do impacto da decisão na cúpula da PF. Andrei foi afastado às 9 horas. Nesse horário, foi para uma sala da Academia Nacional de Polícia, onde participaria da cerimônia prevista inicialmente para o mesmo horário. Murad estava do lado de fora e, depois, entrou no mesmo ambiente. Os dois permaneceram reunidos por um longo período antes do início do evento, que atrasou quase uma hora. Pouco mais de uma hora após a decisão de Mendonça, por volta das 10h, Murad tomou a palavra e fez sua primeira manifestação pública como substituto de Andrei. Quem é Murad Delegado da PF desde 2002, Murad entrou na instituição com uma credencial que ainda hoje consta de seu currículo: terminou em primeiro lugar o 17º Curso de Formação Profissional para delegados da Academia Nacional de Polícia. Formado em Direito pela Universidade de São Paulo (USP), construiu uma carreira que combina experiência operacional, inteligência, tecnologia e cooperação internacional. A relação profissional entre Murad e Andrei remonta a mais de uma década, muito antes de o delegado se tornar o número 2 da atual gestão da PF. Os dois trabalharam juntos na estrutura criada pelo Ministério da Justiça para organizar a segurança dos grandes eventos realizados no Brasil. Entre 2013 e 2017, Andrei comandou a Secretaria Extraordinária de Segurança para Grandes Eventos, responsável pela estrutura federal montada para a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos do Rio de 2016. Murad integrou a mesma secretaria: primeiro como diretor de Projetos Especiais e, depois, a partir de 2015, como diretor de Inteligência. Documentos oficiais daquele período relacionam os dois entre os responsáveis pela estrutura. Naquela época, Murad participou diretamente da preparação dos dois maiores eventos esportivos realizados no país. Na Copa de 2014, foi coordenador substituto do Centro Integrado de Comando e Controle Nacional. Dois anos depois, já como diretor de Inteligência, coordenou a operação nacional de inteligência de segurança pública dos Jogos Olímpicos do Rio e o Conselho Superior de Inteligência de Segurança Pública para os Jogos. Antes de chegar a Brasília, Murad havia acumulado experiência operacional em diferentes estados. Começou na repressão a entorpecentes em Pernambuco e, entre 2004 e 2008, passou pelo Rio Grande do Norte, onde chefiou a Delegacia de Repressão a Entorpecentes e o Núcleo de Inteligência Policial e foi delegado regional de Combate ao Crime Organizado. Depois, comandou a Divisão de Repressão a Crimes Fazendários e, de 2010 a 2013, chefiou a delegacia da PF em São José do Rio Preto, no interior de São Paulo. A inteligência continuou sendo uma das marcas de sua trajetória. Murad fez cursos de inteligência policial na própria PF e de inteligência antidrogas no Peru, além de passar pela FBI National Academy, nos Estados Unidos, em 2010. Depois da experiência nos grandes eventos, tornou-se coordenador-geral de Inteligência da Diretoria de Inteligência Policial da PF, em 2017. Na sequência, migrou para a área de tecnologia. Foi coordenador-geral de Tecnologia da Informação e, em maio de 2018, assumiu a Diretoria de Tecnologia da Informação e Inovação da PF, onde permaneceu até 2021. Naquele ano, foi enviado a Londres como adido policial federal no Reino Unido, função que exerceu até dezembro de 2024. No mês seguinte, Murad retornou ao Brasil para assumir a Diretoria-Executiva, segundo posto na hierarquia da Polícia Federal. A nomeação o colocou novamente ao lado de Andrei, agora na cúpula da corporação. Desde então, também o substituiu em ocasiões de ausência do diretor-geral. Além da experiência administrativa e operacional, Murad integra a comissão responsável pela revisão do Manual de Planejamento Operacional da PF e atua como instrutor das disciplinas de Planejamento Operacional e Direção Operacional na Academia Nacional de Polícia. Depois de mais de uma década trabalhando em diferentes momentos ao lado de Andrei, Murad passa a ocupar, ainda que interinamente, o posto do chefe afastado em meio a uma crise que envolve a cúpula da Polícia Federal e ministros do Supremo. Entenda a crise no STF A crise no STF escalou na última quinta-feira, quando Alexandre de Moraes pediu que Mendonça fosse investigado por supostos crimes cometidos na condução de inquéritos sob sua relatoria, em especial os relativos ao Banco Master e às fraudes no INSS. Moraes apontou suspeitas de abuso de autoridade, improbidade administrativa e crime de responsabilidade e acusou o colega de direcionar investigações. O despacho foi apresentado dois dias depois de Mendonça retirar o sigilo de um relatório da Polícia Federal que revelou mensagens enviadas por Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, a Moraes. Ao encaminhar sua manifestação, Moraes determinou o envio de documentos que citassem integrantes da Corte diante do que classificou como informações sobre condutas capazes de atingir a independência dos magistrados. Diante do conflito, o presidente do STF, Edson Fachin, assumiu a condução institucional do caso e abriu prazo para manifestações dos envolvidos. Moraes e Mendonça foram chamados a prestar esclarecimentos, assim como o procurador-geral da República, Paulo Gonet, e Andrei Rodrigues, citados em mensagens de Vorcaro. Fachin afirmou que as instituições precisam ser preservadas nos momentos de tensão e indicou que a resposta do Supremo seria dada sem precipitação. O presidente da Corte retirou o pedido de investigação contra Mendonça do inquérito das fake news e o transferiu para um procedimento sob sua condução antes de decidir sobre seu prosseguimento.