Uma placa indica que ali fica o Serviço de Hepatologia do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), na Ilha do Fundão. O atendimento, como o nome informa, é para doenças do fígado. Mas eram os músculos da coxa de uma mulher de 64 anos que pesquisadores examinavam por meio de ultrassonografia numa manhã de agosto. Na terceira matéria da série "A Revolução dos Músculos", escrita pela repórter especial Ana Lucia Azevedo, contamos com a ciência vem pesquisando o elo entre os músculos e o funcionamento de outros órgãos. Até a próxima sexta-feira, reportagens abordam desde a sua importância (como fazem falta em pessoas como astronautas e pacientes de UTI), as novas "canetas" para esse fim, o risco de anabolizantes, e muito mais. A mulher e os médicos que a atendiam integram um estudo que investiga a relação dos músculos com a saúde geral de uma pessoa. E também almeja validar o uso de análise da composição muscular para identificar riscos de doenças hepáticas. Trabalhos assim são resultado de uma melhor compreensão do papel dos músculos, afirma o coordenador do estudo, o hepatologista João Marcello de Araújo Neto, professor da UFRJ. — A medicina tem revisto o papel dos músculos. Eles se conectam com todo o corpo e são preditores do estado de saúde. Sabemos, por exemplo, que se há gordura no músculo também há no fígado — destaca Araújo Neto. Numerosos estudos têm revelado a importância dos músculos para a saúde de vários órgãos, como pâncreas, sistema imunológico, ossos e cérebro. Pesquisas como a da UFRJ mostram a relevância e a profunda conexão com o bom funcionamento do fígado. O estudo analisará 250 pessoas, homens e mulheres, de 18 a 85 anos. Nem todos os voluntários têm problemas no fígado. Todos são pacientes do hospital, mas não necessariamente da Hepatologia. Até porque a proposta é distinguir que tipo de alteração do músculo pode indicar precocemente complicações no fígado. Através da pele Músculo de boa qualidade é rijo. Flacidez denuncia problemas. Mas os cientistas querem ir além do que se vê a olho nu e investigar o interior dos músculos. Eles analisam, por exemplo, tamanho, espessura, tipo de fibra e presença de lipedema, doença crônica que causa gordura localizada dolorosa e resistente a dietas e exercícios. Depois relacionam esses dados com informações sobre o metabolismo. Entre os exames realizados estão a avaliação de composição corporal por um equipamento de alta precisão de ultrassom e também por dexa. Esta última é o padrão ouro e mede com alta precisão a densidade dos ossos, a quantidade de gordura e a massa muscular. A lista de exames inclui ressonância magnética, elastografia, bioimpedância, ecocardiograma, testes do coração. Também fazem avaliação de lipedema por ultrassom. E ainda exames de sangue para rastrear indicadores do metabolismo e testes de força. A lista de exames inclui ultrassom, ressonância magnética, elastografia, bioimpedância, ecocardiograma, testes do coração — Foto: Custodio Coimbr / Agência O Globo Participam do estudo, além de hepatologistas, médicos de várias especialidades, como endocrinologistas e radiologistas. — Buscamos adquirir o maior número de informações possível e ver qual delas tem relevância clínica — diz a radiologista Priscilla Calvet. Juntos e misturados Os músculos e o fígado trabalham juntos e conversam o tempo todo. Em vez de palavras, trocam mensagens químicas. Uma mesma proteína que inibe o crescimento dos músculos também afeta o fígado. É a miostatina, que pode atuar sobre as células do fígado ligadas à cicatrização e à fibrose hepática. Não à toa, a quantidade e a qualidade do músculo de um paciente são consideradas indicadores de gravidade e a evolução de doenças hepáticas. Outra função muscular importante é de detox. O fígado é o órgão primário encarregado de neutralizar a amônia — um subproduto neurotóxico do metabolismo das proteínas. Ele a converte em ureia para ser eliminada na urina. Porém, quando o fígado falha (como na cirrose), o músculo esquelético assume o papel de principal sistema de emergência do organismo. Ele usa a enzima glutamina sintetase para capturar a amônia circulante e transformá-la em glutamina. Como consequência, pessoas que sofrem de sarcopenia perdem essa segunda linha de defesa desintoxicante. Se tiverem problemas hepáticos, haverá acúmulo de amônia no sangue e disparará o risco de encefalopatia hepática, coma e morte. Detox poderoso Os músculos também participam ativamente do metabolismo. Eles captam o excesso de gordura do sangue proveniente da alimentação e a transformam em energia. Ao fazer isso, impedem que a gordura se acumule e intoxique órgãos vitais como o fígado e o coração. Dessa forma, evitam inflamações e doenças metabólicas. Há outras