Em novembro de 2018, nesta Folha noticiava-se: "Marcela Temer apresentará residência oficial à mulher de Bolsonaro". Naquele momento, Michelle Bolsonaro ainda era apenas a mulher de Jair. A sequência de notícias daquele período dá conta de uma primeira-dama diligente em sua nova casa, o Palácio da Alvorada. Mandou tirar os anjos barrocos, as estátuas históricas de santos católicos e o quadro "Orixás", de Djanira, da parede. Tinha tudo para ser a herdeira do duvidoso epíteto "bela, recatada e do lar". Não ficou nisso.

Oito anos depois daquela notícia, a mulher de Jair ganhou nome e protagonismo ímpar na política nacional. A menos de um mês do fim das eleições majoritárias, não seria equívoco dizer que Michelle Bolsonaro tem tudo para ser uma das maiores vencedoras da disputa. Não faço referência apenas à disputa nas urnas —nessa, provavelmente, ela também ganhará—, mas ao capital político que a ex-primeira-dama acumulou em poucos meses.

Michelle Bolsonaro transformou o lugar feminino no cotidiano do cuidado com a família e o marido em seu espaço de afirmação política. É isso que Christina Vital e Jacqueline Teixeira chamam de pedagogia de Ester no livro, "Mulheres e Extrema Direita no Brasil" (Ed. Elefante).