Quatro comerciantes foram acusados no inquérito de financiar segurança clandestina no bairro 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Felipe Eduardo, um dos suspeitos de envolvimento na morte de ciclista espancado em Copacabana no momento em que se entrega à polícia — Foto: Marina Calderon/ O GLOBO RESUMO Sem tempo? Ferramenta de IA resume para você A vítima, Cláudio Rafael Landeiro Moreira, foi confundida com um assaltante. Ele acabou espancado a pauladas e cassetetes na Zona Sul do Rio. Quatro comerciantes responderão por financiar a segurança informal na região. Uma testemunha foi indiciada por omissão de socorro ao não acionar o resgate. Entre os acusados de homicídio qualificado, quatro estão presos e um continua foragido. O laudo apontou traumatismo cranioencefálico e hemorragia interna como causas da morte. CLIQUE E LEIA AQUI O RESUMO A Polícia Civil do Rio indiciou 13 pessoas pela morte do ciclista Cláudio Rafael Landeiro Moreira, de 37 anos, espancado nas ruas Barata Ribeiro e Felipe de Oliveira, em Copacabana, na Zona Sul do Rio. O crime ocorreu no dia 12 de agosto deste ano. A vítima foi confundida com um assaltante e agredida com cassetete, socos e chutes, principalmente na cabeça. Entre os indiciados pelo delegado Ângelo Lages, titular da 12ª DP (Copacabana), cinco respondem por homicídio triplamente qualificado, ''pelo motivo fútil, pelo emprego de meio cruel e pelo recurso que dificultou ou impossibilitou a defesa da vítima'', destacou o investigador. Além disso, quatro comerciantes foram indiciados por financiar uma atividade ilegal, a de segurança de rua. Os acusados por homicídio são: Davi dos Santos Machado, Jorge Luiz Ricardo Dias, Felipe Eduardo dos Santos Dias, Ailton José da Silva e Wellignton Luiz Santos de Souza. Segundo as investigações, David e Jorge trabalhavam prestando serviços de segurança de forma irregular em Copacabana. Felipe e Aílton trabalhavam como entregadores de aplicativos. Os quatro estão presos. Veja a descrição dos passos dos agressores de Cláudio Rafael O quinto indiciado por homicídio está foragido. Morador da Rocinha, Wellington Luiz Santos de Souza aparece nas imagens dando chutes na cabeça da vítima. De acordo com testemunhas, Wellington teria se aproximado e perguntado aos entregadores se a vítima era um “ladrão”. Em seguida, chutou a cabeça de Cláudio Rafael e disse: “Ladrão tem que morrer mesmo”. No período das agressões, Wellington estava morando de favor numa lavanderia, na Avenida Prado Junior, de acordo com o depoimento do proprietário do estabelecimento à polícia. Após tomar conhecimento dos fatos e reconhecer Wellington na imagens, o dono pediu que Wellington não voltasse mais à sua loja, disse. Comerciantes indiciados A investigação revelou, paralelamente ao homicídio, a existência de uma estrutura organizada de prestação informal de serviços de segurança nas ruas da região, coordenada por Aluísio da Silva Filho, que declarou ser responsável pela contratação dos integrantes e pela organização das escalas. Assim, Aluísio foi indiciado também por exercício ilegal da profissão de segurança de rua, assim como Davi, Jorge e Antônio Marcos Pires Sudre da Silva, que recebiam de comerciantes para atuar na região. Os integrantes do grupo não eram submetidos a exigências formais de experiência, curso, habilitação ou antecedentes criminais. A estrutura funcionava sem razão social ou CNPJ e sem a correspondente autorização administrativa, afirma a polícia. Quatro comerciantes que contratavam o serviço foram indiciados. São eles: Antônia Sandra Rodrigues Ferreira, proprietária da lanchonete Só Pra Ti, na Rua Belford Roxo; Antônio Gonçalves Santiago Neto, dono do Café Bar Nosso Cantinho, na Rua Barata