Clássico carioca pode ser descrito como o jogo em que as duas torcidas podem ter saído do estádio com dúvidas na cabeça 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Flamengo venceu o Botafogo por 3 a 0 — Foto: GILVAN DE SOUZA/FLAMENGO A reunião de talentos do elenco do Flamengo, a maior do futebol brasileiro, é capaz de produzir momentos como o terceiro gol, o de Carrascal. Um lance para ver e rever, fechando a tarde do Maracanã. Mas o clássico do abafado domingo carioca não se resumiu a isso. Pode ser descrito como o curioso jogo em que, embora o placar termine num resultado elástico, até justificável dada a diferença técnica entre os elencos, as duas torcidas podem ter saído do estádio com dúvidas na cabeça. Acontece que o conforto não foi a cara do segundo tempo, por exemplo. O que faz os alvinegros, diante de um clube em plena transição de um dono para outro, aparentemente sem a perspectiva de repetir os investimentos de anos recentes, pensarem no que será o futuro. O time do primeiro tempo, com uma proposta menos ambiciosa e mal executada, coloca o time na segunda metade da tabela, num flerte com uma zona de risco. Já o do segundo tempo, pareceu uma versão mais próxima de manter o time numa caminhada mais segura. Deixou a imensa maioria rubro-negra do Maracanã apreensiva até o 2 a 0 de Samuel Lino, já a cinco minutos do fim. E por falar na parte rubro-negra do estádio, estes se perguntam por que é tão comum o Flamengo apresentar um primeiro tempo de enorme autoridade, até ver o controle do jogo escapar na segunda etapa. Não que tenha havido uma sucessão de chances claras do Botafogo, mas das 12 finalizações contra quatro antes do intervalo, o jogo passou a dez arremates a seis, mas desta vez a favor do alvinegro. Embora o Botafogo tenha tido uma ou outra chegada na primeira etapa, o que inclui um gol bem anulado, o domínio do Flamengo foi absoluto. A ideia de Rodrigo Bellão com seu 5-3-2 esbarrava na ausência absoluta de pressão no início da construção de jogadas do rival. Pulgar, Léo Pereira e Léo Ortiz, com Jorginho logo adiante, venciam com facilidade o tímido acosso de Arthur Cabral e Montoro. A partir daí, tinham espaço para lançar às costas de uma defesa adiantada, como no gol de Samuel Lino. Mais do que isso, se um defensor do Flamengo avançava com bola, atraía um meia do Botafogo, geralmente Danilo, e criava-se enorme facilidade para triangulações pelos lados, ou para acionar o excelente trabalho de Pedro como pivô. Sobre ele, na hora de terminar jogadas, houve mais requinte do que objetividade em alguns momentos. A ideia alvinegra de lançar Arthur Cabral para uma casquinha acionando um companheiro, ou uma corrida de Montoro, parecia limitada. E o segundo tempo confrontou o Flamengo com outros desafios. Danilo Pereira tentava atacar em profundidade quando Arthur Cabral era lançado, criando mais preocupação para a zaga rubro-negra. A pressão do time de Jardim foi se tornando menos eficaz, e foi o Botafogo quem mudou sua formação sem bola: pressionou de forma mais agressiva e tirou o conforto dos volantes do Flamengo. Danilo já se adiantava para buscar Jorginho ou Pulgar. O Botafogo assumia riscos, até cedia espaços, mas limitava o jogo rubro-negro. A bola ficou mais tempo no campo de ataque do Botafogo do que na primeira etapa e a posse do Flamengo caiu de 71% para 55%. Mas a este Botafogo, que tem bons jogadores até o centro do campo, falta justamente o que sobra ao rival: qualidade no ataque e opções ofensivas de banco. De um lado, Junior Santos e Villalba não melhoraram o cenário; do outro, Carrascal entrou, deu o passe para Lino no 2 a 0, e finalizou ele próprio a linda jogada do 3 a 0. Cebolinha, outro substituto, participou do lance; Paquetá saiu do banco e marcou um gol anulado por impedimento. Se o jogo teve seus momentos de igualdade, no fim das contas os contrastes decidiram o placar. FRUSTRAÇÃO O 3 a 3 de Curitiba é um resultado justo, num jogo em que o Athletico foi melhor no primeiro tempo e, no segundo, o Fluminense teve um admirável controle, especialmente após o 2 a 2 e as entradas de Acosta e Serna. Mas é indisfarçável que o pênalti inexistente já nos acréscimos deixa um sabor amargo para o tricolor. O alento, retratado num jogo competitivo num estádio dificílimo de se jogar, é que o time chega à reta final da temporada em ascensão. CAMINHO DA SALVAÇÃO A esta altura, importa menos se o Cruzeiro poupou seus titulares. O que o Vasco vive, além de uma corrida contra o risco de cair é uma espécie de competição com ele próprio: melhorar, competir mais. E isso tem acontecido, apesar das conhecidas limitações. No sábado, além de ser ordenado para duelar e atacar em velocidade, o Vasco superou seu maior fantasma: fazer os gols. Colidio não marcou, mas acrescenta qualidade técnica ao setor ofensivo. OBRIGADO, PENIDÃO Imagine você, cheio de receios, entrar numa redação cheia de craques do jornalismo e ser acolhido como se fosse da família. Foi assim que me senti quando pisei no GLOBO há quase 20 anos. Um dos símbolos da gentileza era Marcos Penido, o homem quieto na barulhenta editoria de esportes, mas sempre pronto a dar uma palavra de apoio aos jovens que sonhavam ser, apenas, uma fração do repórter que ele foi. Ficam a saudade e as lembranças.