Britânico será o primeiro DJ a encerrar o dia no Palco Mundo 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Calvin Harris, Xamã e Rogério Flausino, do Jota Quest, são atrações do Rock in Rio 2026 — Foto: Tolga AKMEN/AFP — Lucas Nogueira/ Divulgação — Edilson Dantas/Agência O Globo “O mercado está sedento por festa! Você vê o dia do Calvin Harris, foi o primeiro a esgotar!”, entusiasma-se Roberto Medina, presidente e criador do Rock in Rio, sobre o primeiro domingo desta décima edição do festival. Pela primeira vez no evento, a maior atração do palco principal será um DJ. No caso, o escocês de 42 anos, que surgiu em 2007 como um prodígio do indie dance com o álbum “I created disco” e emplacou hits globais (que passaram a marca do bilhão de plays no Spotify), como “Outside”, “Summer” e “We found love” (com Rihanna). — Foi uma ideia minha, mas eu sofri (para emplacar). Precisamos de alegria. O Rock in Rio é isso. Fiquei uns dois meses brigando. Diziam: “Mas pera aí, um DJ?” — conta Medina. — No Rock in Rio, temos que nos subordinar ao momento que o país está vivendo. Em 1985, foi a liberdade, estávamos achatados e ganhou a democracia. Hoje, estamos vivendo uma nova pandemia, a do celular. Ele está destruindo a vida das pessoas, essa tecnologia está estressando a sociedade. A gente fica falando de direita, de esquerda... a gente quer o centro, a gente quer consenso! DJs no Palco Mundo não são novidade — o francês David Guetta, o brasileiro Alok (que a ele volta na próxima sexta, dia do K-pop) e o americano Mashmello já estiveram lá. Mas nenhum deles na posição que Calvin Harris ocupa. É uma novidade que anima, mas não surpreende o superDJ inglês Norman Cook, o Fatboy Slim (que fecha amanhã o palco da música eletrônica do Rock in Rio, o New Dance Order). Para ele, o que se vê hoje com Harris “é o fim de uma longa história que começou com os DJs tocando em pequenas boates e sendo pagos com bebida em vez de dinheiro”. — Ao longo da minha vida e da minha carreira, o DJ acabou se tornando mais importante, mais reconhecido e mais respeitado. Eu, pessoalmente, nos últimos anos, fui por muitas vezes o primeiro DJ a virar atração principal de festivais em que o headliner costumava ser uma banda de rock — conta ele, que em 2004 atraiu mais de 150 mil pessoas para um grande baile na Praia do Flamengo. — É uma grande responsabilidade, porque, se um festival existe há tanto tempo e nunca teve um DJ como atração principal, se ele não for bom, provavelmente nunca mais terá outro. Mas o Calvin é um ótimo showman e tem um show incrível. Nós, DJs, estamos cientes de que precisamos ser tão bons quanto uma banda de rock. Comemoração do Barão Mas as bandas de rock ainda têm seus apelos de festa — a volta comemorativa do Barão Vermelho à sua formação clássica, com o cantor e guitarrista Frejat e o baixista Dé Palmeira, é a atração de abertura de hoje no Mundo. Que logo depois recebe o rapper Nelly (dos hits “Ride wit me”, “Hot in herre” e “Dilemma”, inevitáveis nos bailes do começo dos anos 2000) e o grupo Black Eyed Peas (de “I gotta feeling”, “Where’s the love” ou “Pump it”, entre outros clássicos festeiros da primeira década do novo milênio). Vice-presidente da Rock World, que produz o Rock in Rio, e curador de boa parte dos palcos, Zé Ricardo também chegou a uma banda de rock depois de ouvir de amigos: “Você vai fazer um dia de festa e não vai colocar Tim Maia?” Na impossibilidade de ter o próprio Síndico (que morreu em 1998 sem ter cantado num Rock in Rio), chegou ao Jota Quest, que semana passada lançou “Dance enquanto é tempo”, álbum de respeitosas releituras (com vozes originais de Tim) para “Descobridor dos sete mares”, “Sossego” e “Vale tudo”, parte de qualquer celebração que se preze no Brasil. — A gente ama demais os