Principal preocupação dos eleitores e prioridade das campanhas de Tarcísio de Freitas (Republicanos) e Fernando Haddad (PT), a segurança pública ganhou protagonismo nos planos de governo, entrevistas e debates na eleição de São Paulo. O tema, porém, tem fragilidades na maneira como é tratado pelos candidatos. De acordo com especialistas, embora avancem ao destacar o combate ao feminicídio, tanto o incumbente quanto o desafiante apresentam propostas genéricas para as carreiras da Polícia Civil, para aumentar a taxa de elucidação de crimes e para elevar a produtividade da PM. A segurança pública é o tema do segundo capítulo da série "Propostas e desafios" do GLOBO. Nas próximas semanas, até o primeiro turno, reportagens irão detalhar as propostas e desafios em áreas como meio ambiente, saúde e educação. Na semana passada, a série tratou das concessões e privatizações em São Paulo. De olho em pesquisas como a da Quaest de agosto, que mostra que 33% veem a violência como tema mais importante das eleições, além de levantamentos qualitativos diários feitos pelas campanhas, Haddad e Tarcísio têm transformado a segurança em uma disputa por números, narrativas e propostas. O tema esteve em evidência no estado nos últimos anos, principalmente por questões como a infiltração do crime organizado na economia, a proliferação dos roubos de celulares e alianças na capital paulista, os casos chocantes de feminicídio e a alta na letalidade policial. Com origem e atuação nas áreas da educação e da economia (foi ministro em ambas), Haddad propôs um plano de governo em que a segurança é elencada como prioridade número um. O plano é centrado na ideia de "impunidade zero", ou seja, em usar a tecnologia e a integração das investigações para solucionar "todos os crimes". A proposta, no entanto, está distante da realidade: a taxa de solução dos crimes contra o patrimônio está na casa dos 5% em São Paulo. O petista também tenta pegar carona no discurso, normalmente ecoado pela direita, do "fim do prende e solta" dos presos — mas, em vez de abraçar um endurecimento do código penal, Haddad prevê que uma investigação com provas mais robustas dará conta de manter os condenados presos por mais tempo. Nas falas recentes, o candidato tem criticado a forma como a segurança foi tratada nos últimos quatro anos no estado. – Um dos erros do governador atual é que ele ainda pensa com uma cabeça pequena, como se o crime tivesse acontecido aqui no território. Ele não compreende as interconexões do PCC fora de São Paulo, e no mundo, inclusive. Por isso que os Estados Unidos já estão falando de PCC, porque tem repercussão internacional — afirmou Haddad, na última segunda (31), no programa Roda Viva, da TV Cultura. Segundo o ex-ministro da Fazenda de Lula, que citou também o aumento da letalidade policial, Tarcísio "perdeu o controle" da segurança. Tarcísio também prioriza a segurança no plano do possível segundo mandato. O governador se afastou de pautas da direita radical — em 2022, passou o período eleitoral dizendo que descontinuaria a política de câmeras corporais da policiais militares, que agora apoia. Outra diferença é na atenção às mulheres. Há quatro anos, o governador evitou fazer promessas e abusou de termos genéricos no plano, como "proteção à mulher" e "fortalecimento das delegacias". Na eleição atual, ele propõe uma série de medidas para a redução de violência doméstica, uma das "portas de entrada" do feminicídio, como aprimoramento de aplicativos e cadastro de condenados por agressões às mulheres. Em sabatina dos jornais O GLOBO e Valor, além da Rádio CBN, Tarcísio falou sobre o tema ao ser confrontado com a alta nos casos de mortes de mulheres. Na comparação entre 2024 e 2025, os índices cresceram 6,4% no estado. Segundo o governador, o crime é “super difícil de combater” e afirmou que vem discutindo “o tempo todo” com sua equipe como resolver a situação. – Tem o tornozelamento e monitoramento dos agressores de mulheres, São Paulo foi pioneiro nisso, e outros estados começaram a copiar. A gente está evitando feminicídio, nenhuma mulher que tinha medida protetiva e que tinha o agressor tornozelado foi vítima de feminicídio. Então é uma política pública eficaz. A gente instituiu a patrulha SP Mulher Segura e estamos no segundo mês seguido de redução do feminicídio. A questão do tornozelamento tem funcionado muito, levar o agressor para o grupo reflexivo e a criação do banco de dados dos agressores, para que as mulheres saibam quem é e criar um constrangimento para o agressor — afirmou. Letalidade policial Sobre a letalidade policial, Haddad se ancora em números que mostram a elevação de casos de mortes praticadas após intervenção policial. No ano passado, foram 834 caos de óbitos com essa classificação, uma alta de 2,7% na comparação com 2024, segundo levantamento da Rede de Observatórios da Segurança. Os índices, que vinham caindo nas gestões João Doria e Rodrigo Garcia e sobem desde 2023, contrastam com reduções de outros dados, como furtos (queda de 6,3%), roubos (recuo de 18,8%), latrocínios (50% de redução) e homicídios (decréscimo de 3,1%). — A gente não