"Eu sou dono desse corpo/Faço dele o que quiser/ Mas o prazo do meu mando/ Vai só até onde lhe aprouver". Estes são os quatro primeiros versos do poema "Nós", uma das produções mais obscuras na história da literatura (ignora-se, inclusive, se seria a quadra o poema inteiro ou parte de uma obra maior).
Não é que possíveis estrofes tenham se perdido na Batalha de Alcácer-Quibir, no naufrágio do Titanic ou na gaveta de um boticário bocaiuvense que em 1887 enlouqueceu de amores pela filha de um coronel e tomou formicida com suco de buriti, é que as estrofes ainda não foram escritas. Rascunhei essas mal traçadas hoje de manhã, enquanto corria: ainda não sei se é "game over" ou "to be continued".
Geralmente corro com fone, ouvindo música ou podcast e fica difícil compor versinhos –mesmo redondilhas bestas como as de acima. Hoje, no entanto, corria numa estrada de terra em Ubatuba e de tempos em tempos tinha que parar de contemplar a mata e o céu azul, pois o cenário bucólico era atravessado por um Jeep, um Corsinha ou um busão a 390 km/h. Fones de ouvido, portanto, eram tão recomendáveis quanto antolhos.
(gostaria de deixar claro que, no parágrafo anterior, usei "atravessado" em seu sentido literal. A estrada cortava a mata atlântica, e, portanto, um carro que por ela passasse "atravessava" o "cenário bucólico". O dia em que vocês me virem "atravessado por afetos" ou cometendo qualquer "atravessamento" do tipo, por favor, ofereçam-me formicida com suco de buriti).






