O cineasta sul-coreano Lee Chang-dong é um dos grandes queridinhos do chamado "cinema de arte" revelados no século 21, mas desde que ganhou o prêmio da crítica no Festival de Cannes pelo celebrado "Em Chamas", em 2018, não lançava filme nenhum. No domingo, finalmente matou a saudade dos entusiastas de seu cinema ambíguo, lento e cheio de conotações políticas e existenciais, com "Possible Love", exibido em competição no Festival de Veneza.
O longa nasceu parte de um projeto internacional que busca celebrar o "Decálogo", série de filmes lançada no fim dos anos 1980 pelo polonês Krzysztof Kieslowski, adaptando os Dez Mandamentos da Bíblia. A proposta é que cada um entre dez diretores de destaque atualmente use um mandamento para servir de mote para um filme —o primeiro foi o iraniano Asghar Farhadi, que apresentou em Cannes "Parallel Tales", muito mal recebido pela crítica.
Desde que a Netflix entrou como produtora, o filme ganhou pernas próprias, mas a matriz bíblica permanece. Partindo do mandamento "Não cobiçarás coisas alheias", Lee tece uma história que entrelaça a vida de dois casais de classes sociais bem distintas. Vemos Ye-ji, uma diretora de documentários abastada, casada com o atlético Sang-woo, bem-sucedido homem de negócios —a cineasta descobre que uma grande empresa na Coreia do Sul demitiu um mar de trabalhadores. Entre eles Ho-seok, que passou a exagerar na bebida após o desemprego, o que obriga sua mulher, Mi-ok, a ter que sustentar a casa e tentar consolar o marido.