quer abuso, excesso em hipótese alguma, e uma coisa que a gente tem batido muito nas escolas de formação é adesão irrestrita aos procedimentos (...) Mas a gente não pode deixar que o policial fique em risco. E ele tem procedimento — afirmou Tarcísio, em sabatina realizada pelos jornais O GLOBO e Valor e da Rádio CBN, no mês passado. Um dos pontos de convergência entre os postulantes, mesmo que parcial, para reduzir esses índices, passa pela utilização das câmeras instaladas nos uniformes dos policiais militares. Ao contrário de 2022, quando Tarcísio deixou registrado no plano de governo que iria rever o programa de monitoramento, o governador afirma que vai manter a política, mas a forma como as imagens são ativadas e armazenadas — não há mais gravação ininterrupta — é criticada tanto por Haddad quanto por especialistas em segurança pública. Atenção aos feminicídios Em 2025, o país registrou 1.571 casos de feminicídio, o maior número da série histórica do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, publicado pelo Fórum Brasileiro da Segurança Pública. Em São Paulo, esse tipo de crime cresceu 6,4% em 2025, na comparação com o ano anterior, passando de 253 para 270. De olho nas estatísticas - e também por meio das pesquisas diárias, chamadas trackings - Tarcísio ampliou as menções à questão em seu plano de governo. Embora tenha alcance reduzido e específico, o documento funciona como uma espécie de termômetro para os temas que serão priorizados em um eventual novo mandato. Em 2022, foram 19 citações às mulheres no documento entregue à Justiça Eleitoral. Este ano, o assunto foi enumerado 63 vezes, um aumento de 231%. Para o próximo quadriênio, em caso de reeleição, Tarcísio promete instituir um cadastro público para condenados por crimes contra mulheres, além de expandir as delegacias para atendimentos específicos e ampliar um aplicativo que fornece canais para denúncias digitais e em tempo real. Já Haddad, que critica o fato de a maioria das delegacias especializadas não atuarem 24 horas por dia, estabeleceu o compromisso de ampliar os horários das Delegacias de Defesa da Mulher (DDM). Na avaliação da advogada e socióloga Carolina Ricardo, diretora-executiva do Instituto Sou da Paz, as ideias e planos dos dois principais candidatos ao Palácio dos Bandeirantes apresentam evoluções importantes na comparação com 2022, sobretudo na questão que envolve a violência contra a mulher, mas pecam em outras frentes, como em ações para reduzir o número de armas na população civil. – Os dois planos estão bem completos, falam da questão do enfrentamento ao crime organizado, de violência doméstica contra a mulher. Nesse ponto, Tarcísio detalha bastante a questão da violência contra a mulher, até porque tem sido um gargalo. O que eu acho que falta, de uma forma geral, pensando no que a gente considera prioridade, tanto no plano de Haddad, quanto no de Tarcísio, é sobre qual estratégia de ambos para retirar a arma ilegal de circulação – afirma Ricardo, do Instituto Sou da Paz. Para ela, se ambos falam que querem enfrentar o crime organizado, é preciso controlar o domínio territorial, retirando armas de circulação. Sobre o tema "crime organizado", Haddad promete criar um gabinete integrado comandado por ele para lidar com a segurança pública, sob o nome Agência Estadual Antifacção, em que reúne polícias estadual e federal, além de órgãos de controle e fiscalização, como Ministério Público e Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), entre outros. Já Tarcísio diz que vai aumentar as operações integradas contra o crime organizado e cita a operação Carbono Oculto, como forma de desarticular organizações criminosas em ações que envolvam diversas frentes. Investigações fora da pauta Segundo Carolina Ricardo, os planos de integração são positivos, mas ambas as campanhas pecam em não detalhar como vão fortalecer as investigações policiais em suas possíveis futuras gestões. Nos últimos anos, tanto a Polícia Civil quanto o Instituto de Criminalística foram objeto de críticas internas e externas sobre a falta de investimentos e de reposições salariais adequadas aos seus mais de 27 mil servidores. Como consequência, o estado figura na décima quarta posição, entre os 24 entes da Federação, no ranking de resolução de crimes de homicídio, feito pelo Instituto Sou da Paz. A cada dez assassinatos, o estado soluciona apenas quatro. Para o professor da FGV Rafael Alcadipani, especialista em segurança pública, tanto Tarcísio quanto Haddad também patinam na proposição de ideias claras para melhorar a produtividade da Polícia Militar. – A PM costuma divulgar que prendeu tantas pessoas, que apreendeu tanto de drogas, mas isso não quer dizer nada, ninguém sabe o que é. O que importa é a população saber quanto tempo polícia demora para chegar a uma ocorrência no estado de São Paulo. Por que esse tempo de chegar à ocorrência varia em cidades maiores e cidades menores? Não é incomum a pessoa ficar 40 minutos, 1 hora, esperando chegar uma viatura. Esse tipo de proposta para resolver problemas importantes não vemos em nenhum dos candidatos – diz o professor.