Startup equipa animais com sensores para interpretar reações a amostras de pacientes; estudo com mais de 1,5 mil pessoas apontou precisão de 90%, mas especialistas pedem testes maiores 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Cães são treinados com inteligência artificial para detectar câncer pelo hálito na Índia — Foto: AFP Quando não está correndo por uma propriedade nos arredores de Bangalore, um dos principais polos tecnológicos da Índia, Chloe, uma cadela de quatro anos, participa de uma missão pouco convencional: aprender a identificar sinais de câncer pelo hálito humano. O treinamento faz parte de um projeto que combina o olfato dos cães com inteligência artificial para tentar desenvolver uma forma simples e não invasiva de rastrear a doença. O procedimento testado pela empresa é relativamente simples. O paciente respira durante cerca de dez minutos em uma máscara de algodão, que depois é lacrada em uma bolsa e encaminhada ao laboratório. Lá, a amostra é apresentada aos cães treinados. Chloe integra um grupo de 15 animais utilizados atualmente pela startup. A maioria é formada por beagles, além de malinois e mestiços de pastor, provenientes de adoções ou criadores autorizados. — É como um traje de "Homem de Ferro" para cachorros — brincou Kulgod, que estudou ciências cognitivas na Universidade da Califórnia e vem de uma família de médicos. Um estudo recente conduzido pela Dognosis reuniu mais de 1,5 mil participantes de seis hospitais do estado de Karnataka e foi publicado no "Journal of Clinical Oncology". Segundo a empresa, o sistema alcançou uma taxa de precisão de 90% na identificação de sete tipos de câncer. Os resultados despertaram interesse, mas especialistas que não participam do projeto recomendam cautela antes que a tecnologia seja considerada uma ferramenta de rastreamento estabelecida. — O estudo é promissor, é um sinal inicial. Mas eles precisam realizar o estudo com grupos maiores antes que possamos tirar conclusões definitivas — afirmou Santhosh Kumar Devadas, chefe de oncologia do Hospital Memorial Ramaiah. Neelesh Reddy, consultor de oncologia dos hospitais Manipal, também ponderou que "só o tempo dirá como essa tecnologia será útil para pacientes reais". A empresa pretende realizar novos estudos e planeja lançar comercialmente a tecnologia em 2027. A Dognosis também trabalha em parceria com instituições médicas governamentais indianas. A possibilidade de criar um método de triagem barato e não invasivo ganha relevância especialmente na Índia, onde muitos casos de câncer ainda são diagnosticados em estágios avançados. A estimativa citada pelos pesquisadores é de que um em cada nove habitantes do país poderá desenvolver algum tipo da doença. Trabalho de até 45 minutos por dia O treinamento dos animais é baseado em reforço positivo. As amostras são colocadas em plataformas próximas a dispensadores automáticos de comida, que oferecem recompensas quando os cães apresentam a reação esperada. Segundo Itmar Bitan, de 28 anos, cofundador da Dognosis e ex-integrante de uma unidade canina das forças especiais de Israel, cada animal pode manifestar a identificação de um odor de maneira diferente. — Alguns cães correm diretamente para o dispensador esperando o prêmio, outros ficam paralisados e outros arranham a amostra, empolgados — explicou. É justamente aí que entra a inteligência artificial. Em vez de exigir que todos os animais apresentem o mesmo comportamento, o sistema aprende o padrão individual de cada cachorro e procura reconhecer quando aquela reação está associada à amostra investigada.