O desastre causado pelo colapso parcial de uma geleira no Nepal e no Tibete, que até agora produziu mais de 1.200 mortes e de 5.000 desaparecidos, não é o primeiro nem será o último desencadeado pelo aquecimento global. Já aconteceu antes, como em 1941 em Huaraz (Peru), e vai se repetir.

Naquele 13 de dezembro, a lagoa Palcacocha se viu reduzida a 500 mil m3 de água glacial após um bloco das geleiras Pucaranra e Palcaraju se desprender gerando um tsunami seguido de avalanche. No curso do vagalhão morreram 1.800 pessoas. O degelo não parou, e Palcacocha já cresceu 34 vezes, para mais de 17 milhões m3.

Imagine como é viver hoje, 1.500 m abaixo da lagoa, no sopé das montanhas que abrigam tamanha ameaça a 4.562 m de altitude. Pelo menos um terço da população de 150 mil habitantes mora na zona de risco aluvional da cidade peruana, quer dizer, na rota das pedras e da lama que arriscam soterrá-los a qualquer instante.

No entanto, a vida por lá segue normal. Lalo de Almeida e eu estivemos em Huaraz em 2018 para uma reportagem da série Crise do Clima, e encontramos huaracinos não mais preocupados com a própria sobrevivência do que com a dos cuyes (porquinhos-da-índia que criam em casa para comer em ocasiões especiais). Com uma notável exceção: Saúl Luciano Lliuya.