Ribeiro, e do do Bar e Café Tropical, na Rua Prado Junior; Lucilene Barros da Silva, dona da Farmácia Top Farma, na Rua Barata Ribeiro; e Antônio Ivan Alves Pereira, um dos cinco sócios-proprietários do restaurante conhecido como Boteco Amarelim de Copa, na Rua Duvivier. Os comerciantes também vão responder por exercício ilegal da profissão, já que a investigação identificou participação dos empresários na atividade descrita, por meio do financiamento da atividade. Em depoimento, eles admitiram pagar um valor semanal de R$ 120 a R$ 150 pela chamada segurança de rua. O pagamento era feito em espécie ou por PIX a Aluísio da Silva Filho, que chegava a arrecadar R$ 1 mil semanais. Ele recebia R$ 250 semanais para liderar a atividade. Em sua defesa, os comerciantes disseram ainda que, quando passaram a atuar em seus respectivos estabelecimentos, a cobrança da taxa de segurança já existia entre os comerciantes da região e que eles só deram continuidade ao pagamento. Afirmaram ainda que os seguranças não tinham autorização para abordar, perseguir, conter ou utilizar força contra pessoas suspeitas. E que a atuação esperada era evitar que pedintes incomodassem os clientes. — Ainda vamos verificar se há outros grupos que prestam esse serviço de forma clandestina e se existem outros comerciantes que pagam por ele — afirmou o delegado Ângelo Lages. — Embora tenha sido muito célebre, a investigação, que durou três semanas, conseguiu analisar 12 horas de imagens de diversas câmeras, para conseguirmos reconstituir toda a dinâmica, desde a saída da vítima de Botafogo. Foram ouvidas 16 pessoas. Entendemos que a investigação contém conjunto probatório bastante robusto. Outras acusações Rayane de Souza Batista Silva, atendente do Café Bar Nosso Cantinho, foi indiciada por lesão corporal. Segundo o relatório das investigações, ela viu Davi agredindo o ciclista com um cassetete, chegou a retirar o objeto das mãos do acusado, mas acabou devolvendo a peça, utilizada nas agressões iniciais na Rua Barata Ribeiro. ''A entrega permitiu que o agressor retomasse a utilização do cassetete e prosseguisse com as agressões. Há, portanto, elementos que indicam a contribuição material para as lesões praticadas'', informa um trecho do inquérito. João Cleber de Souza Santiago, filho do dono do Café Bar Nosso Cantinho, foi indiciado por omissão de socorro, sendo a pena triplicada pela morte da vítima. Segundo o inquérito, ele foi uma das testemunhas das agressões e tinha percepção da gravidade da situação; entretanto, não acionou a Polícia Militar, o Corpo de Bombeiros, o Samu ou qualquer outro serviço de emergência. Devido à demora, o ciclista só foi socorrido cerca de meia hora após as agressões. O inquérito policial foi encaminhado ao Ministério Público do Rio, que, após analisar o documento, decide se há necessidade de mais provas ou se denuncia o caso à Justiça. Traumatismo craniano Após a sessão de tortura, que durou mais de seis minutos e incluiu 63 pauladas, Cláudio Rafael Landeiro agonizou por cerca de 30 minutos na Rua Felipe de Oliveira, onde foi localizado pelo Corpo de Bombeiros gravemente ferido e levado ao Hospital Municipal Miguel Couto. Ele deu entrada na unidade entre 1h30 e 2h e foi submetido a manobras de reanimação cardiopulmonar por cerca de quarenta minutos. Mas não resistiu aos ferimentos. O laudo de necropsia da vítima apontou traumatismo cranioencefálico e hemorragia interna, além de lesões no baço e no rim esquerdo por ação contundente. Os registros das câmeras de segurança foram capturados nas ruas Barata Ribeiro e Felipe de Oliveira. Veja a lista completa dos indiciados: Homicídio triplamente qualificado Seguranças: Davi dos Santos Machado e Jorge Luiz Ricardo