Obra foi vendida em 1940, meses após a invasão nazista dos Países Baixos, e devolvida à família em 2023 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 “A vida colorida”, de Wassily Kandinsky, de 1907 — obra será leiloada pela Christie’s, em Londres, com expectativa de superar R$ 155 milhõe — Foto: Reprodução/NYT Por mais de 50 anos, uma importante pintura de Wassily Kandinsky, “A vida colorida”, permaneceu no museu Lenbachhaus, em Munique, emprestada por um banco da Baviera. Agora, a obra será leiloada pela Christie’s, em Londres, com expectativa de receber lances superiores a US$ 30 milhões (R$ 155 milhões). A pintura pertenceu ao industrial judeu holandês Emanuel Albert Lewenstein, diretor de uma fábrica de máquinas de costura, e à mulher dele, Hedwig Lewenstein Weyermann. Após a morte do casal, ocorrida antes da invasão alemã dos Países Baixos, os descendentes da família foram perseguidos pelos nazistas. A obra acabou sendo vendida em um leilão em 1940, em circunstâncias que permanecem desconhecidas. Em 2023, depois de analisar o contexto em que a transação ocorreu, a comissão consultiva do governo alemão responsável por casos de obras de arte saqueadas pelos nazistas recomendou que a pintura fosse devolvida à família Lewenstein. O banco alemão Bayern LB, então chamado Bayerische Landesbank, havia adquirido a obra em 1972. No mesmo ano em que a recomendação foi feita, a instituição devolveu a pintura aos herdeiros de Lewenstein. “A vida colorida”, executada em têmpera e guache, será um dos destaques do leilão de arte dos séculos XX e XXI da Christie’s, em Londres, marcado para 14 de outubro. A casa espera que a obra seja arrematada por mais de US$ 30 milhões. O maior valor já pago em um leilão por uma obra de Kandinsky foi de 37,2 milhões de libras esterlinas, cerca de US$ 45 milhões na época (R$ 232,2 milhões). O recorde foi alcançado em 2023, quando a Sotheby’s vendeu “Murnau com Igreja II”, que também havia sido restituída aos herdeiros de seus antigos proprietários judeus. “A vida colorida” foi pintada em 1907, durante uma longa temporada de Kandinsky em Paris com sua ex-aluna, companheira e também artista Gabriele Münter. Era, até então, a maior tela produzida pelo pintor. A obra combina influências da vanguarda artística que Kandinsky encontrou nos salões e galerias parisienses com tradições culturais de sua Rússia natal. A pintura apresenta um grupo de figuras vestidas com roupas coloridas em uma paisagem imaginária. Algumas delas remetem ao folclore russo. Um personagem toca um instrumento de sopro; outro segura um bebê. Há ainda figuras empunhando espadas, pedindo esmolas, se abraçando ou rezando. — Obras desse período são extremamente raras — disse Keith Gill, vice-presidente da área de arte dos séculos XX e XXI da Christie’s. Segundo ele, as poucas outras pinturas produzidas por Kandinsky naquele período estão atualmente em museus. — Ela marca uma virada na arte moderna e na carreira de Kandinsky — afirmou Gill. — É difícil exagerar a importância desse período em Paris para o desenvolvimento da arte moderna. A percepção sobre a arte estava mudando mês a mês. Kandinsky realmente não poderia estar em outro lugar para se tornar conhecido. Lewenstein, que reuniu uma grande coleção de arte moderna, comprou a pintura em 1927. Após a morte dele, acredita-se que sua mulher tenha deixado a obra no Museu Stedelijk, em Amsterdã, para que fosse mantida em segurança. A pintura foi levada a leilão em outubro de 1940, poucos meses depois da invasão nazista dos Países Baixos. Apesar de anos de pesquisa, não foi possível determinar em que circunstâncias ocorreu a venda nem quem colocou a obra em leilão. A comissão consultiva alemã afirmou que havia diversos indícios de que a pintura havia sido confiscada em consequência da perseguição nazista. Na ausência de evidências em contrário, concluiu que deveria ser presumido que a perda da obra havia ocorrido de forma involuntária. A Christie’s planeja exibir “A vida colorida” em suas unidades de Zurique, Paris, Nova York e Hong Kong durante o mês de setembro. A partir de 8 de outubro, a obra ficará exposta em Londres, antes do leilão. Os herdeiros de Lewenstein recuperaram ainda outras duas obras pertencentes à coleção da família. Uma delas é outra pintura de Kandinsky, “Pintura com casas”, de 1909, que foi alvo de uma longa e acirrada disputa com a prefeitura de Amsterdã. A terceira obra restituída é uma pintura do artista holandês Jan Sluijters. — Muitos anos de luta se passaram, não apenas pela restituição à minha família, mas pela restituição de obras a muitas famílias judias — disse Francesca Lewenstein Davis, uma das herdeiras. A família ainda procura cerca de 100 obras de arte, segundo James Palmer, fundador da Mondex Corp., empresa especializada na recuperação de obras saqueadas pelos nazistas. — A tarefa é difícil, porque muitas das obras são de artistas menos conhecidos e muitas são desenhos ou gravuras — afirmou Palmer. — Descobrimos que algumas obras foram oferecidas em leilões no passado e estamos fazendo o possível para localizá-las.
Pintura de Kandinsky devolvida a herdeiros judeus após perseguição nazista vai a leilão por mais de R$ 155 milhões
Obra foi vendida em 1940, meses após a invasão nazista dos Países Baixos, e devolvida à família em 2023







