Rodolfo Margato, economista da XP: Se não fosse o conjunto de medidas fiscais, talvez estivéssemos discutindo crescimento de PIB mais perto de 1%, e não de 2%, este ano — Foto: Rogerio Vieira/Valor Após forte crescimento na largada do ano, na esteira de mais uma safra recorde de grãos, do desemprego nas mínimas e de uma bateria de estímulos fiscais e parafiscais da União e dos entes subnacionais, mirando as eleições de outubro, a economia brasileira deve ter passado por uma acomodação significativa entre abril e junho. O crescimento do PIB deve desacelerar para uma alta de 0,4% no segundo trimestre na comparação trimestral, segundo a mediana de 62 projeções colhidas pelo Valor junto a instituições financeiras e consultorias. As estimativas variaram entre alta de 0,2% e 0,7%. No primeiro trimestre, o avanço foi de 1,1%. Na comparação com o segundo trimestre de 2025, o ponto médio das projeções colhidas aponta para alta de 1,8%, mesma taxa observada no primeiro trimestre. Neste caso, as estimativas têm piso em 1,2% e teto em 2,4%. A perda de tração da atividade econômica era algo esperado, mas ocorreu em meio a um volume crescente de indicações de que os anos de crescimento de 2% ou mais podem ter ficado para trás. Houve, em especial, preocupações com o endividamento crescente das famílias e das empresas, bem como frustração com o efeito de programas do governo federal para estimular a economia, além do alto grau de aperto monetário. “O Desenrola teve volume importante de dívidas negociadas, perto de R$ 25 bilhões, mas o impacto para a atividade a curto prazo não foi como o esperado. O crédito para taxistas e motoristas de aplicativos do Move Brasil e o programa Reforma Casa Brasil também tiveram execução bem abaixo do esperado”, exemplifica o economista Rodolfo Margato, da XP. A corretora vê todos os setores, tanto sob a ótica da oferta quanto da demanda, avançando no segundo trimestre, exceção feita às exportações, para as quais prevê estabilidade. Já a absorção doméstica - que combina consumo das famílias, do governo e formação bruta de capital fixo - deve avançar 0,6% entre abril e junho, metade dos 1,3% registrados entre janeiro e março. “Ainda estimamos desempenho sólido para esse agregado. O mercado de trabalho segue firme, a renda real tem mostrado acomodação, mas está positiva, e outras iniciativas governamentais tiveram sucesso na primeira metade do ano”, pondera Margato, citando o crédito consignado para o setor privado, as linhas de empréstimo para caminhões e ônibus do Move Brasil e o Brasil Soberano, bem como a isenção do Imposto de Renda para quem recebe até R$ 5 mil. “Nas nossas contas, o conjunto de medidas fiscais, já levando em consideração a execução mais fraca de alguns programas, adiciona perto de 1,1 ponto porcentual (p.p.) ao crescimento do PIB de 2026. Ou seja, não fossem elas, talvez estivéssemos discutindo crescimento mais perto de 1%, e não de 2% este ano.” Na ponta mais otimista, o BRP projeta 0,6% de alta para o PIB do segundo trimestre ante os três meses anteriores, com ajuste sazonal. Para Nelson Rocha Augusto, presidente e economista-chefe do banco, a Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) será destaque do lado da demanda com avanço de 0,65% no trimestre. Muitos economistas veem variação negativa para esta linha, nota Rocha Augusto - as projeções coletadas pelo Valor vão de -1,7% a +1,3% - mas, apesar do momento negativo do setor de máquinas e equipamentos, ele entende que a construção civil deve segurar o investimento. “Na base da pirâmide há o Minha Casa Minha Vida, que continua andando muito forte. A fotografia da construção civil para unidades habitacionais mostra desaceleração, mas não é negativa. E durante o segundo trimestre também enxergamos um volume mais expressivo de investimentos em infraestrutura. Um monte de coisa em saneamento básico, investimentos de concessões públicas que aconteceram lá pra trás, tudo isso está em marcha. Não menos importante, vemos também uma aceleração do investimento em óleo, gás e mineração, principalmente por causa do preço do petróleo e derivados, da indústria química etc.”, diz. Na ponta mais pessimista com o desempenho do PIB, com alta de 0,2% no período, a Terra Investimentos também prevê bom desempenho dos investimentos, ainda que desacelerando fortemente em relação aos 3,5% registrados no primeiro trimestre. Os indicadores de alta frequência, como o consumo de insumos típicos da construção civil, mostram isso, diz Homero Guizzo, economista da corretora, mesmo com taxa de juros alta. “O juro age primeiro sobre os planos de investimento e só depois sobre os números de investimento efetivamente realizados”, afirma. "Uma empresa pode estar concluindo agora um investimento que foi planejado há vários trimestres. Além disso, mesmo o efeito do juro sobre os planos de investimento não é necessariamente imediato. A única coisa realmente imediata é o aumento do custo de oportunidade na hora da decisão de investir." De modo geral, no entanto, o trimestre “deve ser de franca desaceleração da atividade, mesmo quando consideramos que no primeiro trimestre há uma sazonalidade residual que os algoritmos do IBGE não conseguem captar. A sazonalidade da agricultura está se deslocando, principalmente por causa da soja”, segue Guizzo. O consumo das famílias deve desacelerar para