Retinol, ácidos e procedimentos estéticos entram cada vez mais cedo na rotina de jovens, enquanto especialistas discutem os efeitos do excesso de ativos e a importância de preservar a barreira cutânea 0.5x 1x 1.25x 1.5x 2x 00:00 00:00 Skincare na Geração Z: o que explica a preocupação precoce com o envelhecimento — Foto: Magnific Nunca foi tão fácil, para uma pessoa de 20 e poucos anos, saber o que é retinol, ácido glicólico, niacinamida ou peptídeo. Nas redes sociais, conteúdos sobre cuidados com a pele transformaram ativos antes restritos ao consultório dermatológico ou às prateleiras de especialistas em itens corriqueiros de rotinas cada vez mais elaboradas. Séruns, máscaras, esfoliantes e procedimentos estéticos passaram a fazer parte do cotidiano de jovens que, em muitos casos, ainda estão longe da faixa etária em que os sinais mais evidentes do envelhecimento costumam aparecer. O movimento produz uma situação curiosa: ao mesmo tempo em que a Geração Z tem mais informação sobre como cuidar da pele, também cresce nas redes a percepção de que parte desses jovens apresenta ressecamento, irritação, manchas e alterações de textura. A preocupação com o envelhecimento, portanto, começa antes mesmo de ele se tornar uma questão visível e levanta outra dúvida: será que a tentativa de prevenir os sinais da idade pode, em alguns casos, estar contribuindo para sensibilizar a pele? A resposta não é simples. Genética, exposição solar, sono, estresse, alimentação e outros fatores interferem na aparência e na saúde da pele. Segundo o cirurgião plástico facial Fernando Molina, especialista em cirurgia da face e rinoplastia, o problema não pode ser atribuído a uma geração específica, mas deve ser analisado a partir da combinação de hábitos que fazem parte da vida contemporânea. "A genética continua tendo um papel importante, mas o ambiente e os hábitos também interferem muito na qualidade da pele. Exposição solar, privação de sono, estresse, alimentação inadequada e uma rotina cosmética excessiva podem contribuir para inflamação, alteração da barreira cutânea e perda de qualidade da pele ao longo do tempo", afirma. Quando cuidar demais vira problema Parte da mudança na relação com o skincare passa pela lógica das redes sociais. Rotinas com muitas etapas e produtos são apresentadas como sinônimo de dedicação e eficácia, enquanto ingredientes específicos ganham popularidade rapidamente e são incorporados por públicos cada vez mais jovens. A consequência pode ser uma espécie de corrida por resultados: se um ativo promete melhorar a textura, outro promete clarear manchas e um terceiro estimula a produção de colágeno, a impressão é de que combiná-los pode acelerar o processo. A pele, no entanto, não funciona necessariamente nessa lógica cumulativa. Existe uma barreira cutânea responsável por ajudar a manter a hidratação e proteger o organismo de agentes externos. O uso frequente ou inadequado de determinados ácidos e a combinação de muitos produtos podem provocar irritação e comprometer essa proteção. Não por acaso, a expressão "skin barrier" — ou barreira da pele — se tornou tão popular quanto os próprios ativos que ajudaram a criar o problema. Nas redes sociais, relatos de ardência, descamação e vermelhidão passaram a acompanhar a descoberta de que uma rotina de cuidados pode ser excessiva. "Uma rotina eficiente não é necessariamente uma rotina longa. O excesso de ativos pode irritar a pele e gerar um efeito contrário ao desejado. O cuidado precisa respeitar a fisiologia cutânea, e não seguir simplesmente aquilo que está viralizando naquele momento", diz Molina. E o celular? A vida digital também entrou na conversa sobre envelhecimento da pele. A luz visível e, especificamente, a luz azul emitida por telas são objeto de estudos sobre possíveis efeitos cutâneos. Isso, porém, não significa que passar horas diante do celular possa ser apontado, isoladamente, como causa do chamado envelhecimento precoce. Quando o assunto é fotoenvelhecimento, a exposição à radiação ultravioleta continua sendo um dos fatores ambientais mais relevantes. No caso das telas, a discussão parece fazer mais sentido quando o aparelho é observado como parte de um conjunto de hábitos. O tempo excessivo no celular pode, por exemplo, estar associado a noites mais curtas, horários irregulares, estresse e uma rotina menos ativa. Para Molina, são esses comportamentos, e não o aparelho em si, que merecem atenção. "O problema não é colocar a culpa no celular como se ele fosse o responsável isolado pelo envelhecimento. Precisamos olhar para o comportamento associado a ele: noites mal dormidas, estresse, sedentarismo, menor exposição à luz natural e uma rotina cada vez mais desregulada. A saúde da pele acompanha a saúde do organismo", explica. A prevenção antes dos sinais A preocupação antecipada com o envelhecimento também abriu espaço para conceitos como o chamado collagen banking. A ideia, popularizada no mercado de beleza e nas redes sociais, é adotar estratégias desde cedo para preservar a estrutura da pele e retardar a perda de colágeno associada ao avanço da idade. A tendência traduz uma mudança importante na relação dos jovens com a estética: em vez de esperar que rugas, flacidez ou alterações de volume apareçam para então tentar corrigi-las, a proposta é agir antes. O limite entre prevenção e antecipação de procedimentos, porém, pode ficar menos claro quando o medo de envelhecer passa a orientar decisões estéticas ainda na juventude. "Prevenção é proteger a pele e preservar sua qualidade. Não significa começar a fazer procedimentos invasivos aos 20 anos por medo de envelhecer. Cada idade tem suas necessidades, e a melhor estratégia é entender o que realmente faz sentido para aquela pessoa", pondera.