conexões. Dentre elas, o controle do açúcar. Fígado e músculo são os dois principais depósitos de glicogênio (reserva de açúcar) do corpo humano. Os músculos guardam cerca de 80% de todo o glicogênio do corpo, pois quando estão saudáveis e ativos, capturam o excesso de açúcar circulante pós-refeição. Ao fazer isso, reduzem drasticamente a necessidade do pâncreas de produzir insulina em excesso. Isso alivia o estresse sobre o fígado, evitando que ele precise converter a sobra de glicose em gordura (triglicerídeos). Invasão de gordura Uma das condições que o estudo investiga está a mioesteatose. Ela se caracteriza pelo acúmulo de gordura infiltrada dentro do tecido muscular. A mioesteatose é um indicador da perda de qualidade de um músculo. E a gordura pode se infiltrar nos músculos de mais uma forma. Pode ser intermuscular, quando se acumula entre os feixes musculares. E é intramiocelular, quando gotículas de gordura são estocadas dentro das células musculares. A gordura intramiocelular atrai células de defesa chamadas macrófagos e libera substâncias inflamatórias diretamente no tecido muscular. Isso piora a resistência à insulina e acelera a degradação de proteínas úteis. A mioesteatose está presente em três de cada quatro casos de doença hepática avançada, como cirrose hepática ou insuficiência hepática crônica. Está ligada à gravidade da doença e reduz a sobrevida. Em quadros graves de Covid-19, também aparece como fator independente de pior prognóstico. Inimigo disfarçado O terrível da mioesteatose é que ela se esconde ou se disfarça de músculo saudável. E não à toa estudos como o da UFRJ a elegem como um dos alvos. A mioesteatose pode ocultar a sarcopenia. A pessoa pode apresentar um volume muscular aparentemente normal, mas o músculo está infiltrado de gordura e sem funcionalidade. É um problema comum na obesidade. Se não bastasse, a mioesteatose escapa dos exames de sangue convencionais. O diagnóstico é feito por exames de imagem, para medir a densidade do tecido muscular. Alerta precoce Na mesma linha de pesquisa, cientistas da Universidade de Lanzhou, na China, descobriram que alterações na gordura visceral e na massa muscular são indicadoras de complicações da cirrose. Num estudo publicado na revista Hepatobiliary Communications, eles apresentam padrões específicos do tecido muscular e adiposo que podem ser detectados por tomografias comuns e sinalizam o agravamento da cirrose, mesmo antes do surgimento de sintomas. A cirrose afeta milhões de pessoas no mundo e pode ser decorrente da infecção crônica por hepatite B ou excesso de bebida alcoólica, por exemplo. A doença desequilibra o fígado e causa acúmulo de líquido no abdômen e sangramento perigoso no esôfago. Por isso, leva a internações hospitalares repetidas e morte precoce. A principal autora do estudo, Xiaoyue Zhang, disse que mudanças na gordura visceral e na massa muscular têm significados de alerta totalmente diferentes dependendo do estágio da cirrose. — Para pacientes que já sofreram eventos graves de descompensação hepática, a perda muscular persistente serve como o principal marcador de alerta — salienta ela. Força do bem As pesquisas não buscam somente identificar riscos. A ativação dos músculos pode reprogramar células do fígado e prevenir o surgimento de doenças. Um estudo de cientistas brasileiros mostrou que o desenvolvimento de massa muscular por meio de musculação pode reprogramar as células do fígado e combater a resistência à insulina associada à obesidade. Liderado por cientistas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), o estudo foi publicado na revista Life Sciences. Ele foi realizado com camundongos, mas pavimenta o caminho para tratamentos com humanos. Roedores obesos submetidos a um treino de força equivalente ao de humanos tiveram mudanças na forma como o gene MTCH2, que regula o uso de energia no fígado, se expressa. A obesidade cria um ambiente inflamatório e tóxico no fígado e pode levar a diabetes do tipo 2. Ela acelera o acúmulo de gordura e a fibrose. Mas os exercícios de força reduziram a inflamação e interromperam sinais de estresse celular. A musculação também impulsionou a produção da proteína ATP5. Com isso, restaurou a capacidade das mitocôndrias de gerar energia, o que favoreceu a regeneração das células do fígado. A recuperação energética permitiu que o órgão recuperasse sua sensibilidade à insulina, essencial para controlar a liberação de açúcar na circulação e afastar o risco de diabetes tipo 2. A pesquisa demonstrou que o esforço muscular atua no cerne do metabolismo e altera o funcionamento do DNA do fígado para combater a doença hepática. Em suma, exemplificou como a força dos músculos vai muito além de sustentar e mover o corpo.