O advogado baiano Ciro Rocha Soares, citado em relatório da Polícia Federal (PF) que analisou as conversas de Daniel Vorcaro com o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), conheceu o banqueiro no Mineirão, na torcida do Atlético-MG, possui bom trânsito político no seu estado e atua em parceria com o advogado Roberto Podval, defensor de renome na área criminal que já atuou para figuras como o ex-ministro José Dirceu. Relatório da PF que foi tornado público pelo ministro André Mendonça mostrou que Ciro atuou como uma ponte entre o ex-banqueiro e o procurador-geral da República, Paulo Gonet. Na quarta-feira, o nome de Ciro voltou a aparecer, dessa vez por supostamente buscar marcar um encontro entre o ministro André Mendonça, relator do caso Master no STF, e Vorcaro, antes do caso vir à tona. Reportagem publicada pelo site ICL traz mensagens entre Ciro e Vorcaro nas quais Ciro diz estar com Mendonça, e nas quais afirma que está tentando marcar um encontro entre os dois. Em nota, o ministro confirmou um encontro com Vorcaro e outro com o advogado, nos quais o assunto foi o julgamento que estava no STF dos créditos de precatórios de interesse do banco, e que estava, na época da reunião, com pedido de vista de outro ministro. As reuniões ocorreram em março, segundo o ministro, antes das operações policiais envolvendo o caso Master. Interlocutores do ministro afirmam que apesar de Ciro ter dito a Vorcaro que estava marcando as reuniões, quem intermediou o encontro entre o magistrado e o ex-banqueiro foram pessoas ligadas a Vorcaro que eram da igreja protestantes e procuraram o deputado Cezinha da Madureira (PL-SP). Embora o nome de Gonet não esteja salvo na agenda do celular de Vorcaro, os investigadores identificaram diversas referências ao PGR em conversas do banqueiro com Ciro, além de situações em que o advogado colocou os dois em contato. Ciro Rocha Soares é advogado em São Paulo e diz ter atuado como defensor de Vorcaro no Master. Formalmente, já integrou a defesa do banqueiro logo após a prisão preventiva do banqueiro, em novembro do ano passado, e fez parte da equipe que apresentou ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) um habeas corpus para tentar reverter a decisão da 10ª Vara Federal Criminal do Distrito Federal, ao lado de Podval. Podval é um advogado influente no meio jurídico e político. Ciro atuava em um escritório a Bahia do advogas Rafael Mattos, com foco em direito eleitoral. Ele deixou a sociedade há cerca de 11 anos, ficou mais um tempo em Salvador e depois se mudou para São Paulo. Na capital paulista, segundo pessoas próximas, Ciro passou a atuar no escritório de Podval e chegou a se apresentar como sócio do advogado. Podval afirma que Ciro não compõe formalmente a sociedade, mas afirma que eles atuam em parceria. — Ciro é um grande amigo. Não compõe formalmente a sociedade, mas é fato que temos uma parceria e atuamos juntos em vários casos. Tenho enorme respeito por ele, além de grande profissional e pessoa de grande coração e caráter — disse Podval ao GLOBO. Por meio de sua assessoria, Ciro confirma que possui uma parceria com Podval e afirma que atua no escritório do advogado. Sobre os demais assuntos, não quis comentar. Ciro tem uma longa trajetória na advocacia baiana, com trânsito em Brasília. O GLOBO ouviu três deputados federais da Bahia e um advogado, e os relatos foram no mesmo sentido: Ciro era um advogado com um perfil de bom relacionamento com clientes. Os deputados afirmaram que depois de ir a São Paulo e passar a frequentar Brasília, o advogado também teve uma rápida ascensão financeira. Enquanto parlamentares por vezes o tratem como um "lobista", um amigo frisa que o defensor construiu sua trajetória com muito trabalho e dedicação. Segundo essa pessoa, Ciro é uma pessoa muito habilidosa, inteligente e com facilidade para estabelecer relações, além de se destacar sua grande simpatia. Ciro nasceu na Bahia, mas foi criado em Minas. Depois, voltou para a Bahia, se casou e passou um longo período vivendo em Salvador, onde construiu sua carreira como advogado. Mais tarde, deixou a Bahia e foi para São Paulo, ampliando também sua circulação por Brasília. Nesse meio tempo, em uma passagem em Minas Gerais, conheceu Vorcaro, antes de assumir o