A revelação dos diálogos em que o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master, pediu proteção ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes repercutiu nas campanhas presidenciais e contaminou a cena política na terça-feira (1). O candidato do PL, Flávio Bolsonaro, cobrou da tribuna do Senado o afastamento do magistrado do cargo, e o andamento dos pedidos de impeachment contra ele que estão engavetados, enquanto a campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) buscou se distanciar do episódio. Fazendo coro a Flávio, os candidatos do PSD, Ronaldo Caiado, e do Novo, Romeu Zema, também exigiram o afastamento de Moraes da Corte Suprema, enquanto o postulante do Missão, Renan Santos, se voltou ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), para cobrar dele o andamento dos requerimentos de impeachment contra o magistrado. Em paralelo, o candidato do Avante, Augusto Cury, propôs rever a vitaliciedade dos cargos dos ministros do STF. Leia mais Nesta terça-feira (1º), o ministro André Mendonça, relator do caso Master no STF, retirou o sigilo das investigações que, segundo a Polícia Federal, trazem mensagens trocadas entre Vorcaro e Moraes. No material, os investigadores sugerem que o ministro editou o contrato de R$ 131 milhões que o Barci de Moraes, da advogada Viviane Barci de Moraes, firmou com o Master em 2024. Em outra mensagem, Vorcaro também teria pedido para Moraes interceder em favor dele junto ao diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e ao Procurador-geral da República, Paulo Gonet. Moraes ainda não se manifestou sobre o assunto. O vazamento das mensagens deu fôlego à campanha de Flávio, que havia começado o dia na defensiva, diante de novas revelações da revista “piauí”, segundo a qual teria havido mais repasses de Vorcaro ao fundo responsável pelos recursos do filme “Dark Horse”, sobre a biografia de Jair Bolsonaro, conforme dados do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf). No fim da tarde, Flávio subiu à tribuna para cobrar diretamente de Alcolumbre o andamento dos processos de impeachment contra Moraes, diante de indícios de crime de responsabilidade. “O Alexandre de Moraes precisa ter o processo de impeachment imediatamente iniciado, imediatamente iniciado, hoje, de ofício”, exigiu, em tom enfático. O coordenador da campanha do PL, senador Rogério Marinho (PL-RN), ponderou, contudo, que nem ele nem Flávio assinarão pedidos de impeachment, para evitar nulidades, porque os senadores são juízes em um eventual processo contra o magistrado. Contudo, ele lembrou que assinou uma notícia-crime, em que pediu o afastamento do magistrado, e a prisão dele, à Procuradoria-Geral da República (PGR). A campanha de Flávio usará a munição contra Lula, atribuindo ao petista uma relação de proximidade com Moraes, que o bolsonarismo identifica como algoz do ex-presidente. O ministro foi relator do processo sobre a tentativa de golpe de Estado, que condenou Bolsonaro à prisão. O episódio acabou diluindo o impacto do vazamento de dados do Coaf, de que teria havido um repasse adicional de US$ 1,6 milhão, cerca de R$ 8,5 milhões, para o fundo que administra a contabilidade do filme, elevando o total transferido pelo banqueiro para R$ 63,7 milhões. Flávio também apareceu em mensagens pedindo os recursos para Vorcaro. Ele admitiu o fato, ponderando se tratar de dinheiro privado. Questionado mais cedo sobre o novo aporte, o senador disse desconhecer a operação, e direcionou as perguntas à produtora responsável pelo longa. Em outra frente, coordenadores da campanha lulista tentaram desvincular o petista do episódio, e acusaram Mendonça de seguir um “timing” eleitoral. Além disso, o vazamento das mensagens frustrou a expectativa da campanha de Lula com a “semana de retomada” da imagem do petista, com a votação de projetos relevantes no Congresso. A percepção é de que a nova crise em torno do Banco Master ofuscou a “discussão propositiva”, e atraiu o debate sobre a corrupção para a pauta nacional. A maior expectativa dos lulistas se voltava para a votação da proposta de emenda constitucional (PEC) do fim da jornada 6 x 1, prevista para esta quarta-feira (2) na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ). Ao mesmo tempo, a análise do fim da “taxa das blusinhas” também deverá render dividendos eleitorais. O candidato Ronaldo Caiado (PSD) elevou o coro contra Moraes, afirmando que ele “não tem a menor condição de continuar à frente do Supremo” e que o ministro precisa “responder pelos atos”. “Olha, eu acho que a atitude do [ministro do STF André] Mendonça é [de] estar aí buscando realmente esse nível de envolvimento. Esse aí [ministro Alexandre de Moraes] deve responder pelos atos dele já no caso Master”, afirmou Caiado, após visitar a Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, na região central da capital paulista. Em vídeo publicado nas redes sociais, o candidato do PSD alertou para o risco de que as revelações sobre o magistrado prejudiquem a credibilidade da Corte, levando até mesmo ao descumprimento de decisões judiciais. “Aí nós vamos viver um momento crítico da democracia”, afirmou. O candidato Romeu Zema (Novo) defendeu nas redes sociais o impeachment e a prisão de Moraes. "Esse projetinho de ditador nunca me enganou", afirmou Zema nas redes sociais. "É por isso que ainda como governador de Minas protocolei o pedido de impeachment do Alexandre de Moraes. Impeachment é pouco. Ele merece é cadeia. Chega de intocável enriquecendo às custas do povo. Prisão pra ele e que devolva todo o dinheiro", declarou. Em outra publicação, Zema compartilhou uma mensagem de apoio a André Mendonça. "Temos o ministro André Mendonça como a nossa esperança para que tudo seja apurado, investigado a fundo e eu peço a todos vocês que orem por ele nesse momento aí tão difícil. Ele precisa de muita força. Que Deus o ilumine nessa jornada que pode resgatar a credibilidade do Supremo e também do Brasil, que nós todos tanto precisamos", afirmou Zema em vídeo. O candidato Renan Santos (Missão) vai entrar com o pedido de impeachment de Alexandre de Moraes e também de Dias Toffoli, que na véspera restringiu sua campanha eleitoral na internet. "Não reconheço Toffoli e Alexandre de Moraes como ministros. Eles não tem mais condição moral de exercerem o cargo que estão, por isso estamos entrando com o pedido de impeachment dos dois no Senado", afirmou. Augusto Cury (Avante) defendeu a investigação séria de todos os envolvidos no escândalo do Banco Master. “Tem que ser investigado, sem nenhuma exceção, e com a máxima seriedade, porque quem paga os colaboradores do Judiciário em todas as esferas, inclusive do STF, ele quer respostas, ele merece respostas. Então, minha posição é que tem que ser investigada de maneira séria, porque não podemos mais admitir essa corrupção que, infelizmente, infectou a sociedade brasileira”, disse a jornalistas, durante evento de inauguração do comitê de campanha em Belo Horizonte. Andrea Jubé, Gabriela Guido, Murillo Camarotto, Sofia Aguiar, Lucas Borges Teixeira, Guilherme Carvalho, Lucas Monteiro e Cibelle Bouças, de Brasília, São Paulo e Belo Horizonte