alta de 0,3% e, do lado da oferta, diz, os serviços devem crescer apenas 0,1%, em contraste com o que se costuma ver. “No caso da indústria, o ramo extrativo deve continuar liderando o desempenho, puxado principalmente por petróleo. E a agricultura ainda deve ter um crescimento positivo ante o primeiro trimestre, mas algo modesto, em torno de 0,1%.” Taxa alta de juros tem o benefício de jogar inflação para baixo, mas há muitos efeitos perversos” As dúvidas sobre o ritmo da atividade se avolumam sobre a perspectiva para o terceiro trimestre. A mediana das projeções coletadas pelo Valor aponta alta de 0,3% na margem, mas os dados correntes sugerem que este número pode ser menor. “Para o terceiro trimestre, nossa projeção oficial é de alta de 0,3%, mas o indicador de alta frequência da XP aponta para estabilidade”, diz Margato. “Imaginamos que isso ocorra, principalmente, pela perda de efeito dos impulsos fiscais e parafiscais e da execução mais concentrada dos gastos dos governos no primeiro semestre, devido à legislação eleitoral. Além disso, as métricas de endividamento e comprometimento de renda das famílias têm piorado cada vez mais e, a isso, se soma a incerteza eleitoral e as dúvidas sobre qual será a política econômica do próximo governo.” Em agosto, o Índice de Confiança do Consumidor (ICC) da FGV registrou simultaneamente o quarto mês consecutivo de baixa e o pior baque em 20 meses, ao passo que os indicadores da indústria e da construção civil também mostraram recuo. Segundo o economista, caso a estabilidade se confirme para o terceiro trimestre, a projeção para 2026 como um todo deve ser rebaixada dos atuais 2% para algo mais perto de 1,8%. Na visão do economista-chefe da JGP, Fernando Rocha, a desaceleração econômica é fruto, principalmente, da postura contracionista por parte do Banco Central. “Até algum tempo atrás, alguns alertavam que ela poderia não estar produzindo o efeito esperado, mas agora estamos vendo que sim. A desaceleração atual seria ainda maior não fosse o impulso fiscal, com o gasto público crescendo mais que o PIB”, ressalta. Rocha, que projeta alta de 1,7% para o PIB este ano - abaixo da mediana de 1,9% obtida pelo Valor -, alerta ainda para o risco de uma recessão nos próximos trimestres. “O crédito está num momento complicado, tanto para a pessoa física quanto para a jurídica. O comprometimento de renda das famílias, que sempre girou em torno de 20%, agora está na casa de 30%, algo muito relevante em termos de valor”, diz. “Não foram só famílias e empresas que se endividaram, o governo Lula assumiu com dívida bruta em 72% e vai entregar um pouco acima de 82% do PIB. Então a dívida de todos cresceu e também o custo cresceu. Não trabalhamos no nosso cenário com recessão, mas acreditamos que existe, sim, um risco de parada súbita do crédito, seja porque a inadimplência subiu muito, seja por algum problema do lado das empresas. E o ciclo de crédito, quando é interrompido, vira um problemão”, observa Rocha. “Avalio que o BC também esteja de olho nestes riscos e que parte da razão pela qual tem cortado a Selic seja justamente o risco de crédito porque, olhando do ponto de vista estrito da inflação, ela não dá muito conforto.” Mesmo na ponta mais otimista, a expectativa é de que o esfriamento da economia ficará mais visível a partir do terceiro trimestre do ano, diz Rocha Augusto. No BRP, a projeção para o consumo das famílias no segundo trimestre é de alta de 1,5%, bem acima da mediana (0,6%). A partir de julho, no entanto, o cenário é outro. “Eu diria que, em agosto, o consumo das famílias deve estar bem de joelhos. Há um endividamento extremamente elevado e a taxa de juros está absurdamente alta para o atual patamar de inflação”, avalia “O Banco Central tem que agir e combater a inflação, mas não nesse nível de taxa de juros. Essa taxa alta traz mais ônus para a sociedade do que bônus e acaba afetando o consumo das famílias, o custo do capital, a dívida pública. Tem o benefício de jogar a inflação para baixo, mas tem muito efeito perverso.” Guizzo, da Terra Investimentos, pondera que a autoridade monetária jogou a Selic para cima para combater a inflação e tem enfrentado uma política fiscal expansionista da União e dos governos regionais. “Com o ritmo atual de fechamento de hiato, devemos passar a maior parte de 2027 com ele ainda aberto e, portanto, pressionando a inflação para cima”, observa. “A política monetária está funcionando, só que o efeito colateral desagradável é esse, de desaceleração do crescimento. Vai ter que passar por isso até que a economia saia do superaquecimento e possa desaquecer de verdade.” Para Margato, um segundo semestre mais negativo deve impactar, via carrego estatístico, a projeção para 2027 - a XP tem uma projeção de 1%, bem abaixo do consenso (1,5%). “O que pode estar ocorrendo na segunda metade do ano é a antecipação de uma ressaca que esperávamos somente para o ano que vem”, observa. “Recessão para o ano fechado, por outro lado, acho improvável, porque ainda vemos vetores como crescimento real da renda e exportações sustentando atividade. O que pode ocorrer é uma recessão técnica [duas leituras negativas seguidas]. Quando se cresce 1% no ano, é normal que alguns trimestres tenham resultado bem perto de zero. Nesse sentido, não é tão difícil escorregar para um número ligeiramente negativo.”