DiasEntregadores: Felipe Eduardo dos Santos Silva e Ailton José da SilvaForagido: Wellington Luiz Santos de Souza Omissão de socorro: João Cleber de Souza Santiago Lesão corporal: Rayane de Souza Batista da Silva Exercício ilegal da profissão Seguranças: Aluísio da Silva Filho, Davi Santos Machado, Jorge Luiz Ricardo Dias e Antônio Marcos Pires Sudre da SilvaComerciantes: Antônia Sandra Rodrigues Ferreira, Antônio Gonçalves Santiago Neto, Lucilene Barros da Silva e Antônio Ivan Alves Pereira A cronologia do crime De acordo com a Polícia Civil, a investigação foi desenvolvida por meio da combinação de diligências de campo, depoimentos de testemunhas e investigados, análise técnica de imagens de câmeras de segurança, reconhecimento pessoal, rastreamento de deslocamentos, apreensão de aparelhos telefônicos, coleta de vestígios, obtenção de documentação médica e necroscópica e a apreensão da bicicleta pertencente à vítima. A análise desses elementos permitiu construir uma cronologia do crime. Veja abaixo o passo a passo montado pela investigação: Cláudi Rafael sai de casa: na noite de 11 de agosto de 2026, Cláudio deixou sua residência por volta das 22h00min, conduzindo uma bicicleta da marca Blitz, de cor prata, de propriedade de sua irmã.Abordagem em Copacabana: Na Rua Barata Ribeiro, em Copacabana, a vítima foi abordada por Davi Santos Machado, integrante do grupo informal de “seguranças de rua”, que questionou acerca da bicicleta. A vítima afirmou que o bem não lhe pertencia e, logo em seguida, ele e Jorge Luiz Ricardo Dias, outro segurança do grupo, que foi contactado por telefone, tomaram a bicicleta da vítima, desencadeando uma discussão e as primeiras agressões físicas com um bastão de madeira.As primeiras agressões: Diante da persistência da vítima em tentar permanecer na posse da bicicleta, Davi passou a agredi-la fisicamente. Nesse contexto, Davi entrou no estabelecimento Bar e Café Nosso Cantinho, de onde retirou um cassetete, objeto com o qual passou a perseguir e golpear a vítima na Rua Barata Ribeiro. A escalada do espancamento: Cláudio saiu do local e se deslocou até a Rua Felipe de Oliveira, na altura do nº 30. Foi nesse ponto que a violência assumiu caráter coletivo e totalmente brutal. À 0h07, Felipe Eduardo dos Santos Silva e Ailton José da Silva, entregadores do iFood, aproximaram-se e passaram a interpelar Cláudio. Logo em seguida, Davi Machado chegou ao local portando o cassetete, que já havia sido utilizado anteriormente na Rua Barata Ribeiro, nas primeiras agressões. A partir daí, iniciou-se uma sequência ininterrupta de agressões que resultaram na morte da vítima.Mais de seis minutos de agressão: As imagens documentaram golpes, sobretudo na cabeça, com cassetete, socos e chutes, praticados pelos envolvidos de maneira sucessiva e convergente. A sessão prolongou-se por mais de seis minutos, aproximadamente da 00h07 à 0h13.Quinto indivíduo: Por volta da 0h08, um homem, identificado como Wellington Luiz Santos de Souza, trajando calça escura e camisa de mangas compridas, clara e estampada, aproximou-se da vítima quando ela já estava caída. Chegando ao local, perguntou aos demais se o agredido seria um ladrão. Diante da afirmativa, desferiu um chute na vítima e deixou o local sem prestar ou solicitar socorro.30 minutos agonizando: Após a saída de todos os agressores da cena do crime, Cláudio Rafael ficou agonizando no chão por mais de 30 minutos, contorcendo-se e tentando se levantar, mas não conseguia ficar em pé. O socorro e a morte: Ele foi localizado pelo Corpo de Bombeiros gravemente ferido e levado Hospital Municipal Miguel Couto, onde morreu após a equipe médica tentar reanimá-lo durante 40 minutos. O GLOBO tenta contato com os citados.