A mãe da cantora Bia Soull trabalhava numa academia em São Paulo quando um frequentador do espaço soube que sua filha era cantora. O homem, com deficiência visual, pediu para ouvir as músicas dela. Dias depois, reapareceu com um comentário: "Isso é pornografia auditiva. É pornografia para cegos".

Foi a partir dessa observação que Bia Soull, uma das revelações da música brasileira neste ano, retirou o nome de seu celebrado primeiro álbum. Em "Pornografia Auditiva", ela usa vocais sussurrados sobre batidas experimentais de funk, de rap e de R&B para tocar em tabus e recriar maneiras de se cantar o desejo sexual e o erotismo a partir da imaginação e de uma atmosfera sombria.

"O que me diferencia não é falar sobre sexo, mas o que estou falando dentro do universo do sexo", ela afirma. "Outras cantoras já falaram sobre sexo como uma mulher desejante, mas ainda não abordavam esses assuntos que trago —que são mais delicados."

Bia Soull canta, por exemplo, do ponto de vista de uma profissional do sexo a partir do eu-lírico que assume na faixa-título do disco. "Dentro do mundo do funk, os caras falam muito sobre a garota de programa", diz. "E qual é o olhar dela sobre essas coisas?"

A música "Pornografia Auditiva" é autobiográfica —assim como 90% das letras do álbum, segundo a autora. Bia Soull conta que atuou como profissional do sexo com o objetivo de levantar dinheiro para vir de Florianópolis a São Paulo gravar suas composições.