O Nepal pediu ajuda especializada a países vizinhos para reforçar as operações de busca e resgate após o deslizamento que atingiu uma região fronteiriça do Himalaia e deixou 633 mortos e quase 3 mil desaparecidos. O ministro das Relações Exteriores do país, Shisir Khanal, afirmou neste sábado que o governo solicitou assistência específica a nações amigas diante das dificuldades encontradas pelas equipes no terreno. Segundo a CNN, entre os reforços estão 11 profissionais da Índia especializados no resgate de pessoas presas em túneis. De acordo com Khanal, mais equipes com esse tipo de especialização devem chegar ao Nepal vindas da China. — Expressamos nossa sincera gratidão aos nossos vizinhos, países amigos e parceiros por oferecerem seu apoio e assistência neste momento difícil — disse o chanceler. A ajuda é necessária em meio a condições extremamente difíceis para os trabalhos de busca. Uma espessa camada de lama cobre as áreas atingidas, dificultando a localização de vítimas e sobreviventes. Na quarta-feira, uma enorme parede de lama atribuída ao colapso de uma geleira soterrou casas, derrubou pontes e arrastou veículos no Nepal e na região autônoma chinesa do Tibete. O número de desaparecidos chegou a quase 3 mil, segundo dados oficiais dos dois países. No Nepal, 626 mortes foram registradas, enquanto outras sete foram contabilizadas no Tibete. Na Índia, autoridades recuperaram ainda sete corpos em rios que descem do Nepal e que, acredita-se, sejam vítimas da tragédia. Resgates em condições extremas Kawan Koirala, integrante da Equipe de Resposta a Desastres do Nepal, afirmou à AFP que as buscas avançam com dificuldade. Segundo ele, familiares aguardam a localização de seus parentes, vivos ou mortos, mas a quantidade de lama torna o trabalho especialmente complexo. — Também é muito traumático para mim. É a primeira vez que vejo algo assim. Há lama por toda parte. Já tivemos enchentes no Nepal antes, mas não como esta — diz Koirala, visivelmente exausto após uma jornada de 18 horas de trabalho. Uma das principais operações está concentrada em uma usina hidrelétrica, onde cerca de cem pessoas permanecem presas em um túnel desde o desastre. O gabinete do primeiro-ministro informou que as equipes de emergência começaram a retirar lama e escombros para desobstruir a entrada e permitir o acesso aos possíveis sobreviventes. A lista de desaparecidos no Nepal inclui trabalhadores de grandes projetos de infraestrutura energética, além de dezenas de excursionistas e peregrinos que seguiam em direção ao monte Kailash, no Tibete. Sobreviventes relatam a destruição completa de comunidades próximas aos rios. — Todos os assentamentos próximos ao rio foram destruídos. Não sobrou nada — afirma Buddhi Ram Dangol. Em uma base do Exército em Bidur, usada como centro de operações de resgate, familiares se aglomeraram diante de listas de sobreviventes afixadas em uma parede. Kalka Sharda disse ter ido ao local em busca do filho, que trabalhava em uma usina hidrelétrica e continua desaparecido. Milhares ainda sem contato No território nepalês, 2.426 pessoas estão sem contato com familiares e autoridades, entre elas centenas de estrangeiros. No Tibete, onde jornalistas estrangeiros têm acesso limitado, a imprensa estatal informou sete mortos e 554 desaparecidos. As autoridades chinesas também disseram ter evacuado 555 turistas que estavam presos na região e 499 moradores chineses. Além da operação de resgate, as autoridades temem novas inundações devido à formação de grandes volumes de água represada nas áreas afetadas. Em algumas localidades, a destruição também começa a provocar escassez de alimentos e água potável. A Cruz Vermelha estima que até 93 mil pessoas possam ter sido afetadas pela catástrofe e alertou que o número de mortos pode continuar aumentando. Embora a causa exata do colapso da geleira ainda não esteja esclarecida, as mudanças climáticas vêm provocando o derretimento de geleiras em diferentes partes do mundo, aumentando o risco de desastres desse tipo. Reconstrução pode custar bilhões Entre os desaparecidos estão dezenas de devotos hindus de diferentes países que viajavam em peregrinação ao monte Kailash, considerado sagrado por várias religiões. Sivaranjani Muthunathan, de 46 anos, viajava de ônibus com outras 56 pessoas em direção à fronteira chinesa quando o grupo ficou preso no que inicialmente acreditava ser um congestionamento. — De repente, houve neblina, fumaça, algo que parecia nos envolver — conta. Ela mostrou um vídeo gravado com o celular no qual uma torrente avançava em direção ao veículo. Diante da extensão dos danos, o ministro das Relações Exteriores do Nepal estimou que a reconstrução das regiões e das infraestruturas devastadas custará vários bilhões de dólares. (Com AFP)