País fica na 51ª posição em lista que avalia autonomia em relação a empresas, infraestruturas de TI e governos estrangeiros 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Patrícia Batista, da Caixa: é necessário manter o controle sobre a infraestrutura — Foto: Divulgação Dados do fim de agosto do Digital Sovereignty Index (DSI, ou índice de soberania digital), levantamento que avalia a capacidade de 102 países de controlar a infraestrutura on-line, bancos de dados e o desenvolvimento de tecnologias, indicam que o Brasil ocupa a 51ª posição no ranking, com 57,8 pontos, numa escala que vai de 0 a 100. A colocação posiciona o país abaixo da média global do indicador (58,3) e bem distante dos dois primeiros ocupantes da lista: China (98,4) e França (92,2). Rússia, Estados Unidos e Suíça, nessa ordem, completam o top 5 do índice, desenvolvido em conjunto por Brics+ Tech Forum, Gepsi (UnB) e Getip (USP) Os números reforçam o debate sobre a soberania digital do país, que ganhou força com entendimentos recentes do Supremo Tribunal Federal (STF), como a responsabilização das big techs por conteúdos publicados por terceiros. Na prática, a soberania digital é a capacidade de um país em controlar e tomar decisões, de forma autônoma, sobre o seu “destino tecnológico”, sem depender de governos estrangeiros, grupos multinacionais ou infraestruturas de tecnologia da informação (TI) sediadas em outras nações. Na área financeira, engloba o potencial dos bancos de reduzir a necessidade de recorrer somente a provedores globais para manter serviços, além de garantir resiliência frente a problemas como queda de sistemas e ataques cibernéticos. De acordo com especialistas, a soberania digital tem se consolidado como um componente crítico na estratégia de continuidade dos negócios e na proteção da infraestrutura financeira do país. André Palma, diretor de tecnologia do Itaú Unibanco, diz que o grupo aplica um plano “multicloud” (nuvem múltipla) para assegurar a perenidade das operações contra imprevistos. Nesse modelo de computação em nuvem, são utilizados serviços de mais de um provedor para lidar com diferentes aplicações e modelos de armazenamento de dados. “O ‘multicloud’ é importante porque, em algum momento, um provedor pode apresentar uma falha”, diz. A evolução da infraestrutura de nuvem no Itaú Unibanco acabou tracionando a distribuição geográfica do poder de processamento do banco, que atende 70 milhões de clientes. Palma diz que o conglomerado opera com três data centers na infraestrutura tradicional, enquanto a adoção de provedores de nuvem engloba 12 unidades. A intenção é continuar ampliando a disponibilidade dos serviços na nuvem, diz o executivo, com mais de 20 anos de mercado financeiro. No final de julho, o banco lançou a ferramenta de inteligência artificial ia.i, que promete facilitar a interação com clientes, por meio de comandos de texto ou voz. A estimativa é que, até o fim deste mês, alcance 3 milhões de usuários. O ‘multicloud’ é importante porque um provedor pode apresentar falha” Na avaliação de Patrícia Araujo Cortez Batista, superintendente nacional de serviços de TI da Caixa, a soberania digital não significa manter todos os recursos tecnológicos “dentro” da corporação. “Como um banco público, é imprescindível entender o desenho da arquitetura de TI que usamos e a cadeia de fornecedores globais que prestam os serviços”, afirma. “Soberania também é ter condições de manter o controle sobre a nossa infraestrutura.” Marcos Siqueira, CRO (chief revenue officer ou diretor de receita) e head de estratégia na Ascenty, do setor de data centers, diz que os clientes buscam, cada vez mais, soluções de “multicloud” como parte de um ambiente de produção que inclui também ativos físicos de computação, que vão continuar existindo além da nuvem. “No setor financeiro, que depende de transações em tempo real, a combinação de data centers, redes de alta capacidade e nuvem já é vista como parte de um mesmo bloco operacional”, afirma Siqueira. Bruno Assaf, diretor de IA, nuvem e data center da Dell Technologies no Brasil, lembra que a pressão sobre a soberania digital e a capacidade computacional das empresas só tende a escalar com o avanço da IA. “A nossa previsão é investir US$ 60 bilhões em infraestrutura para IA nos próximos anos”, afirma. Para Guilherme Forma Klafke, professor de direito e tecnologia da Escola de Direito de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (FGV Direito SP), as instituições financeiras podem atuar como catalisadoras, e não apenas como usuárias da soberania digital nacional. “Os bancos são grandes compradores de tecnologia”, explica. “Podem exigir a portabilidade dos contratos e financiar fornecedores brasileiros de cibersegurança, software, semicondutores e IA.” Klafke acrescenta que o setor financeiro tem meios para criar laboratórios conjuntos com universidades e centros tecnológicos no Brasil para garantir mais autonomia. “É possível ainda fazer investimentos de venture capital na infraestrutura digital do país.”
Brasil tem desempenho fraco em soberania digital
País fica na 51ª posição em lista que avalia autonomia em relação a empresas, infraestruturas de TI e governos estrangeiros








