Mortes causadas por drone autônomo na Ucrânia expõem dilemas similares aos trazidos pela bomba atômica 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Um investigador ucraniano com um drone russo recuperado em Zaporíjia — Foto: Nicole Tung / The New York Times É provável que o dia 6 de julho de 2026 entre para a História como o primeiro registro de morte provocada por inteligência artificial (IA) numa guerra. Naquele dia, um drone russo controlado desceu sobre a cidade de Zaporíjia, no sudeste da Ucrânia, em direção a um posto de gasolina, explodiu num muro, e seus estilhaços mataram três pessoas. Peritos concluíram que o drone estava programado para voar até o local e escolheu explodir perto do provável alvo: um tanque de combustível. Não devido a erro, mas porque decidiu fazer aquilo, sem qualquer controle humano. Foi guiado por IA. Foi o primeiro caso documentado com morte de civis por drone do tipo, de acordo com análise do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais. A perícia foi confirmada pelo resgate, dentre os destroços, de um pequeno processador da Nvidia, principal fornecedora de chips para IA. O drone foi considerado arma autônoma. O uso crescente de IA com fins militares põe a comunidade internacional diante de dilemas similares aos enfrentados depois do lançamento das primeiras bombas nucleares sobre Hiroshima e Nagasaki na Segunda Guerra. Não pelo poder destrutivo — afinal, os artefatos nucleares americanos deixaram perto de 200 mil mortos. Mas pelo poder que a IA concede a atores com menor sofisticação técnica e científica e pelo impacto da nova realidade na estratégia das forças militares. Depois da bomba atômica, o mundo teve de se debruçar sobre a necessidade de estabelecer regras e tratados para evitar uma hecatombe nuclear. O mesmo caminho deverá ser seguido no que diz respeito ao uso da IA na guerra. A História já registra o uso de sistemas da Anthropic na operação de captura do ditador venezuelano Nicolás Maduro em Caracas, por tropas especiais que lá desceram de helicópteros à noite. Uma operação que, além da ajuda do Claude, contou com assessoria da Palantir Technologies, empresa parceira da Anthropic especializada no processamento e análise de grandes volumes de dados. O próprio CEO da Anthropic, Dario Amodei, despertou para a questão e passou a se pronunciar em público sobre os dilemas éticos trazidos pelo uso bélico da IA. Ele se recusou a autorizar o Pentágono a usar sua IA em armas autônomas ou na vigilância da população. Os contratos da Anthropic foram substituídos por outros da OpenAI, e os dilemas persistem. Nos últimos meses, vários peritos em ética e segurança pediram demissão de empresas líderes em IA, revelou, em artigo na Foreign Policy, Christopher David LaRoche, da Universidade Central Europeia e do americano Bard College. “Não são os primeiros, nem provavelmente serão os últimos”, afirmou. Ele compara a situação atual à debandada que sucedeu ao Projeto Manhattan, quando vários artífices da bomba atômica se converteram em pacifistas e militantes antinucleares. Ainda que possa parecer remota a possibilidade de a IA representar perigo comparável ao das armas nucleares ou ao de patógenos criados em laboratórios, LaRoche entende que o mundo depende de comunidades que trabalhem numa espécie de “sacerdócio” no monitoramento da tecnologia, para evitar que decisões distantes do escrutínio público ponham a humanidade em risco. A energia nuclear permitiu grandes avanços, mas o uso bélico do átomo instaurou no planeta um medo até hoje não debelado. Oxalá o caminho da IA seja menos conturbado.
Uso militar da IA exige atenção de todo o planeta
Mortes causadas por drone autônomo na Ucrânia expõem dilemas similares aos trazidos pela bomba atômica







