O presidente da Argentina, Javier Milei, brandiu as mídias sociais como uma arma implacável para irromper no poder em 2023. Agora, sua maquinária on-line está deixando expostos os desafios com os quais ele se depara em sua tentativa de reeleição em 2027. As menções a Milei em plataformas de relacionamento social on-line e em sites caíram para 3,7 milhões em junho, cerca de 72% abaixo do pico de 12,6 milhões em fevereiro de 2025, segundo um novo informe da firma de consultoria em comunicações Ad Hoc. O engajamento com as publicações de Milei no X, como republicações e curtidas, caiu 62% desde que ele assumiu a Presidência, de acordo com a firma. O declínio de Milei nas mídias sociais é sintomático de uma narrativa que se encontra cada vez mais à deriva. O avanço econômico do país praticamente parou, os planos legislativos de Milei perderam força e os inúmeros escândalos de corrupção tornaram mais difícil distinguir o líder libertário do establishment político que ele prometeu derrubar. A aprovação pública de Milei também está próxima de seus níveis mais baixos. "Milei sabia como usar as mídias sociais porque ele respondia muito bem à dinâmica delas", disse Kevin Grunbaum, diretor da área digital da Ad Hoc. "Para ele, perder destaque hoje claramente é um sinal negativo. O declínio nas interações é um sintoma da erosão que também estamos vendo na opinião pública [a respeito dele]". A assessoria de imprensa de Milei não respondeu de imediato a um pedido para comentar o assunto. Um escândalo de corrupção que eclodiu em fevereiro de 2025 após Milei ter promovido uma criptomoeda marcou o ponto de virada, segundo a Ad Hoc. Desde então, as conversas a respeito de Milei tem sido cada vez mais conduzidas por eventos fora do controle dele, em vez de pela agenda que ele deseja promover. As crescentes turbulências dentro da máquina digital de Milei são parecidas a uma fragmentação similar observada nos Estados Unidos nas opiniões de direita nas mídias sociais sobre a guerra do presidente Donald Trump no Irã. Ao mesmo tempo, pesquisadores constataram que plataformas como o X favorecem comentários conservadores, o que torna ainda mais notável a perda de tração por parte de Milei. Em Buenos Aires, as tensões vieram à tona em 2025, quando Daniel Parisini - um destacado influenciador libertário conhecido como Gordo Dan, que apresenta podcasts com integrantes de alto escalão do governo - começou a criticar abertamente alguns deles. As brigas internas se intensificaram em 2026, à medida que parte da base digital de Milei passou cada vez mais a se voltar contra figuras da coalizão governista. Além disso, alguns dos principais arquitetos nas mídias sociais de Milei são alvo de acusações criminais ou têm cometido erros evitáveis. Fernando Cerimedo, que encabeçou a campanha de Milei nas mídias sociais com um exército de "bots" em 2023, foi preso na Bolívia em agosto acusado de feminicídio. Outro importante aliado no mundo digital, o ex-porta-voz Manuel Adorni, renunciou em junho diante de um escândalo de enriquecimento ilícito. Tanto Cerimedo quanto Adorni negam ter cometido irregularidades. Nesta semana, a embaixada da China na Argentina criticou o diretor de comunicação digital de Milei, Juan Pablo Carreira, por ter especulado que uma estatal chinesa e o Partido Comunista foram responsáveis pelo desabamento de uma geleira na fronteira da China com o Nepal que resultou em milhares de mortos e desaparecidos. Milei já se descreveu como "um produto das mídias sociais". Antes de se tornar presidente, ascendeu à fama por meio de aparições combativas na TV, de vídeos virais e de uma presença incessante na internet. Os insultos, memes e ataques a "la casta" - seu termo para se referir ao establishment político argentino - foram uma parte central dessa estratégia. Milei durante um evento de aniversário da Bolsa de Comércio de Buenos Aires — Foto: Tomas Cuesta/Bloomberg As mídias sociais também permitiram a Milei, que não dispunha de uma estrutura política tradicional, compensar a pouca presença física nas diferentes regiões da Argentina. Ele viajou relativamente pouco pelo país durante a campanha de 2023, mas ganhou a maioria dos votos nas 23 províncias argentinas. Milei ainda não visitou nove das províncias argentinas desde que assumiu o cargo, o que pode tornar o desgaste de seu alcance on-line mais preocupante em sua busca da reeleição. No governo, Milei valeu-se das mídias sociais não apenas para promover suas ideias e políticas, mas também como uma grande arma política para envergonhar publicamente seus adversários. Em abril de 2024, o senador Martin Lousteau levantou timidamente a mão durante uma votação que dava um grande aumento de salário para os parlamentares. Milei aproveitou o gesto desajeitado de Lousteau para exemplificar a falta de sensibilidade das elites políticas. Como resultado, a imagem positiva de Lousteau caiu para apenas 17% em junho daquele ano, abaixo dos 38% em janeiro de 2023, segundo uma pesquisa da D'Alessio IROL-Berensztein. Agora, os ataques de Milei nas mídias sociais talvez estejam ajudando seus adversários, em vez de colocá-los para escanteio. Ele tem feito pesadas críticas à política esquerdista Myriam Bregman, mas ela aparece de forma constante nas pesquisas deste ano como uma das políticas mais populares da Argentina. "Agora, existe uma sensação de decepção", disse Sergio Berensztein, chefe de uma firma de consultoria política que leva seu nome em Buenos Aires. "À medida que os escândalos se acumularam e a economia começou a desacelerar, a militância digital perdeu a autoridade moral para continuar a promover uma agenda tão agressiva, e o presidente é basicamente o único que ainda a leva adiante." Mesmo assim, a máquina digital libertária não desapareceu e os partidos de oposição não capitalizaram a perda de apelo do presidente na internet. O YouTube se tornou lar de mais conteúdos anti-Milei, mas não são os políticos tradicionais da oposição que vêm conduzindo esse crescimento. "Milei e seus funcionários perderam alcance, mas o núcleo ativista continua excepcionalmente coeso", disse Lucas Malaspina, diretor da Sustantiva, uma firma de consultoria de dados e estratégia. Agora, uma questão premente no palácio presidencial argentino é saber quem exerce influência sobre os ativistas das mídias sociais que propagam as palavras de Milei. Santiago Caputo, que é um de seus principais assessores, e Karina Milei, irmã e "consigliere" do presidente, continuam disputando o controle das comunicações digitais, de acordo com duas fontes a par do assunto. A questão se mostrou tão sensível que, quando o porta-voz Adrian Ravier anunciou na semana passada o nome de um auxiliar de Karina para o comando da área digital, ele acabou voltando atrás nos comentários poucas horas depois. Analistas políticos reiteram que tudo isso será apenas um problema temporário, desde que a oposição continue sem rumo quanto à própria mensagem. Em última análise, é provável que o bolso das pessoas importe mais do que as mídias sociais. "As redes sociais são uma ferramenta fundamental, portanto se isso melhorar um pouco e a oposição continuar tão adormecida e descoordenada quanto tem estado até agora, talvez eles consigam se safar disso", disse Berensztein. "Especialmente, se eles forem capazes de fazer a opinião pública a respeito da economia melhorar, mesmo que marginalmente."
Máquina de Milei nas mídias sociais começa a falhar na Argentina
Menções e engajamento com as publicações do presidente no X, antigo Twitter, tiveram forte queda desde que ele assumiu a presidência, de acordo com uma pesquisa da consultoria Ad Hoc








