A definição das candidaturas ao Senado vem provocando rachas na direita em pelo menos seis estados e tem frustrado apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro que viam como certa a candidatura. Os atritos desafiam os planos de expansão desse grupo político na Casa, uma das prioridades para a eleição deste ano. A disputa por espaço na base bolsonarista resultou, por exemplo, no rompimento entre o ex-governador do Distrito Federal Ibaneis Rocha (MDB) e sua sucessora, Celina Leão (PP), que assumiu o comando da gestão em abril e disputará a reeleição. A ruptura foi divulgada pelo emedebista em um vídeo nas redes sociais na última semana, quando afirmou que o partido apostaria em uma candidatura própria após “muitas decepções”. O distanciamento ocorre em meio às investigações sobre o envolvimento do Banco de Brasília (BRB) no escândalo do Banco Master, tema que gerou desgastes para a imagem de Ibaneis e pode colocar em risco a reeleição da governadora. Profusão de candidatos O pano de fundo da troca de farpas é a formação da chapa. Ibaneis, que apoiou Bolsonaro nas últimas eleições, quer concorrer ao Senado junto com a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL), o que foi rechaçado por ela. Amiga de Celina, Michelle é cotada para concorrer ao lado da deputada Bia Kicis (PL). A decisão de Ibaneis foi referendada pelo presidente nacional do MDB, Baleia Rossi, que apareceu ao lado do ex-governador e afirmou que “não há a possibilidade de o MDB não participar da chapa majoritária pela sua história e pelo que fez nos últimos anos”. Com isso, ampliou o número de candidatos à direita. Já Celina disse, também pelas redes, que está “preocupada em resolver os problemas do Distrito Federal”, enquanto “tem pessoas preocupadas com a campanha”. — As pessoas precisam entender que sucessão nunca será submissão. Tenho plena consciência que fui leal enquanto estive do lado dele (Ibaneis) como vice-governadora em tempos muito difíceis — afirmou. Já em São Paulo foi desencadeada uma briga no PL depois do anúncio do presidente da Assembleia Legislativa(Alesp), André do Prado (PL), em uma vaga ao Senado na chapa de reeleição do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos). A escolha refletiu a preferência do presidente nacional da sigla, Valdemar Costa Neto, e recebeu o aval do ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL), cotado para a vaga antes de deixar o Brasil e anunciado como suplente. A outra vaga da direita é do ex-secretário Guilherme Derrite (PP). A decisão gerou críticas do deputado e pré-candidato ao Senado pelo Novo Ricardo Salles, que foi ministro do Meio Ambiente na gestão Bolsonaro. Desde o anúncio, o parlamentar atacou Eduardo, acusando-o de fazer parte do grupo que negociou a vaga de André do Prado em troca do suposto recebimento de até R$ 60 milhões. Em resposta, Eduardo disse que o ex-aliado se transformou em uma “biruta de vento político”, que “está virando meme” e pediu “mais maturidade”. Quem busca se beneficiar da briga à direita é a esquerda: a ex-ministra Simone Tebet trocou domicílio e partido (do MDB ao PSB) para fortalecer a candidatura de Lula em São Paulo. A outra vaga é disputada pelos ex-ministros Marina Silva (de saída da Rede) e Márcio França (PSB). Indecisão à mineira Já em Minas Gerais a disputa acontece na chapa à reeleição do governador Mateus Simões (PSD), sucessor de Romeu Zema (Novo). Interessado em atrair o PL, ele tem deixado uma das indicações ao Senado disponível para o partido de Bolsonaro, que tem como pré-candidato à Casa o deputado Domingos Sávio. A segunda vaga foi prometida a Marcelo Aro (PP), ex-secretário de Governo da gestão Zema, em um gesto de aproximação com a federação União Brasil-PP. O PSD de Simões, por sua vez, filiou recentemente o senador Carlos Viana, que buscará a reeleição, mas corre o risco de ser alijado da chapa. O arranjo contraria aliados do senador, que esperavam um bom desempenho dele nas urnas após presidir a CPI do INSS. O jogo, no entanto, ainda pode virar a favor de Viana, caso o PL sacramente aliança com o senador Cleitinho (Republicanos). Outra desavença ocorre em Goiás, a partir da decisão da direção do PL de lançar a candidatura do senador Wilder Morais ao governo, dificultando os planos do deputado Gustavo Gayer. Integrante da “tropa de choque” do bolsonarismo nas redes sociais, Gayer tinha preferência por estar ao lado do grupo do ex-governador Ronaldo Caiado (PSD), em uma composição com a ex-primeira-dama Gracinha Caiado (União), favorita nas pesquisas. Além de sua mulher, o pré-candidato à Presidência lançou outros três nomes para compor a chapa do governador Daniel Vilela (MDB), seu sucessor: o senador Vanderlan Cardoso (PSD), o deputado Zacharias Calil (MDB) e o ex-ministro Alexandre Baldy (PP). Com exceção de Baldy, todos aparecem à frente de Gayer nas intenções de voto até o momento, de acordo com pesquisa Genial/Quaest divulgada no mês passado. No PL, a disputa pela outra vaga ficou entre os vereadores de Goiânia Oséias Varão e Major Vitor Hugo — este desistiu para tentar voltar à Câmara. O racha é ainda maior em Mato Grosso do Sul, onde quatro pré-candidatos disputam a indicação do PL para a composição da chapa à reeleição do governador Eduardo Riedel (PP). No ano passado, com aval de Bolsonaro, Valdemar Costa Neto prometeu as duas vagas ao Senado ao ex-governador e presidente do diretório regional, Reinaldo Azambuja, e ao ex-deputado Capitão Contar, ambos apoiados pelo senador e presidenciável Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Carta de Bolsonaro Em fevereiro, no entanto, Jair Bolsonaro escreveu uma carta na prisão dizendo que seu escolhido para a vaga é o deputado Marcos Pollon — que cogitou se filiar ao Partido Novo devido à falta de apoio interno até a manifestação do ex-presidente. Apesar disso, além dos três nomes, o partido decidiu lançar a pré-candidatura de Gianni Nogueira, vice-prefeita de Dourados e líder do PL Mulher no estado. Em Santa Catarina, por sua vez, parte da disputa foi resolvida pela indicação de Carlos Bolsonaro, ex-vereador pelo Rio de Janeiro e filho do ex-presidente, e da deputada Caroline de Toni, que ameaçou deixar o PL caso não fosse escolhida. O arranjo, no entanto, deixou de fora o senador Esperidião Amin (PP), que buscará a reeleição e, desde então, declarou apoio a João Rodrigues (PSD), ex-prefeito de Chapecó e adversário previsto para enfrentar o governador Jorginho Mello (PL), que tentará novo mandato em outubro.