A colunista Vicky Bloch escreve sobre por que a sucessão ainda gera resistência e como fazer a transição da maneira adequada 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Eu devo confessar que, mesmo com décadas de experiência profissional e tantos anos atuando junto a empresas familiares, sempre fico nervosa diante de uma plateia que vem me ouvir falar sobre sucessão. Isso porque sei da importância e do impacto que esse tema traz para os empreendedores de primeira, segunda ou até mesmo de terceira geração, estejam eles atuando como CEOs ou no conselho de administração. O assunto é tão delicado que me obriga a colocar minha própria experiência em perspectiva. Embora alguns tratem do processo com maior naturalidade e segurança, haverá sempre um contingente enorme de empreendedores que acredita que seu substituto não será capaz de conduzir a empresa com a mesma paixão, competência e dedicação que eles tiveram. Em teoria, sabem que precisam deixar o comando em algum momento, e que o ideal é fazê-lo enquanto ainda podem escolher como essa transição acontecerá, mas continuam adiando a saída, centralizando todas as decisões e acreditando que a empresa precisa deles mais do que nunca. Esse tema não é novo. O processo sucessório como atribuição central das lideranças familiares vem sendo apontado há décadas por estudiosos da administração. Deixar sucessores nos vários órgãos de governança é responsabilidade do líder e um compromisso com o legado da família. Mas se essa necessidade é tão conhecida e evidente, por que ela ainda provoca tanta resistência e sofrimento? Simplesmente porque o grande desafio raramente está relacionado a habilidades técnicas ou de liderança. Ele diz respeito aos aspectos mais intrínsecos e profundos do ser humano, que não necessariamente evoluem com o tempo: as emoções. Misturam-se aqui sentimentos como medo, orgulho, raiva, vaidade, uma certa arrogância e até mesmo questões como saúde mental e senso de sobrevivência. Ainda hoje, durante minhas consultorias, palestras e aulas, vejo nos rostos de famílias empresárias o quanto é difícil imaginar um futuro da organização sem elas no comando. Muitos se encolhem ou baixam os olhos quando digo que preparar seus sucessores, confiar neles e abrir espaço para que assumam é também uma forma de respeitar aquilo que construíram. Deixar sucessores nos vários órgãos de governança é responsabilidade do líder e um compromisso com o legado da família, diz colunista — Foto: Pexels Para quem passou a vida à frente de uma empresa familiar, sair de cena pode ser confundido com perder valor, relevância ou importância. Mas talvez seja justamente o contrário: ao adiar indefinidamente a passagem do bastão, corre-se o risco de comprometer a continuidade daquilo que tanto se deseja preservar. Para que esse movimento aconteça, o líder precisa compreender o lugar que ocupa, reconhecer o valor de sua trajetória e, ao mesmo tempo, perceber que sua contribuição não se encerra quando deixa o comando. É essa consciência, acrescida de uma importante dose de generosidade, que lhe permite conduzir a própria transição. É fundamental buscar a disposição de entregar ao outro, nas melhores condições possíveis, a empresa que construiu ou fez crescer. De sair fazendo falta, sim, mas deixando para trás uma organização pronta para seguir adiante. Conduzir a transição de maneira adequada e admitir que essa história pode se tornar ainda muito maior também faz parte da sua obra e do seu legado. E, como dizem os jovens, “bora” partir para o próximo ciclo. Pode haver muita coisa boa ainda vindo pela frente. Vicky Bloch é fundadora da Vicky Bloch Associados, professora do IBGC, da FIA e membro de conselhos de administração e consultivos
O desafio de preparar a empresa para seguir sem você
A colunista Vicky Bloch escreve sobre por que a sucessão ainda gera resistência e como fazer a transição da maneira adequada






