Viúva de Marielle Franco reivindica o segundo voto da esquerda e diz entender a aliança do PT com o PSD de Eduardo Paes 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 A candidata do PSOL ao senado Monica Benicio — Foto: Gabriel de Paiva Nesta semana, o GLOBO mostra as ideias e propostas dos principais candidatos às duas vagas para o Senado Federal pelo Rio de Janeiro. Postulante do PSOL, a vereadora Monica Benicio (PSOL), viúva de Marielle Franco, reivindica o segundo voto da esquerda e diz entender a aliança do PT com o PSD de Eduardo Paes. Assista à entrevista: A senhora apoia Lula, mas Lula não a apoia. Por que lançar uma candidatura de esquerda ao Senado fora da chapa do presidente no Rio? A política tem seus acordos, suas alianças. Isso não impede que eu defenda a recondução do presidente Lula. O Brasil experimentou o que é ter um presidente de extrema direita. O PSOL apoia Lula e Benedita como segundo voto ao Senado, embora não estejam fazendo isso com a gente. O que é pessoal, vou à terapia para resolver. O PSOL tentou se integrar à chapa? Abrimos diálogo, mas o PSOL é um partido muito pequeno. Nessa correlação de forças, entendemos as alianças que o PT fez. Houve pressão para desistir? Nos bastidores da fofoca, até existiu. Mas sou uma pessoa que entrou na política porque o Estado falhou. Falhou ao me negar o direito de ter família, falhou com a democracia quando permitiu que a vereadora Marielle Franco fosse executada. Não entrei na política por planos pessoais, mas pelo meu desejo de transformá-la. A divisão na esquerda do Rio pode ajudar a eleger um senador bolsonarista? É uma pergunta que ouço com frequência. Tenho muita convicção na política que defendo, e não vejo ela ser representada em outros espaços. O Rio tem uma oportunidade histórica de eleger duas mulheres trabalhadoras, progressistas, que vêm de favela. Numa conta muito pragmática, quem pode estar ameaçando a cadeira da Benedita não sou eu, é o Pedro Paulo, porque eu amplio os votos dela na esquerda. Não quero mais pensar no que é menos pior. Quero acreditar no que é melhor, no que pode ser diferente. A senhora é muito identificada com a defesa da população LGBTQIA+. Aprovou projetos como o Dia Municipal de Visibilidade Lésbica. Acredita ter chances reais numa eleição majoritária no Rio, com 32% de evangélicos? Esta é minha identidade. Mas nossa campanha nem de longe busca ser uma campanha identitária. Minha atuação na Câmara Municipal também está muito relacionada ao debate da segurança e, especialmente, à defesa do direito das mulheres. Como foi sua relação com Carlos Bolsonaro? Não houve relação, embora a gente tenha sido vizinho de gabinete. Primeiro, porque ele não ia trabalhar. Em cinco anos, nunca vi ele ir à tribuna para defender um projeto. O Senado discute a PEC da Segurança Pública. Qual sua visão sobre a proposta? Hoje não existe mais crime paralelo ao Estado. O Estado faz parte do crime. A Alerj é um exemplo didático disso. Para um enfrentamento sério, é preciso investir em inteligência e, sobretudo, chegar a quem financia e lucra com o crime. Definitivamente não é quem está na favela, à mercê de múltiplas violências. Não só do braço armado, mas da extorsão, do crime organizado, da milícia. A vítima disso é o trabalhador, o favelado. Alguns candidatos a presidente citam o exemplo de El Salvador para defender medidas de exceção nas favelas. O que acha disso? Sou uma mulher nascida e criada na favela da Maré. É impossível ouvir uma fala dessa e não me afetar. Estava na Maré no período da intervenção. Sei o que é conviver com um tanque de guerra na porta. O motor não desliga, você não consegue dormir com o barulho. Sem falar nos soldados correndo de fuzil na favela. Esse tipo de violência só serve para acirrar o clima de medo. Este foi o meu tema de mestrado em Arquitetura e Urbanismo: o direito à cidade na perspectiva do favelado. A senhora citou a infiltração do crime na Alerj, mas o PSOL também votou em Rodrigo Bacellar, hoje preso sob acusação de colaborar com o Comando Vermelho. Como explica esse voto? O PSOL é um partido pequeno na Alerj, e votou no Bacellar para se manter na presidência de comissões importantes, como a de Defesa da Mulher, e a de Direitos Humanos. Isso não significou se vender ou abrir mão de suas políticas. Bacellar terá que responder pelo que fez. Seus rivais na direita pregam o impeachment de ministros do STF. O que pensa disso? Impeachment é um instrumento muito sério. Vimos a banalização dese instrumento no golpe contra a presidente Dilma. Temos que ter responsabilidade. Uma coisa é certa: ninguém está acima da Constituição. Para mim, o que vale para um ministro tem que valer para um jovem da favela. E a gente sabe que a democracia não é igual para todo mundo. Se houver segundo turno entre Eduardo Paes e Douglas Ruas, o que o PSOL fará? Gostaria de ver o William Siri no segundo turno. Se ele não for, o partido vai deliberar coletivamente. E a Monica vai precisar, talvez, pensar um pouco mais na terapia.