controle do Banco Master. Segundo relatos, os dois são atleticanos e se conheceram no estádio do Mineirão, em Belo Horizonte, na torcida do Galo. A relação de Ciro com Vorcaro, portanto, é anterior à passagem do empresário pelo Banco Master e antecede as articulações que aparecem nas mensagens analisadas pela Polícia Federal. Já a relação com o senador Otto Alencar (PSD-BA) começa quando Ciro se casa com a filha de um amigo de Otto. O senador contou que os dois chegaram a morar no mesmo prédio por 10 anos. Ciro já atuou como advogado de Otto. Segundo o senador, o advogado atende a vários prefeitos e deputados do PSD da Bahia. — Sim, é meu amigo pessoal, foi meu vizinho durante mais de 10 anos (...) Muitas vezes viajamos juntos de Salvador pra Brasília — disse Otto ao GLOBO. Segundo o senador, os dois são amigos há quase 30 anos. Otto afirmou ainda que Ciro nunca lhe pediu ajuda relacionada a Vorcaro. — Ele nunca me pediu ajuda para o Vorcaro, não. Até porque eu não tenho poder para ajudar — afirma. A relação de Ciro com Vorcaro também é citada em reportagem da Folha de S. Paulo publicada em março deste ano. Em uma conversa com o então banqueiro, o deputado Fausto Pinato (PP-SP) escreveu: “Oi, amigo, precisamos fazer a vídeo conferência eu vc e Ciro”. Segundo a assessoria de Pinato, o “Ciro” era Ciro Rocha Soares. O deputado, que é presidente da Frente Parlamentar Brasil-China, afirmou que, em 2023, havia sido procurado pelo advogado porque o Master tinha interesse em abrir uma filial no país. A videoconferência, porém, não chegou a ocorrer, e o banco desistiu do projeto, segundo o parlamentar. Em maio deste ano, a colunista Malu Gaspar, do GLOBO, revelou que o advogado visitou Vorcaro na Polícia Federal e que alegava representar o dono do Master em processos cíveis. Ciro já havia sido citado em reportagens sobre o uso dos jatos de uma empresa de Vorcaro que transportaram vários políticos. Otto viajou três vezes em jatinhos de uma empresa ligada a Vorcaro no primeiro semestre do ano passado. Ao ser questionado sobre o assunto em reportagem da Folha, o senador afirmou que não sabia de quem era o avião e que viajou a convite de Soares. Em abril de 2024, Ciro aparece intermediando uma articulação em torno da eleição para a presidência do Conselho Nacional dos Procuradores-Gerais de Justiça (CNPG). Segundo o relatório da PF divulgado nesta semana, o advogado pediu a Gonet que convencesse um candidato a desistir da disputa em favor de Jarbas Soares Júnior, primo de Ciro. Em áudio enviado a Daniel Vorcaro, Ciro relatou que Gonet havia ligado para o candidato e conseguido sua desistência. Três dias depois, Jarbas foi eleito presidente do CNPG como candidato único. Antes de enviar o áudio a Vorcaro, Ciro havia escrito: “Gonet é firme” e encaminhado uma mensagem de Jarbas agradecendo ao procurador-geral. Hoje, Jarbas é candidato a vice-governador de Minas Gerais na chapa de Patrus Ananias (PT). A relação entre Ciro, Gonet e Vorcaro volta a aparecer quase um ano depois. Em 15 de março de 2025, Ciro enviou a Vorcaro uma foto em que aparece ao lado de Gonet. Na sequência, escreveu: “Liga aqui” e, depois, “Ele quer falar com você”. Poucos minutos mais tarde, segundo o relatório, foram registradas quatro chamadas de voz entre Vorcaro e Ciro, a última delas com duração de 3 minutos e 49 segundos. Em 28 de março, Ciro voltou a encaminhar a Vorcaro mensagens atribuídas a Gonet. “Já estou com saudades de você!”, dizia uma das mensagens. Vorcaro agradeceu pelas mensagens. Na sequência, Ciro afirmou que o procurador-geral “lhe adora” e que iria a Londres com o grupo. Em seguida, encaminha a mensagem em que o procurador diz: “Oba! Tomara que tenha charuto e Macalan”. No dia seguinte, o advogado perguntou ao banqueiro se o filho de Gonet poderia acompanhá-los na viagem. Vorcaro respondeu: “Óbvio, né”. A atuação de Ciro para clientes envolvidos em grandes investigações também remonta a casos mais antigos. Ele já advogou para Zuleido Soares Veras, dono da Construtora Gautama e um dos principais personagens da Operação Navalha, deflagrada pela Polícia Federal em 2007 para investigar um esquema de fraudes em licitações e contratos de obras públicas. Ciro atuou na defesa de Zuleido em recurso no Supremo Tribunal Federal (STF).