fonogramas originais, essas músicas, e ficava até meio ciumento com elas. Tem aqueles caras que falam assim: “Vamos fazer essa aqui meio reggae!” Que reggae, bicho? Você tá louco! É uma coisa intocável, maravilhosa! — defende o cantor do Jota, Rogério Flausino. — Nossa vontade foi a de interpretar o mais próximo possível da realidade, guardando as devidas proporções, claro. Como é que eu vou cantar igual ao Tim Maia? Não tem jeito. O baixista do Jota Quest, PJ, com “Dance enquanto é tempo”, fez a sua estreia como produtor de discos da banda. — Este álbum é como se Tim Maia fosse chamado e perguntado: “Bora fazer um show juntos?” — resume. — “Gostava tanto de você”, por exemplo, é uma música do Tim com bilhões de regravações, mas raramente você vai encontrar uma com a levada samba funk original. É a cereja do bolo do disco, não tem como fazer uma coisa diferente disso. Segundo Rogério Flausino, esse show do Jota Quest no Palco Sunset (que hoje ainda terá a estrela americana do R&B Ne-Yo, o BaianaSystem e a dupla pop portuguesa Calema) será “90% Tim Maia”. — A gente queria estar no mesmo dia do Jamiroquai (atração do Sunset na próxima sexta), somos muito fãs, mas não deu — lamenta o cantor. — O show do Tim nem estava pronto quando sugerimos para o Zé Ricardo (fazer a estreia no Rock in Rio). Ele achou animal e aí a gente começou a ensaiar muito. Porque no palco muda tudo. Quando estamos tocando em alguns lugares sentimos que temos que aumentar a velocidade, ou que precisamos de uma outra pegada, mais power. Quem também lança álbum no Rock in Rio é o rapper Xamã. De volta ao Espaço Favela (onde estreou no festival, em 2019), mostra as músicas de “Flerte”, lançado na semana passada, e passará por vários momentos de sua carreira. Xamã conta que o disco foi composto ao lado de parceiros como Ammabi e NP. — Foi a primeira vez que eu abri para compor com outras pessoas. Fizemos cinco músicas numa só noite. É muito diferente escrever assim, porque, como MC, fico muito na ortografia, na rima, no flow. E aí outra pessoa já vai mais pela melodia — diferencia o rapper, que também se deixou influenciar pelo pop africano, especialmente o afrobeat e o amapiano. — Me deram uma cadência diferente de criação. A técnica para as melodias nesses estilos é parecida com a do R&B, só que com mais ritmo. A volta ao Espaço Favela (que este domingo ainda terá os rappers Rael e Budah) tem para Xamã sabor de comemoração. — Em 2019, a gente já estava em ascensão, mas hoje o rap ganhou os grandes festivais. A favela ocupou todos os cantos, no rap, no funk ou na dança — diz o rapper, que, como ator, está em “Cinco tipos de medo” (longa que disputa uma indicação para concorrer pelo Brasil ao Oscar de filme e estrangeiro) e filma a série de comédia do Netflix “Casamento aberto e outras coisas que não existem”, de José Alvarenga Jr. A alemã em Santa Teresa Vai ser uma festa de reencontro também para a cantora alemã Sophie Hawley-Weld, metade da dupla de música eletrônica Sofi Tukker, atração do New Dance Order, com Meduza³, Liu e Casa Bonita/Brisotti & Viot. Sophie morou seis meses em Santa Teresa, no Rio, para um intercâmbio na PUC, e se apaixonou pela cultura brasileira. Um poema de Chacal, “Relógio”, deu origem à letra de “Drinkee” (2016), o primeiro hit da dupla, cantada em português (“Eu bato um papo, eu bato um ponto/ eu tomo um drinque, eu fico tonto”). A parceria prosseguiu e deu num dos últimos singles do Sofi Tukker, “Boba” (2026), uma eletro com rap em português e flow de funk de baile do Rio. — Chacal me mandou o poema quando trabalhávamos em uma faixa que combinava com a vibe. É engraçado, porque a faixa tem uma pegada mais ousada e o poema é de amor, muito doce — observa Sophie, que completa o Sofi Tukker com o americano Tucker Halpern.