As primeiras pesquisas de intenção de voto para o Senado nesta largada de campanha eleitoral apontam uma tendência de aumento da polarização na Casa em que 54 cadeiras, duas por estado, estão em disputa este ano. Considerando os 27 parlamentares em metade de mandato e os candidatos numericamente à frente nos levantamentos, os partidos do Centrão perderiam espaço, mas o bolsonarismo e a esquerda ainda estariam distantes de formar maioria para aprovar projetos de seu interesse que dependem de quórum qualificado. A eleição de senadores é uma prioridade de bolsonaristas que miram pautas ideológicas com travas constitucionais, como o impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). O Partido Liberal (PL), do presidenciável Flávio Bolsonaro, foi a legenda que mais lançou candidatos a senador: são 33 postulantes a uma vaga em 25 estados — só não há representantes no Amapá e em Alagoas, onde o partido apoia Arthur Lira (PP), ex-presidente da Câmara dos Deputados. Números projetados Levantamento feito pelo GLOBO com pesquisas Quaest em todos os estados — à exceção do Piauí e Ceará, que foram considerados os números do Datafolha; e do Pará, que ainda não teve os dados divulgados — mostra que 13 candidatos do PL aparecem nas duas primeiras colocações. Somados os senadores da legenda que continuam no Congresso, isso representaria um aumento de 10 para 23 cadeiras. A conta pode ser ainda maior, já que em outros sete estados, candidatos do partidos estão numericamente em terceiro lugar, mas empatados na margem de erro em segundo. Do outro lado do espectro político, o PT é o segundo partido com candidatos mais bem posicionados nas pesquisas, com nove postulantes numericamente em primeiro e segundo lugares. O partido do presidente Lula também foca no Senado para dar garantir governabilidade para o petista num eventual quarto mandato. Em 22 estados, há pelo menos um membro do PT ou do PL nas duas primeiras colocações. Em Mato Grosso do Sul, o partido bolsonarista montou uma chapa puro-sangue e, até agora, está no topo da corrida ao Senado, assim como em Rondônia. As pesquisas apontam o mesmo na Bahia, mas com o PT. Na avaliação de Marco Antônio Carvalho Teixeira, professor de Ciência Política da FGV EAESP, apesar da tendência de crescimento, os dois partidos ficariam aquém do pretendido para dominar o Senado. Em votação, por exemplo, para aprovar impeachment de ministros, seria necessária anuência de 2/3 dos 81 senadores — o equivalente a 54 votos. — O Senado é conhecido como a casa do equilíbrio e da busca pela moderação. Se esse cenário se confirmar, vai exigir um esforço de negociação grande de qualquer um dos lados. E é isso que se espera da política, conversar e buscar algum tipo de saída nas diferenças. Ou pode gerar um travamento da pauta. O cenário para a eleição no Senado, contudo, ainda pode mudar muito até o dia da eleição, já que há um alto percentual de eleitores indecisos e que não conhecem os postulantes. Em alguns estados, como Minas Gerais, esse índice chega a mais de 90%, conforme apontam as pesquisas. De acordo com a pesquisa Quaest de agosto, a defesa do impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal vai pesar na decisão de apenas 11% do eleitorado. O levantamento mostra que o envio de emendas para o seu estado e o volume de obras pesam mais na hora do voto. Repasse de emendas é mais um tema que tensiona as relações do Congresso com o STF. Na semana passada, durante uma videoconferência na Universidade de São Paulo, o ministro Flávio Dino, relator dos processos relacionados às verbas parlamentares na Corte, afirmou que elas “são o maior vetor de corrupção” da burocracia estatal. Doutora em ciência política e professora do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Mayra Goulart pontua que esses embates acerca das emendas vão além da direita e que o campo pode, inclusive, atrair apoios para ações contra os ministros no STF. — Um movimento anti-Supremo relacionado às emendas pode dar uma coesão inédita ao Legislativo. Em meio às tensões entre os dois Poderes, no ano passado o ministro Gilmar Mendes quis alterar a lei para que o pedido de impeachment contra ministros do Supremo fosse atribuição exclusiva da Procuradoria-Geral da República (PGR), reduzindo o papel do Senado no processo — pela legislação, qualquer cidadão pode apresentar denúncias à Casa Legislativa contra integrantes da Corte. Após reação dos parlamentares, Gilmar reviu parte da decisão, mantendo a premissa dos senadores, mas fixou que seria preciso da maioria qualificada da Casa para o andamento dessas ações; antes bastava apenas a maioria simples (41 senadores). Agora, os 54 votos do quórum qualificado também são necessários, por exemplo, para aprovar Propostas de Emenda à Constituição (PEC), como a que discute o fim da escala 6x1 e da segurança pública. Cenário na largada da campanha — Foto: Editoria de Arte O tamanho do Centrã Das 54 cadeiras que estão em disputa no Senado, 34 pertencem hoje a partidos do Centrão. Se a tendência das pesquisas se confirmar, daqui a um mês o bloco conhecido pelo fisiologismo pode perder dez vagas para siglas como PDT, PSB e Novo. O cenário atual por partido — Foto: Editoria de Arte Em alguns estados, no entanto, o Centrão domina. Em Alagoas, Arthur Lira está à frente na pesquisa com 20% da intenção dos votos, seguido por Renan Calheiros (MDB), com 18%, que está empatado tecnicamente com Marina JHC (PSDB), com 15%. Já em outros locais-chave a disputa está embolada. No Rio, a petista Benedita da Silva está numericamente à frente (10%), seguida por candidatos que dividem o voto da direita. O bolsonarista Carlos Jordy (PL) é o segundo da lista (7%), mas Marcelo Crivella (Republicanos) e Carlos Portinho (PL) tem 5%, transformando todo cenário num empate técnico. O segundo voto da esquerda também fica dividido entre Monica Benício (PSOL, com 5%) e Pedro Paulo (PSD, com 3%). A divisão de bolsonaristas fica acentuada também em Santa Catarina, onde Carlos Bolsonaro (PL), filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, se lançou à disputa. Diferentemente da madrasta, Michelle Bolsonaro (PL), que lidera as pesquisas com folga no Distrito Federal, o ex-vereador do Rio aparece em segundo lugar no levantamento, mas empatado na margem de erro com Carol de Toni (PL). Os dados mostram que ele pontua bem no primeiro voto dos eleitores, com 21%, mas chega a somente 12% para a segunda vaga. O senador Esperidião Amin (PP), um dos 32 que tentam a reeleição, lidera no estado. Em São Paulo, três candidatos aparecem empatados tecnicamente: Guilherme Derrite (PP), Marina Silva (Rede), com 12%, e Simone Tebet (PSB), com 11%.